Especialista explica por que a frase “eu não quero ir para a escola” merece atenção das famílias
Com o retorno das aulas na rede pública de ensino de Campo Grande, pais e responsáveis precisam redobrar a atenção aos sinais emocionais apresentados por crianças e adolescentes. Frases aparentemente simples, como “eu não quero ir para a escola”, podem esconder mais do que preguiça ou resistência à rotina e, segundo especialistas, indicam que o período de adaptação após as férias pode desencadear sofrimento psicológico que merece escuta e cuidado.
Segundo o psiquiatra Eduardo Araujo, especialista em saúde mental, para a maioria das crianças e adolescentes, a readaptação à rotina escolar ocorre de forma gradual nos primeiros dias de aula. No entanto, em alguns casos, o retorno à sala de aula pode representar um desafio emocional significativo, indo além do desconforto esperado nesse período de transição.
“Uma certa dificuldade nos primeiros dias é esperada. O sinal de alerta aparece quando o sofrimento é intenso, persistente e começa a interferir no dia a dia do adolescente”, explica o psiquiatra Eduardo Araujo, especialista em saúde mental.
Veja cinco motivos que podem estar por trás do ‘eu não quero ir para a escola’
Se, para alguns, a volta às aulas significa reencontrar amigos e retomar atividades, para outros ela desperta sentimentos difíceis de nomear. Segundo o especialista, essa resistência pode ter diferentes origens:
1. Medo do novo ou da mudança
Novo ano letivo, professores diferentes, mudanças na turma ou maior cobrança podem gerar insegurança e ansiedade.
2. Dificuldades de socialização
Adolescentes mais tímidos ou que passaram longos períodos isolados durante as férias podem ter dificuldade em retomar o convívio social.
3. Bullying ou experiências negativas anteriores
Situações de exclusão, humilhação ou conflitos não resolvidos fazem com que a escola seja associada ao sofrimento.
4. Cobrança excessiva por desempenho
Pressão por notas, comparações com colegas ou expectativas irreais podem provocar medo de errar e sensação de fracasso.
5. Excesso de telas e desorganização da rotina
Uso prolongado de jogos, redes sociais e dispositivos eletrônicos interfere no sono, na concentração e no interesse pelas atividades escolares.
“Em muitos casos, a queixa não é sobre a escola em si, mas sobre o que ela representa emocionalmente para aquele jovem”, pontua o psiquiatra.
Nos primeiros dias ou semanas, alguns comportamentos são considerados esperados no processo de retorno à rotina:
• sono desregulado;
• preguiça excessiva ao acordar;
• irritação pontual;
• dificuldade de concentração;
• queda leve no rendimento escolar.
“Esses sinais tendem a melhorar conforme os hábitos vão sendo reorganizados. O segredo é não forçar demais: mudanças graduais ajudam o corpo a entender que é hora de retomar o ritmo”, orienta Eduardo Araujo.
Quando é hora de ligar o sinal de alerta:
Alguns sintomas, no entanto, merecem atenção redobrada, especialmente quando persistem:
• dores de barriga ou de cabeça antes de ir à escola;
• náuseas ou vômitos sem causa clínica;
• tristeza constante ou choro fácil;
• irritabilidade intensa;
• isolamento social ou recusa persistente em sair de casa.
“Nesses casos, é fundamental observar a duração e o impacto desses sinais. Eles podem indicar que há algo além de uma simples dificuldade de adaptação e que o adolescente precisa de apoio profissional”, alerta o especialista.
Para o psiquiatra, a família deve ser um espaço de escuta e não apenas de cobrança. O adolescente precisa sentir que pode falar, mesmo quando não sabe exatamente o que está sentindo. Cobranças exageradas, comparações ou falta de proximidade emocional tendem a aumentar o sofrimento, destaca ele.
Por trás do “eu não quero ir para a escola”, muitas vezes existe algo que o adolescente ainda não consegue colocar em palavras. “Com escuta, acolhimento e orientação adequada, é possível transformar o medo em confiança e fortalecer uma relação mais saudável com a escola e com o próprio crescimento”, conclui Eduardo Araujo.
Por Michelly Perez
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