Associação Renasce Uma Nova Esperança oferece dignidade a crianças com deficiências graves
Em meio a rotinas marcadas por limitações severas, diagnósticos difíceis e, muitas vezes, pela ausência de apoio, um espaço em Campo Grande se tornou sinônimo de acolhimento, dignidade e esperança. Há quase duas décadas, a Associação Renasce Uma Nova Esperança vem mudando a realidade de crianças com microcefalia, hidrocefalia e paralisia cerebral – e, sobretudo, de suas mães.
À frente desse trabalho está Iris dos Santos Moreira Lopes, fundadora e presidente da instituição, que carrega na voz firme e nos olhos marejados a dimensão de uma missão que, segundo ela, não foi escolhida – foi confiada.
“Tem profissões que a gente escolhe e tem outras que Deus escolhe por nós. E a minha, eu tenho certeza que Ele escolheu”, afirma.
Mais do que uma entidade de assistência, a Renasce se consolidou como uma verdadeira rede de apoio para famílias atípicas, oferecendo não apenas atendimentos de saúde, mas também escuta, pertencimento e humanidade em um cotidiano muitas vezes invisibilizado.
Um começo que virou propósito
A história da Renasce começou há 19 anos, com um objetivo simples e, ao mesmo tempo, imenso: cuidar de crianças com deficiências graves e oferecer qualidade de vida dentro das possibilidades de cada uma.
Hoje, a instituição atende 52 crianças, com uma equipe multidisciplinar que inclui fisioterapia, fonoaudiologia, terapia ocupacional, hidroterapia, psicologia e assistência social. Os atendimentos acontecem nos períodos da manhã e da tarde, todos com hora marcada – uma organização necessária diante da alta demanda e da limitação de profissionais.
Mas o cuidado vai além das salas de atendimento.
Enquanto os filhos passam pelas terapias, as mães participam do chamado “centro-dia”, um espaço pensado especialmente para elas. Ali, há rodas de conversa, leitura, sessões de cinema, atividades de musicalização e até um coral, o “Vozes de Amor”, criado pela própria Iris.
“Essas mães não vêm só para trazer o filho. Elas vêm para serem cuidadas também. Aqui, elas são abraçadas, ouvidas, valorizadas”, explica.
O peso invisível das mães atípicas
A rotina dessas mulheres é marcada por renúncias profundas. Muitas criam seus filhos sozinhas, após o abandono dos parceiros, e enfrentam uma sobrecarga física e emocional constante.
“Elas não têm com quem deixar o filho para ir ao mercado, para descansar um pouco. Ninguém cuida de uma criança com deficiência para essa mãe”, relata Iris.
Além disso, há o luto permanente – não pela perda física, mas pela quebra de expectativas.
“A maternidade começa com um sonho. E, quando a criança nasce com deficiência, esse sonho se transforma. Essa mãe vive um luto todos os dias”, diz.
Na Renasce, esse luto é compartilhado. E, de alguma forma, suavizado.
“Quando elas chegam aqui, a gente quer dividir essa dor. Mostrar que elas não estão sozinhas”.
Pequenos avanços, grandes vitórias
Em um cenário onde a cura muitas vezes não é uma possibilidade, cada pequeno avanço ganha proporções gigantes.
Uma criança que consegue ficar em pé. Outra que sorri pela primeira vez. Um momento sem dor.
“Para nós, isso é tudo. Meu coração quase explode de alegria”, conta Iris.
Ela relembra situações marcantes, como o último abraço dado a uma criança que não voltou no dia seguinte. Episódios que evidenciam a fragilidade dessas vidas – e, ao mesmo tempo, a importância de cada instante vivido com dignidade.
“A minha alegria é saber que, enquanto viveu, essa criança foi cuidada, foi amada, sorriu”.
Muito além da saúde
A atuação da Renasce ultrapassa o campo clínico. A instituição oferece alimentação, cestas básicas, leite, apoio emocional e até momentos de lazer – como festas de aniversário e passeios.
“Eles não são convidados para aniversários, não são chamados para brincar. Então a gente faz isso aqui. A gente cria essas experiências”.
A estrutura, no entanto, precisa atender não só as crianças, mas também seus irmãos, que frequentemente acompanham as mães.
“Se vem uma criança junto, ela não vai ficar olhando. Ela participa. Isso aumenta muito os custos”.
Atualmente, cerca de 600 pessoas são impactadas direta ou indiretamente pela instituição, considerando famílias e colaboradores.
As dificuldades de manter quem cuida
Apesar da relevância do trabalho, a Renasce enfrenta desafios constantes para se manter ativa.
Com 23 funcionários remunerados, a instituição funciona como uma empresa: paga aluguel, contas, encargos e folha salarial. Parte dos recursos vem de repasses públicos, mas a maior fatia depende de doações da sociedade civil.
“O nosso maior desafio hoje é manter a instituição funcionando e conquistar novos parceiros”, afirma Iris.
A falta de constância nas doações é um dos principais obstáculos. Apoios pontuais surgem, mas nem sempre se mantêm.
“Tem gente que ajuda uma vez e some. Mas a instituição não pode parar”.
Sonho da sede própria
Entre os maiores objetivos da Renasce está a conclusão da sede própria, uma obra em andamento que pode transformar a capacidade de atendimento.
Hoje, 52 crianças são assistidas. Com a nova estrutura, será possível atender até 160 – um salto significativo diante da fila de espera.
“A gente tem muitas crianças aguardando. E não consegue atender mais por falta de espaço”.
A sede representa não apenas crescimento, mas a possibilidade de ampliar o alcance do acolhimento.
Como ajudar
A sobrevivência da Renasce depende, essencialmente, da solidariedade.
E, ao contrário do que muitos pensam, não é preciso muito para fazer diferença.
“Um litro de leite já muda o dia de uma família. Um pacote de macarrão já ajuda”.
As doações podem ser financeiras ou em itens como alimentos, fraldas, roupas e até serviços voluntários. Para quem prefere, é possível contribuir diretamente com contas da instituição, como água e luz.
“Não é sobre o valor. É sobre o coração, sobre empatia, sobre olhar para o outro”.
Uma mensagem que permanece
Após quase duas décadas de dedicação, Iris segue firme, movida por um propósito que, segundo ela, vai além de si mesma.
“Eu estou aqui a serviço de Deus. Nada é por mim. Tudo é porque Ele existe em mim”.
E, mesmo diante das perdas, das dificuldades e da rotina intensa, a mensagem que ela deixa é de esperança – a mesma que dá nome à associação.
“Enquanto essas crianças estiverem aqui, vai renascer esperança todos os dias. É isso que nos fortalece. É isso que nos faz continuar.”
Serviço
Doações podem ser feitas pela chave Pix
(67) 981270140
Banco do Brasil
08674898000195
Localização: Av Madrí 300 vila Alba
Obs: materiais de construção também são aceitos.
Telefone para contato: 67 3015-0758
Por Suelen Morales