Tradicional nas cozinhas brasileiras, filtro de barro segue em alta na Capital por custo-benefício, eficiência e memória afetiva

Foto: Nilson Figueiredo
Foto: Nilson Figueiredo

Mesmo com a popularização de purificadores elétricos e sistemas mais modernos de filtragem, o filtro de barro continua resistindo ao tempo nas casas e no comércio de Campo Grande. Presente há gerações na rotina dos brasileiros desde o início do século 20, o modelo segue sendo procurado por consumidores da Capital, que ainda associam o produto à água fresca, economia, praticidade e tradição.

A permanência do item ganha destaque após a publicação, nesta quarta-feira (1º), de uma nova portaria do Inmetro (Instituto Nacional de Metrologia, Qualidade e Tecnologia), que amplia as exigências para equipamentos usados no consumo de água, como filtros, purificadores e bebedouros.

A medida endurece critérios de qualidade, segurança e desempenho desses produtos, incluindo tanto aparelhos elétricos quanto modelos voltados à melhoria da qualidade da água. Na prática, os equipamentos passam a ter regras mais rígidas para comprovar eficiência, como a capacidade de retenção de partículas, redução de cloro e limites para evitar que componentes do próprio aparelho contaminem a água.

A norma também reforça exigências de segurança elétrica, especialmente para produtos que utilizam energia, além de exigir informações mais claras nas embalagens, como capacidade de fornecimento de água, consumo de energia, origem do produto e identificação do fabricante. As novas exigências valem para fabricantes nacionais e importadores, que terão prazo até 31 de dezembro de 2027 para se adequar.

Enquanto o mercado se adapta às novas exigências, o filtro de barro segue nas prateleiras e na preferência de parte dos consumidores. A reportagem consultou lojas da Capital que comercializam o produto, e a percepção foi a mesma: o item continua em alta entre os consumidores.

Na Mundo dos Fogões, a vendedora Thalia Canhete afirma que a procura permanece estável e atravessa gerações. “Tem bastante procura. O pessoal mais velho vai passando isso para os mais novos, e eles acabam querendo comprar também, porque a utilidade é muito boa e tem a questão da saúde”, relatou.

Segundo ela, a loja vende em média cerca de 20 filtros de barro por mês, o que demonstra uma demanda contínua mesmo com a popularização dos purificadores modernos. “Tem bastante demanda. Às vezes está quase acabando e a gente já faz mais pedidos, porque realmente o pessoal procura bastante”.

Na Universo dos Fogões, a vendedora Lucilene Caballero também relata boa saída do produto e afirma que a procura vai além do uso doméstico urbano. “A gente tem uma boa saída de filtros de barro. Inclusive, agora mesmo eu atendi um cliente que comprou as velas para reposição”, contou.

Segundo ela, parte significativa das vendas está ligada a propriedades rurais e fazendas, onde o modelo segue sendo bastante utilizado. “A gente tem uma venda maior para fazendas, para pessoas que moram em áreas rurais. Então, a gente vende super bem”.

Lucilene destaca ainda que a preferência pelo produto está ligada à eficiência, economia e tradição. “Além de filtrar, a água se mantém fresca sem gasto de energia. E também tem um pouco da tradição, porque os avós usavam e os mais novos acabam comprando também”, explicou.

De acordo com a vendedora, os preços variam conforme o tamanho do equipamento. Os modelos disponíveis na loja vão de 4 a 10 litros, com valores entre R$200 e R$375. Segundo ela, os mais procurados atualmente são os de 6 e 8 litros, acompanhando o perfil de famílias menores.

Na Josimar Fogões, o proprietário Josimar Rocha confirma que o filtro de barro continua com boa aceitação entre diferentes perfis de consumidores. “O pessoal procura bastante. Eles falam muito da filtragem e também que relembra a infância, quando bebiam água no filtro quando eram crianças”, relatou.

Segundo ele, o produto deixou de ser associado apenas a consumidores mais velhos e hoje atrai públicos variados. “Agora está geral”.

Foto: Nilson Figueiredo

Solução eficiente, mas com limitações

Apesar da permanência no mercado e da boa reputação entre os consumidores, especialistas alertam que o filtro de barro deve ser entendido como uma solução eficiente, mas com limitações, principalmente quando a água não vem de fonte tratada.

O engenheiro ambiental, professor doutor e conselheiro do Crea-MS (Conselho Regional de Engenharia e Agronomia de Mato Grosso do Sul), Vinicius Ribeiro, explica que a principal diferença entre o filtro de barro e os purificadores modernos está no tipo de tecnologia utilizada.

“O filtro de barro funciona de forma simples, por gravidade, com a vela porosa que segura partículas e melhora o gosto da água. Já os purificadores mais modernos costumam usar diferentes tecnologias, como filtros mais finos, carvão ativado e, em alguns casos, algum tipo de controle biológico”, explicou.

Segundo ele, o filtro de barro continua sendo eficiente para o uso doméstico, principalmente quando a água já vem de uma fonte tratada, como a rede pública. “Ele é eficiente, principalmente quando a água já vem de uma fonte tratada, como a rede pública, ou se for água de poço já clorada. Ele melhora a qualidade da água no ponto de consumo e é uma alternativa segura, desde que esteja bem conservado e com a manutenção em dia”, afirmou.

Vinicius explica que o equipamento ajuda a reter sujeiras, reduzir a turbidez e melhorar o gosto da água, mas não deve ser tratado como solução única em qualquer situação. “Ele não remove vírus de forma confiável e também não elimina contaminantes químicos dissolvidos, como defensivos agrícolas. Por isso, não deve ser utilizado como única barreira de tratamento, principalmente se a água for de origem duvidosa”, alertou.

No caso de água de poço, por exemplo, a recomendação é que ela seja previamente desinfectada, geralmente com cloração, antes de passar pelo filtro. “O filtro de barro não substitui o processo de desinfecção da água. Primeiro é preciso garantir que essa água esteja desinfectada, e depois o filtro atua como uma etapa complementar para melhorar a qualidade”.

Limpeza e manutenção fazem diferença

Outro ponto destacado pelo especialista é a necessidade de limpeza e manutenção adequadas, já que o uso incorreto pode comprometer a eficiência do equipamento. “A limpeza regular do filtro é essencial. É importante lavar com água e esponja limpa, sem produtos que deixem resíduos, além de higienizar e trocar a vela conforme a orientação do fabricante”, explicou.

Segundo Vinicius, o filtro de barro continua popular porque reúne fatores que seguem fazendo sentido para muitas famílias brasileiras. “Ele continua sendo uma solução acessível, confiável, não usa energia elétrica, é fácil de usar e ainda faz parte da cultura do brasileiro. Além disso, muita gente gosta da água do filtro de barro porque ela fica mais fresca”.

 

Por Geane Beserra

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