Violência na web: “A gente espera que a justiça consiga salvar outras pessoas”, diz tia de Lívia

Entre os materiais apreendidos estão objetos com  referências ao nazismo e extremismo - Foto: divulgação/PCMS
Entre os materiais apreendidos estão objetos com referências ao nazismo e extremismo - Foto: divulgação/PCMS

Tragédia em MS motiva megaoperação nacional contra redes extremistas e de “escravidão digital”

 

Uma mobilização nacional sem precedentes, coordenada pelo MJSP (Ministério da Justiça e Segurança Pública) em parceria com a PCMS (Polícia Civil de Mato Grosso do Sul) e forças de segurança de outros sete estados, deflagrou nesta terça-feira (4) as Operações Lívia e Rede Interrompida. As ações miram organizações criminosas que atuavam em plataformas digitais recrutando crianças e adolescentes para práticas como apologia ao neonazismo, automutilação, misoginia, crueldade contra animais e indução ao suicídio.

O ponto de partida da investigação foi a morte de uma adolescente de 13 anos, em Naviraí, no dia 22 de julho. A partir da apuração conduzida inicialmente pela DEPCA-MS (Delegacia Especializada de Proteção à Criança e ao Adolescente), investigadores descobriram uma rede organizada que, segundo as autoridades, submetia jovens a um processo de manipulação psicológica conhecido como “escravidão digital”.

Sessão de terror psicológico

Durante entrevista coletiva, o coordenador do Ciberlab/MJSP (Laboratório de Operações Cibernéticas), delegado Alesandro Barreto, afirmou que a adolescente foi submetida a cerca de uma hora de intensa coação psicológica durante uma transmissão ao vivo em um servidor fechado da plataforma Discord.

Segundo a investigação, integrantes do grupo a incentivaram à automutilação, impuseram desafios envolvendo maus-tratos a animais e, diante da resistência da vítima, intensificaram a pressão psicológica até induzi-la a tirar a própria vida.

“Começou com a menina se automutilando com espectadores assistindo. Houve uma falha terrivelmente grave na moderação das plataformas. No momento da transmissão, era um espetáculo de horror”, afirmou Barreto.

O delegado relatou ainda que os investigados chegavam a enviar chaves Pix para que a adolescente comprasse objetos utilizados nos desafios, sem que a família tivesse conhecimento de que a criança tinha uma chave Pix registrada.

Adolescentes recrutando adolescentes

Foto: divulgação/PCMS

Um dos aspectos que mais chamou a atenção dos investigadores foi a mudança no perfil dos aliciadores.

“Vemos uma inversão: antes tínhamos adultos aliciando menores; agora vemos menores aliciando menores para cometer barbaridades. No momento das apreensões, um garoto de 14 anos sorria como se estivesse passando de fase em um jogo. Isso não é jogo, é a vida real”, disse Barreto.

A delegada Anne Karine Sanches Trevizan, titular da DEPCA (Delegacia Especializada de Proteção à Criança e ao Adolescente), onde o caso segue sob investigação, conversou com o jornal O Estado e afirmou que o que mais chamou a atenção da equipe foi justamente a frieza dos envolvidos.

Ela explica que o perfil das pessoas que têm envolvimento com essa rede costumam ser mais fragilizadas, com histórico de violência e podem ter passado por episódios de cyberbullying, por exemplo.

Operação salvou nova vítima

Durante o cumprimento dos mandados, os investigadores identificaram que outra adolescente seria induzida ao suicídio nos próximos dias.

A partir do material apreendido no Rio de Janeiro, a polícia localizou a vítima, acionou a família e conseguiu impedir que o plano fosse consumado.

Outra jovem, localizada na Bahia, também foi identificada como vítima dos desafios de automutilação e sobreviveu.

Mandados em cinco estados

A Operação Lívia cumpriu seis mandados de busca e apreensão contra adolescentes e um mandado de prisão preventiva contra um adulto. As ações ocorreram em Mato Grosso do Sul, Rio de Janeiro, Minas Gerais (dois alvos), Ceará e Pará, onde foi preso o investigado maior de idade.

Entre os alvos está ainda um seminarista ligado a um mosteiro em Pernambuco, suspeito de participação na divulgação de conteúdos extremistas.

Os investigados têm entre 13 e 18 anos. Durante as buscas, foram apreendidos celulares, computadores e mídias digitais que, segundo a polícia, contêm material relacionado à exploração sexual infantil e conteúdos de apologia ao neonazismo.

