Projeto de lei em MS propõe permitir que animais sejam sepultados em jazigos familiares

Foto: arquivo pessoal
Foto: arquivo pessoal

Com apenas um crematório pet na Capital, tutores enfrentam poucas opções para despedida de bichos de estimação

Para muitas famílias, a morte de um animal de estimação representa a perda de um verdadeiro membro da casa. Em Mato Grosso do Sul, um projeto em tramitação na ALEMS (Assembleia Legislativa de Mato Grosso do Sul) propõe autorizar o sepultamento de animais em jazigos familiares de cemitérios tradicionais. A proposta surge em meio à discussão sobre as poucas opções disponíveis para a despedida de pets em Campo Grande, onde há apenas um crematório voltado a esse tipo de serviço.

O Projeto de Lei 17/2026, de autoria do deputado Luca de Lima, dispõe sobre a autorização do sepultamento conjunto de animais não humanos em jazigos familiares e estabelece diretrizes para a preservação da dignidade, da memória e do respeito aos vínculos afetivos entre humanos e seus animais de companhia. O texto segue agora para análise da CCJR (Comissão de Constituição, Justiça e Redação).

Segundo a justificativa da proposta, a medida busca regulamentar uma demanda crescente da sociedade e oferecer uma alternativa sanitária e ambientalmente adequada para a destinação dos corpos de animais de estimação. Pelo texto, cães, gatos e outros animais domésticos com vínculo afetivo reconhecido com a família tutora poderão ser enterrados no mesmo jazigo utilizado pelos donos, desde que o espaço seja um jazigo familiar destinado originalmente à sepultura de membros da mesma família.

Vínculo afetivo
Para entender como o projeto é visto por quem convive diretamente com os animais, o jornal O Estado ouviu protetores e tutores. Na avaliação deles, é cada vez mais comum que cães e gatos sejam tratados como membros da família, o que faz com que a despedida seja marcada por forte carga emocional. Para muitos tutores, os pets ocupam um lugar afetivo semelhante ao de um familiar, participando da rotina e da vida da família.

A corretora de imóveis Luciana Albuquerque, que também atua como protetora de animais, avalia que a proposta pode representar um avanço no reconhecimento do vínculo afetivo entre tutores e seus pets. “Acho o projeto válido e relevante, porque, além de amenizar a dor e dar um lugar especial para nossos pets, que para alguns são como filhos, também ajuda a propagar mais humanização e mais amor para com os animais, que muitas vezes sofrem e são negligenciados”, afirma.

Segundo Luciana, é cada vez mais comum que a morte de um animal seja vivida pelas famílias como a perda de um parente. “Já presenciei várias situações assim. Como não se sentir dessa forma, se o animal vive anos ao seu lado, dando carinho e amor, sendo realmente parte da família?”, relata.

A jornalista e protetora animal Yara Dosso também avalia que a proposta atende a uma demanda real dos tutores. “Enterrar um animal de estimação em um jazigo da família humana é um tema sensível, mas profundamente humano. Para muitas pessoas, os animais não são apenas companheiros, são também membros da família que compartilham anos de convivência, afeto e cuidado”, afirma.

Segundo ela, o conceito de família também vem se transformando. “Hoje fala-se em família multiespécie, reconhecendo que os laços afetivos entre humanos e animais ultrapassam a ideia de mera posse”, explica.

Falta de opções
Segundo a protetora Luciana, uma das principais dificuldades enfrentadas pelos tutores é encontrar uma forma digna de lidar com a morte do animal. “Muitas pessoas acabam não sabendo o que fazer. Às vezes, o animal é levado ao CCZ (Centro de Controle De Zoonoses) ou as pessoas precisam pagar caro pela cremação. Outras acabam enterrando em qualquer lugar, por falta de alternativa”, afirma.

Despedida difícil
O jornalista Helder Carvalho, de 28 anos, enfrentou essa dificuldade quando perdeu uma de suas gatas. Tutor de três felinos, ele conta que a morte de Kira, que não resistiu a complicações após a castração, foi um momento de grande impacto emocional.

“Eles foram meus primeiros animais de estimação e eu não sabia como proceder com o corpinho dela. Fiquei desesperado, muito triste e abalado”, relata.

Na época, o custo da cremação e de uma cerimônia de despedida estava fora de seu orçamento. Diante das poucas opções disponíveis na Capital, ele optou por entregar o corpo do animal ao CCZ.

“Confesso que passou pela minha cabeça esse mesmo pensamento do projeto de lei. Os animais são parte das nossas famílias. Por que não poderiam ser sepultados com nossos familiares?”, questiona.

Resgate e despedida
A protetora Yara Dosso afirma que a perda de um animal pode marcar profundamente a vida de uma família. Ela mesma já passou por essa experiência. “Meu filho hoje tem sete anos e nasceu em uma casa com sete cães resgatados. Sempre cuidei deles como filhos. A perda de duas delas, a Sophie e a Nina, me marcou profundamente. Infelizmente, ambas precisaram passar por eutanásia, e a despedida foi no meu colo até o último instante”, conta.

Entre as histórias que mais a marcaram está a de Suzi, uma cadela resgatada há cerca de dez anos no bairro Oliveira III, em Campo Grande. A pitbull tinha apenas 10 meses e foi encontrada com leishmaniose e feridas graves na pele.

“Fizemos todo o tratamento e ela ficou linda. Depois de cinco meses comigo, encontrei um lar maravilhoso para ela”, lembra.

Suzi viveu sete anos com a nova família até falecer após um rompimento no baço. Segundo Yara, o vínculo com as tutoras era tão forte que elas decidiram realizar uma despedida especial.
“Elas fizeram uma cerimônia reservada em um crematório pet antes da cremação. Até hoje guardam as cinzas dela com muito carinho”.

Por Geane Beserra

 

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