Especialista aponta que autores reproduzem modelo de atuação baseado em controle e vingança
Mato Grosso do Sul registrou mais dois casos de feminicídios em menos de 24 horas, com as vítimas mortas a facadas pelos ex-companheiros em Água Clara e Corumbá.
Os casos elevaram para 18 o número de mulheres assassinadas por violência de gênero no Estado em 2026 e fizeram julho se tornar o mês com mais registros de feminicídio neste ano, com cinco ocorrências.
Em Água Clara, a 198 quilômetros de Campo Grande, Ana Carolina Goes, de 45 anos, morreu após ser atacada pelo ex-namorado Daniel Paz dos Santos, de 32 anos, na tarde de quinta-feira (30). O crime
ocorreu na região do Núcleo Industrial Barra Mansa.
Conforme a polícia, o casal discutiu antes de Daniel desferir diversos golpes de faca contra a vítima. Após
a agressão, o suspeito fugiu do local, enquanto moradores acionaram socorro e encaminharam Ana Carolina ao Hospital Municipal de Água Clara. Devido à gravidade dos ferimentos, ela foi transferida
para uma unidade hospitalar em Três Lagoas, onde morreu por volta das 23h30.
Após o ataque, a Polícia Civil localizou o suspeito enquanto ele tentava deixar a cidade em uma
caminhonete. Segundo a investigação, Daniel teria pedido ajuda a um amigo e ao gerente da empresa onde trabalhava para conseguir fugir.
Durante a abordagem, conforme a polícia, ele confessou informalmente o crime e foi preso em flagrante. O caso segue sob investigação. Já na manhã desta sexta- -feira (31), em Corumbá, Adrielle Encarnação Rodrigues, de 26 anos, também foi morta a facadas pelo ex-companheiro. O suspeito foi preso após confessar o crime à Polícia Civil.
De acordo com a investigação, o casal tinha um relacionamento marcado por idas e vindas. O homem relatou aos policiais que os dois haviam saído na noite anterior e que, após uma discussão, teria cometido o ataque.
O caso é investigado pela 1ª Delegacia de Polícia Civil de Corumbá e representa o segundo feminicídio registrado em Mato Grosso do Sul em menos de um dia, o que confirma o avanço da violência contra mulheres no Estado.
Violência extrema Tiro no rosto, golpes direcionados à face e sinais de extrema violência. Em Mato Grosso do Sul, casos recentes de feminicídio têm chamado a atenção não apenas pelo número de vítimas, mas também pela forma como os crimes são executados.
Em diferentes ocorrências registradas neste ano, mulheres foram mortas com ferimentos
concentrados no rosto ou na cabeça, um padrão que especialistas apontam como possível expressão de violência extrema e tentativa de apagar a identidade da vítima ou exercer domínio sobre ela.
Em entrevista ao jornal O Estado, o ex-delegado de Polícia e professor da Faculdade de Direito da UFMS (Universidade Federal de Mato Grosso do Sul), Fernando Lopes, afirma que a recorrência de lesões direcionadas ao rosto, ao pescoço e a outras regiões altamente visíveis da vítima não costuma
ser encarada pela Medicina Forense e pela Psicologia Forense como uma escolha aleatória da forma de execução do crime.
Segundo o especialista, a literatura sobre violência letal contra a mulher e a criminologia apontam que esse padrão pode revelar um forte componente simbólico.
“Em muitos casos de feminicídio, o objetivo do agressor extrapola a morte da vítima. Busca-se punir, humilhar, desfigurar e reafirmar uma relação de domínio e posse. A violência concentrada no rosto, por exemplo, pode carregar o significado da destruição da identidade, da dignidade e da individualidade da mulher, traduzindo extrema raiva, sentimento de rejeição, ciúme patológico, desejo de vingança
ou a incapacidade de aceitar o término do relacionamento, entre outras motivações”, explica Fernando Lopes.
O professor ressalta que esse tipo de violência deve ser analisado dentro do contexto de cada investigação, mas afirma que a repetição desse padrão em casos de feminicídio tem sido objeto de estudos da criminologia e da psicologia forense justamente por evidenciar que, em muitos episódios, o autor não busca apenas matar a vítima, mas também deixar uma marca simbólica de poder e destruição sobre ela.
DEAM mantém investigação sobre morte de fisioterapeuta
A Polícia Civil de Mato Grosso do Sul, por intermédio da DEAM (Delegacia Especializada de Atendimento à Mulher) confirmou ontem (31), que segue investigando a morte da fisioterapeuta Fabíola Marcotti e que
nenhum laudo pericial conclusivo foi juntado até o presente momento aos autos.
A autoridade policial informa que a investigação encontra-se em fase ativa de instrução, com a realização de oitivas de testemunhas e demais diligências necessárias para o esclarecimento dos
fatos.
Julho concentra maior número de casos em 2026
Com as mortes de Ana Carolina Goes e Adrielle Encarnação Rodrigues, julho passou a ser o mês com maior número de feminicídios registrados em Mato Grosso do Sul neste ano.
Ao todo, foram cinco casos:
– Paula de Souza Conceição, em Fátima do Sul — 11 de julho;
– Rosenilda de Oliveira Candelario, em Nioaque — 17 de julho;
– Terezinha Nantes de Arruda, em Campo Grande — 27 de julho;
– Ana Carolina Goes, em Água Clara — 30 de julho;
– Adrielle Encarnação Rodrigues, em Corumbá — 31 de julho.
Por Biel Gill e Ian Netto
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