Tecnologia criada por aluna do IFMS envia localização e áudio para orientar policiais; ferramenta já está testes em Três Lagoas
Uma mulher ameaçada dentro de casa pode não ter tempo — ou segurança — para pegar o celular, fazer uma ligação e explicar o que está acontecendo. Em situações de violência doméstica, até mesmo pedir socorro pode significar colocar a própria vida em risco.
É para agir justamente nesse intervalo que a Polícia Militar de Mato Grosso do Sul lançou uma nova ferramenta de proteção. O aplicativo “Mulher Segura” permite que mulheres acompanhadas pelo Promuse (Programa Mulher Segura) e que possuem medidas protetivas de urgência acionem a polícia de maneira silenciosa e discreta.
A ferramenta foi apresentada oficialmente nesta segunda-feira (31), no Comando-Geral da PMMS, em Campo Grande, durante o encerramento das ações do Agosto Lilás. O projeto é resultado de uma parceria entre o 2º Batalhão da Polícia Militar, de Três Lagoas, e o IFMS (Instituto Federal de Mato Grosso do Sul), campus de Três Lagoas.
A ideia partiu do comandante do 2º BPM, tenente-coronel Ronaldo Moreira. O aplicativo passou por aproximadamente 40 dias de testes e já está funcionando em Três Lagoas.
Segundo o comandante, foram registrados diversos acionamentos durante o período de testes, incluindo situações acidentais. Três, porém, foram considerados chamados reais de emergência.
“O aplicativo tem uma sensibilidade um pouco grande, e esses acionamentos podem ocorrer de forma acidental também. Como fazemos testes, nós também fizemos isso para criar alguns dispositivos para a gente corrigir esses acionamentos acidentais. Então, acionamentos acidentais significam que o aplicativo funciona. Os que realmente eram situações de emergência foram três acionamentos”, disse o Tenente-coronel Ronaldo Moreira, comandante do 2º BPM de Três Lagoas
Nos casos considerados reais, equipes policiais foram deslocadas para verificar a situação e proteger as vítimas. Em uma das ocorrências, um suspeito de descumprir medida protetiva foi localizado posteriormente e preso. Em outros casos, as vítimas foram à delegacia para denunciar o descumprimento das determinações judiciais.
Para Moreira, a principal função da tecnologia é fazer com que a polícia seja acionada imediatamente quando a vítima perceber que está em perigo.
“O principal objetivo é que as viaturas sejam acionadas imediatamente quando a vítima se sente ameaçada.”
Socorro sem levantar suspeitas
O principal diferencial do “Mulher Segura” é permitir que o pedido de ajuda seja feito sem que a vítima precise falar. A mulher cadastrada pode configurar previamente gestos no smartphone para acionar o sistema. Quando o comando é realizado, o alerta é encaminhado para as viaturas que fazem o patrulhamento da região e também para o Copom (Centro de Operações da Polícia Militar).
Junto ao chamado são enviadas a identificação da vítima e sua localização por GPS, permitindo que os policiais saibam onde ela está e iniciem o deslocamento.
Mas o aplicativo vai além. No momento do acionamento, o sistema também realiza automaticamente uma gravação de um minuto do áudio ambiente. O arquivo é encaminhado junto com o alerta e pode fornecer aos policiais informações sobre o que está acontecendo antes mesmo da chegada da equipe.
A proposta é diminuir o tempo de resposta e ampliar as chances de intervenção em uma situação de risco.
Da necessidade policial para a sala de aula
A tecnologia nasceu de uma demanda do 2º Batalhão em Três Lagoas. O tenente-coronel Ronaldo Moreira teve a ideia e procurou o IFMS para desenvolver uma solução que pudesse ser incorporada ao trabalho de proteção às mulheres acompanhadas pelo Promuse. Quem colocou o projeto em prática foi uma estudante do instituto.
Ana Clara Silvestre de Oliveira, do 4º semestre de Análise de Desenvolvimento de Sistemas do IFMS de Três Lagoas, foi responsável pelo desenvolvimento do sistema, com orientação dos professores Rogério Antoniassi e Alex Araújo.
“Quem surgiu com a ideia desse aplicativo foi o tenente-coronel Moreira, e ele entrou em contato com o IFMS de Três Lagoas, que entrou em contato com o professor Rogério. O professor me escolheu para desenvolver esse sistema. É um sistema web com dois aplicativos, e eu desenvolvi, do início ao fim, todo o sistema, a parte web e os aplicativos.”, afirmou Ana Clara Silvestre de Oliveira, estudante do IFMS.
A parceria entre a Polícia Militar e o instituto federal é considerada estratégica porque une uma necessidade prática da segurança pública ao desenvolvimento tecnológico dentro da instituição de ensino. O projeto ainda passará por aperfeiçoamentos antes de uma possível expansão para outras regiões.
Por enquanto, o aplicativo está disponível apenas em Três Lagoas. A expectativa da Polícia Militar é que, após os ajustes técnicos e operacionais, a tecnologia possa ser adaptada para outros batalhões.
Moreira afirma que a possibilidade de expansão já foi considerada desde o início do projeto. “Nós tivemos Três Lagoas já pensando nessa possibilidade de ampliar para todo o Estado. Então, já estamos trabalhando para tornar isso operacionalmente viável. Agora depende dos ajustes do IFMS e do planejamento do Comando-Geral para desenvolver para os outros batalhões.”
