Ministro Wellington Dias cita experiência com arroz no Sul e destaca estoques para proteger produtores e consumidores
A possibilidade de eventos climáticos extremos associados ao El Niño 2026/2027 levou o governo federal a defender, em Campo Grande, a antecipação de medidas para reduzir impactos sobre a população e a produção de alimentos. Durante o encontro Diálogos Regionais – El Niño 2026/2027, realizado nesta terça-feira (1º), na UFMS (Universidade Federal de Mato Grosso do Sul), o ministro do Desenvolvimento e Assistência Social, Família e Combate à Fome, Wellington Dias, afirmou que Mato Grosso do Sul precisa estar preparado para chuva intensa, estiagem, calor e baixa umidade.
Para ele, Mato Grosso do Sul, por seu peso na produção agrícola nacional, precisa se preparar para oscilações climáticas que podem comprometer lavouras, pressionar preços e exigir respostas do poder público.
Dias citou como exemplo o impacto de períodos de seca e enchentes sobre a produção de arroz no Rio Grande do Sul. Segundo ele, os efeitos sobre a agricultura acabam chegando ao consumidor, como ocorreu com a elevação do preço do produto. A experiência levou o governo a estimular, desde 2023, uma maior descentralização do plantio de arroz, incluindo estados como Mato Grosso do Sul, Mato Grosso e Goiás.
O ministro destacou que a prevenção também passa pela formação de estoques. Em Campo Grande, durante a visita à unidade armazenadora da Conab, ele acompanhou o armazenamento de milho produzido após uma safra considerada positiva. A estratégia, explicou, permite ao governo atuar diante de mudanças no mercado e de eventuais problemas na produção.
“Agora mesmo, a gente teve uma supersafra de milho. E aí, caem os preços. Entra a Conab e protege os produtores, comprando esse alimento”, afirmou. Segundo o ministro, a manutenção dos estoques permite que o país tenha uma reserva caso ocorram problemas posteriormente. “Lá na frente, se der algum problema, temos estoque de milho, de arroz, de outros produtos.”
A preocupação, segundo o ministro, envolve os dois lados da cadeia. A preparação deve garantir renda aos pequenos produtores em períodos de excesso de oferta e, ao mesmo tempo, evitar que uma quebra de produção provoque aumento expressivo no preço dos alimentos. “De um lado, proteger o pequeno. Do outro lado, proteger o consumidor, para não ter elevação no preço”, disse.
Preparação chega ao campo
A preocupação com os efeitos do clima também aparece em medidas para o setor agropecuário. Nota técnica elaborada pela Embrapa e entregue ao Ministério da Agricultura e Pecuária reúne 163 recomendações para reduzir riscos de perdas provocadas por eventos climáticos. O documento foi elaborado por um grupo de trabalho sobre o El Niño, com participação de especialistas da Embrapa e do Inmet (Instituto Nacional de Meteorologia).
Das medidas, 14 são gerais para o setor agropecuário, 139 são direcionadas a segmentos produtivos e dez são ações de apoio a políticas públicas. Entre os riscos considerados estão irregularidade no início das chuvas, precipitação abaixo da média, déficit hídrico prolongado, temperaturas elevadas, chuvas acima da média e tempestades severas.
As recomendações incluem monitoramento meteorológico, uso do Zoneamento Agrícola de Risco Climático, diversificação da produção, planos de contingência, irrigação, drenagem, seguro rural e reservas financeiras.
Indígenas no plano
A preparação defendida pelo governo também inclui comunidades indígenas, quilombolas e populações periféricas. O ministro dos Povos Indígenas, Eloy Terena, afirmou que as ações estão organizadas em três frentes: alimentação, adaptação climática e atendimento emergencial às comunidades.
Segundo Terena, os ministérios dos Povos Indígenas, das Mulheres e da Igualdade Racial vêm trabalhando na elaboração de planos de adaptação climática. Para as comunidades indígenas, há previsão de distribuição de cestas de alimentos, em ação da Funai (Fundação Nacional dos Povos Indígenas) em parceria com a Conab.
No Pantanal, Terena destacou o trabalho das brigadas indígenas para prevenção e combate às queimadas. De acordo com ele, existem 67 brigadas indígenas no país, sendo duas em Mato Grosso do Sul, nas terras indígenas Ipegue e Kadiwéu. Segundo o ministro, elas foram estruturadas a partir de 2023, com treinamento e equipamentos. “As próprias comunidades indígenas estão se organizando para fazer frente a essas demandas junto às suas comunidades”, disse.
O ministro também citou a saúde indígena. Segundo ele, a situação de chikungunya que havia atingido uma comunidade indígena em Dourados está controlada e deixou de ser considerada uma emergência. Permanecem, porém, problemas estruturais, como o acesso à água potável.
Ainda de acordo com o ministro, a Funai já autorizou obras destinadas a resolver o problema de abastecimento. O recurso, segundo Terena, foi viabilizado pela bancada federal de Mato Grosso do Sul e já está na conta do governo estadual. A expectativa apresentada por ele é de que as obras comecem ainda neste ano.
SUS monta plano para enfrentar efeitos do El Niño
O Ministério da Saúde reuniu nesta terça-feira (1º), gestores e técnicos de todo o país para definir como o SUS (Sistema Único de Saúde) deve agir diante dos possíveis efeitos do El Niño. A mobilização envolveu representantes dos 26 estados e do Distrito Federal, que trabalharam na identificação dos riscos e das estruturas necessárias para atender cada região.
A discussão partiu de um trabalho iniciado em junho, quando o ministério começou a orientar os estados na elaboração de cenários e planos de contingência. Nesta nova rodada, o foco passou a apontar as prioridades de cada território e estabelecer as ações que deverão constar nos planos estaduais.
A preocupação é antecipar a organização do atendimento para situações provocadas por eventos climáticos extremos, evitando que a resposta seja montada somente depois de uma emergência. As equipes também avaliaram as condições das populações mais expostas e a necessidade de manter os serviços de saúde funcionando em cenários adversos.
Por Biel Gill e Ian Netto