Redes sociais viram porta de entrada para crimes sexuais em MS

Foto: Ministério dos Direitos Humanos
Foto: Ministério dos Direitos Humanos

Delegado aponta crescimento de casos e orienta mulheres sobre sinais de perigo e como denunciar

Mato Grosso do Sul enfrenta um cenário alarmante de violência sexual, com uma média de quase quatro estupros registrados por dia apenas no início de 2024. De acordo com a Sejusp, dos 219 casos contabilizados até meados de fevereiro, 78% das vítimas são crianças e adolescentes. Esse panorama ganha contornos ainda mais preocupantes com o crescimento de crimes que começam no ambiente digital, onde o aliciamento e a manipulação emocional servem de porta de entrada para a violência física.

O caso mais recente, foi o de duas adolescentes de 12 anos foram vítimas de violência sexual após conhecerem um rapaz de 18 anos em uma rede social. O crime aconteceu em Campo Grande na segunda-feira (2), e reacende o alerta sobre os riscos de encontros marcados pela internet, que podem evoluir para situações graves.

Segundo o delegado Wellington de Oliveira, Ouvidor-Geral da Polícia Civil e especialista em segurança pública, análises baseadas em investigações recentes indicam crescimento de ocorrências que começam com aproximações virtuais, principalmente por meio de redes sociais e aplicativos de relacionamento.

“A situação evidencia um padrão investigativo identificado com frequência em delegacias que atuam no combate a crimes cibernéticos e violência sexual. Muitos crimes sexuais começam com contatos aparentemente inocentes pela internet, evoluindo gradualmente para manipulação emocional e, em alguns casos, para encontros presenciais que terminam em violência”, explica.

De acordo com o delegado, a internet ampliou significativamente as possibilidades de interação, mas também abriu espaço para criminosos que utilizam técnicas de manipulação psicológica, conhecidas como grooming ou aliciamento digital. Entre os fatores que contribuem para esse cenário estão a popularização das redes sociais, a facilidade de criação de perfis falsos e a exposição excessiva de informações pessoais.

Em muitos casos, a aproximação virtual evolui para encontros presenciais que resultam em violência sexual ou exploração, especialmente quando as vítimas são adolescentes ou mulheres jovens.

Principais crimes identificados nas investigações
Conforme o delegado, nos inquéritos envolvendo contatos iniciados pela internet, alguns crimes aparecem com maior frequência. Entre eles está a sextorsão, quando o criminoso obtém imagens íntimas da vítima e passa a ameaçá-la com a divulgação do material para exigir dinheiro ou novas imagens.

Ele também destaca o aliciamento digital (grooming), no qual o agressor constrói um vínculo emocional progressivo para manipular a vítima. São registrados ainda casos de exploração sexual e de divulgação de imagens íntimas sem consentimento, crime previsto no artigo 218-C do Código Penal, com pena de um a cinco anos de reclusão.

“Há situações que evoluem para estupro de vulnerável ou estupro mediante fraude, quando a vítima é enganada ou manipulada para um encontro presencial. Muitas vezes esses crimes aparecem combinados dentro da mesma investigação”, ressalta.

Como agem os criminosos?
O delegado explica que o comportamento do agressor costuma seguir um padrão. “Geralmente começa com um pedido de amizade ou uma mensagem aparentemente casual. O criminoso demonstra atenção constante, criando uma relação de confiança”, afirma.

Com o tempo, segundo ele, a conversa migra para ambientes mais privados. “O agressor incentiva segredos, aumenta gradativamente o nível de intimidade e testa os limites. Quando percebe que ganhou confiança, começa a fazer pedidos mais invasivos”.

Nessa fase, podem surgir solicitações de fotos, vídeos ou conversas de teor sexual. “Depois disso, ele tenta convencer a vítima a um encontro presencial. Esse processo pode ocorrer ao longo de dias ou semanas e costuma ser conduzido com planejamento e paciência por parte do agressor”, alerta.

Perfis falsos são comuns
A criação de perfis falsos é prática recorrente nesse tipo de crime. “Muitos utilizam fotos de terceiros retiradas da internet, identidades inventadas e contas recém-criadas para se aproximar das vítimas”, explica o delegado.

Em casos envolvendo adolescentes, ele destaca que os autores costumam simular idade semelhante à da vítima. “Isso facilita a criação de vínculo e dificulta inicialmente a identificação do agressor”.

Sinais de alerta
O delegado orienta que alguns comportamentos devem ser considerados sinais de risco nas interações online. “Insistência em conversas privadas, pedidos de fotos íntimas, pressão para encontros rápidos e recusa em fazer chamada de vídeo são indícios importantes”, diz.

Ele também chama atenção para pedidos de segredo. “Quando alguém pede para esconder a conversa da família ou dos amigos, é um sinal claro de alerta. Esses elementos aparecem repetidamente nos depoimentos de vítimas em investigações policiais”.

Cuidados que podem evitar crimes
Entre as medidas preventivas, o delegado recomenda evitar a exposição excessiva de informações pessoais e não enviar fotos íntimas a desconhecidos. “É importante desconfiar de perfis recém-criados e verificar se a pessoa realmente existe fora do ambiente virtual. Nunca se deve marcar encontro sem antes confirmar a identidade”, orienta.

Ele também reforça a importância do diálogo. “Conversar com familiares e amigos sobre novos contatos online pode evitar situações de risco”.

Como denunciar
“A recomendação, como autoridade policial, é que mulheres e adolescentes utilizem redes sociais e aplicativos com cautela. A internet é uma ferramenta importante de comunicação, mas exige prudência”, orienta o delegado.

Em casos de ameaça, constrangimento ou suspeita de crime, ele reforça que a vítima deve procurar imediatamente uma delegacia e registrar ocorrência. “É fundamental guardar mensagens, links e capturas de tela das conversas. Esses registros podem ser decisivos para a investigação”, afirma.

Para a polícia, a denúncia é fundamental não apenas para responsabilizar os criminosos, mas também para evitar que outras pessoas se tornem vítimas.

“Criminosos exploram justamente aquilo que há de mais humano: a confiança e o desejo de relacionamento. Por isso, a informação e a prevenção são as principais ferramentas de proteção”, fica o alerta.

Por Geane Beserra

 

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