A expansão, portanto, dependerá de novos ajustes no sistema e da estrutura necessária para que o atendimento seja incorporado às demais regiões.
Violência acontece onde a vítima deveria estar segura
A criação do aplicativo ganha ainda mais importância diante do perfil da violência doméstica. Conforme dados do Monitor da Violência da Sejusp (Secretaria de Estado de Justiça e Segurança Pública), residências e locais semelhantes estão entre os pontos de maior incidência de ocorrências envolvendo agressões e violência contra mulheres. Na sequência aparecem propriedades rurais e vias urbanas.
Ou seja, o espaço onde a mulher deveria encontrar proteção — a própria casa — muitas vezes é justamente o local onde ela está mais vulnerável. É nesse cenário que a PMMS pretende utilizar a tecnologia para aproximar a viatura da vítima.
O comandante-geral da Polícia Militar de Mato Grosso do Sul, coronel Renato dos Anjos Garnes, afirma que o avanço da violência contra a mulher exige novas estratégias de enfrentamento.
“Isso traz uma preocupação ao poder público como um todo e à Polícia Militar de Mato Grosso do Sul. Por isso, estamos cada vez mais buscando instrumentos e ferramentas para que possamos, de fato, chegar dentro da casa, entre as quatro paredes onde ocorre esse feminicídio.”
Para o comandante, a parceria com o IFMS pode ajudar a polícia a chegar mais perto da mulher em situação de vulnerabilidade.
“Uma ferramenta dessa, em uma parceria com o Instituto Federal, vai fazer com que a gente consiga chegar mais próximo dessa vítima, dessa mulher em vulnerabilidade, fazendo com que a Polícia Militar contribua para a redução dessa violência.”
Sete feminicídios em agosto
O lançamento ocorre justamente no fim de um mês marcado por uma sequência de feminicídios em Mato Grosso do Sul. Conforme os dados informados do Monitor da Violência da Sejusp, sete mulheres foram vítimas de feminicídio no Estado durante agosto.
A primeira vítima foi Rose Batista, de 41 anos, morta no dia 2, em Dourados. No dia 5, Adriana Barrios, de 22 anos, foi assassinada em Paranhos.
No dia seguinte, Nathaália Rodrigues, de 26 anos, foi vítima de feminicídio em Rio Verde de Mato Grosso.
Em Campo Grande, Joseane Oliveira, de 33 anos, foi morta no dia 19. Dois dias depois, Fátima Alves de Matos, de 54 anos, foi assassinada em Costa Rica.
No dia 23, Marta Florentino, de 40 anos, foi morta em Aquidauana.
A sétima vítima foi Adrielli Rossonie dos Santos, de 34 anos, assassinada no dia 28, em Campo Grande.
No caso de Adrielli, a Polícia Civil confirmou a prisão em flagrante de um homem de 43 anos, suspeito do crime. A mulher foi encontrada morta em uma residência no Bairro Santo Antônio.
A filha dela, uma criança de apenas três anos, também estava envolvida na ocorrência. A menina foi localizada em segurança e encaminhada para um local protegido.
Diante dos números, o comandante-geral da PMMS afirma que o enfrentamento precisa envolver toda a sociedade e começar também pela prevenção.
“Infelizmente, é um crime que vem desafiando as forças de segurança e todos os poderes públicos, mas nós não podemos desistir. Vamos fazer o enfrentamento.”
Garnes também destaca a importância da mudança cultural e da educação para combater a violência contra as mulheres.
“A conscientização é uma peça-chave, o cuidado com a nossa sociedade, desde a base da educação, desde a educação infantil, e a mudança um pouquinho dessa cultura.”
Para a Polícia Militar, o aplicativo é mais uma ferramenta dentro de uma rede que envolve prevenção, acompanhamento, medidas protetivas e resposta policial.
Como funciona o “Mulher Segura”
O aplicativo foi desenvolvido especificamente para mulheres acompanhadas pelo Programa Mulher Segura que possuem medidas protetivas de urgência vigentes.
O programa da Polícia Militar atua na prevenção e no enfrentamento da violência doméstica e familiar, com acompanhamento de mulheres em situação de vulnerabilidade.
A proposta é aproximar a corporação das vítimas por meio de visitas, ações preventivas e acompanhamento especializado, buscando evitar a reincidência da violência e o descumprimento das medidas determinadas pela Justiça.
Com o novo aplicativo, esse acompanhamento ganha uma ferramenta tecnológica de emergência.
A mulher pode acionar o sistema por gestos previamente configurados no celular. O alerta chega às viaturas da região e ao Copom, acompanhado da localização por GPS e da identificação da vítima.
Ao mesmo tempo, uma gravação de um minuto do áudio ambiente é enviada para auxiliar os policiais na avaliação da ocorrência.
Por enquanto, a tecnologia está restrita a Três Lagoas. A meta é aperfeiçoar o sistema e, posteriormente, ampliar sua utilização para outros municípios.
A aposta da Polícia Militar é que, em uma situação de violência, o pedido de socorro possa chegar antes que a ameaça se transforme em tragédia.
Por Ana Clara Julião e Michelly Perez