Rede Interrompida

Em ação paralela coordenada pela PCDF (Polícia Civil do Distrito Federal), a Operação Rede Interrompida cumpriu oito mandados em Santa Catarina, Rio Grande do Sul, Paraná, São Paulo e Pernambuco.

Segundo os investigadores, o grupo utilizava principalmente o Telegram para recrutar integrantes, disseminar discursos extremistas e planejar atentados contra prédios públicos na Esplanada dos Ministérios, em Brasília. A ofensiva teve caráter preventivo para impedir a execução dos ataques.

Plataformas na mira

Durante a coletiva, o secretário nacional de Direitos Digitais do Ministério da Justiça, Victor Oliveira Fernandes afirmou que as investigações também evidenciaram falhas graves na moderação das plataformas digitais.

Entre os exemplos apresentados está o acesso de um dos investigados ao Discord utilizando uma data de nascimento que indicava idade superior a 140 anos, sem qualquer mecanismo efetivo de verificação.

“No caso do Discord há indicios de descumprimento do dever de comprovação de idade. Todas as cenas de mutilação e induzimentos ao suicídio da criança de 13 anos, aconteceram em grupos de transmissões ao vivo, feitas por crianças e adolescentes, t odos acessaram sem nenhum tipo de verificiação de idade. Além disso, pelo Eca Digital, a plataforma teria a obrigação de derrubar o conteúdo e comunicar as autoridades policais”, destacou.

A responsável pela DEPCA também comentou sobre essa questão com a reportagem. Quando questionada se as plataformas têm colaborado com as investigações, a resposta da delegada foi que “ainda existem muitas falhas de segurança e moderação”, abrindo uma lacuna sobre a responsabilidade direta dos canais em que os menores se relacionam.

As autoridades sustentam que as plataformas deveriam ter interrompido as transmissões de violência em tempo real e comunicado imediatamente os órgãos de segurança, conforme as normas vigentes de proteção a crianças e adolescentes.

O caso foi encaminhado à ANPD (Autoridade Nacional de Proteção de Dados), que poderá apurar eventuais responsabilidades administrativas. Conforme a legislação, as plataformas podem sofrer sanções que incluem multas, suspensão temporária das atividades e outras medidas previstas em lei.

Alerta às famílias

As autoridades reforçaram ainda que a maioria dos pais dos adolescentes investigados desconhecia completamente as atividades realizadas pelos filhos no ambiente virtual.

“Não podemos descansar porque a violência está morando ao nosso lado. É fundamental que os pais acompanhem o que os filhos fazem na internet, com quem conversam e quais plataformas utilizam. Essa é uma responsabilidade de toda a sociedade”, destacaram os representantes do Ministério da Justiça.

As investigações continuam com a análise do material apreendido. A expectativa é identificar novos envolvidos, localizar outras possíveis vítimas e ampliar a responsabilização criminal dos integrantes da organização.

Serviço

Onde buscar ajuda

Pessoas em sofrimento emocional ou com pensamentos suicidas podem procurar apoio no CVV (Centro de Valorização da Vida), que oferece atendimento gratuito e sigiloso, 24 horas por dia, pelo telefone 188 ou pelo site oficial.

Familiares buscam justiça

m uma entrevista exclusiva com o jornal O Estado, o tio da menina de 13 anos, vítima em Naviraí, disse que estava sem palavras para responder sobre o estado dele e da família após a notícia da morte da adolescente.

“Éramos próximos, tenho contato com ela desde bebezinha. Inclusive, quatro dias antes do fato, foi realizada uma festa junina na casa da minha outra sobrinha, ela estava conosco. Nunca percebemos nada de anormal”, relatou.

Por estar muito abalado, o familiar não conseguiu terminar a entrevista. “Triste, uma fatalidade”, pontuou.

Uma outra tia da menina conversou com a reportagem e disse que a sobrinha era, no geral, alegre. “Ela gostava muito de viver, era muito carinhosa, beijava e abraçava muito. Ela amava muito as pessoas”, relembrou.

A mulher, que é irmã da mãe da vítima, relatou que a dor na família é grande. “A dor da perda, a sensação de perder a filha dela da forma que foi. Nesse momento a gente está se sentindo aliviado por conta da justiça que está sendo feita, mas o luto ainda está bem presente”.

Justiça é algo que a tia da adolescente repete algumas vezes durante a conversa. Ela acredita que o caso da sobrinha sirva também para salvar outros menores. “É o que a gente espera, que a justiça encontre alguma forma de salvar outras pessoas, monitorar mais as crianças. As famílias têm responsabilidade também, mas tem que existir mais fiscalização, está tudo muito fácil”, lamentou.

 

Por Michelly Perez e Maria Gabriela Arcanjo

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