Especialista alerta para crise silenciosa na morte de animais silvestres em MS

Foto: divulgação
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Mato Grosso do Sul registra altos índices de atropelamentos de animais silvestres, com mais de mil casos em rodovias estaduais nos últimos quatro anos. A BR-262 é um dos trechos mais críticos. Ao O Estado, a presidente do Instituto Líbio, Raquel Machado, alertou para os impactos ambientais, riscos de acidentes e prejuízos econômicos causados pela morte de fauna silvestre no Estado.

Nesta quarta-feira (6), a Câmara dos Deputados aprovou o projeto que cria o Plano Nacional de Segurança Viária para Fauna Silvestre. A proposta prevê medidas para reduzir acidentes envolvendo animais em rodovias e ferrovias brasileiras. O texto segue agora para análise do Senado.

Em Mato Grosso do Sul, uma das rodovias mais críticas é a BR-262, conhecida por ambientalistas como “estrada da morte”. O trecho corta áreas sensíveis do Pantanal e registra, em média, cerca de três atropelamentos de animais por dia.

Presidente do Instituto Líbio, Raquel Machado afirma que o impacto ecológico é devastador. “Quando você fala de Pantanal e Cerrado, você fala de áreas com biodiversidade gigantesca. Esses animais são dispersores de sementes, controlam populações e mantêm o equilíbrio ecológico. Quando você perde esses animais, perde conectividade entre habitats e empobrece a biodiversidade da região”, afirmou ao O Estado.

Segundo ela, o problema se agrava porque muitas rodovias atravessam áreas ambientais sem medidas efetivas de mitigação. “Hoje as rodovias cortam essas regiões praticamente sem proteção para a fauna. O impacto é enorme”.

Risco também para motoristas

Além da devastação ambiental, os atropelamentos representam perigo para condutores, principalmente quando envolvem animais de grande porte, como antas, capivaras e tamanduás-bandeira.

“Uma anta pesa cerca de 300 quilos. Imagine um veículo a 100 km/h atingindo um animal desse porte. O impacto é gigantesco. Em Mato Grosso do Sul, frequentemente vemos mortes de pessoas causadas por colisões com animais silvestres”, alertou Raquel.

Entre as espécies mais atingidas estão capivaras, antas, tamanduás-bandeira, tatus, cachorros-do-mato, onças-pardas e onças-pintadas. “Só nos dados do ICAS (Instituto de Conservação de Animais Silvestres), entre 2017 e 2020, foram registradas 425 antas mortas, 766 tamanduás-bandeira e 968 capivaras atropeladas. É um absurdo”, afirmou.

A presidente do Instituto Líbio explica que, na maioria dos casos, os animais não sobrevivem até receberem atendimento. “Quando o atropelamento acontece, muitas vezes o animal já morre na hora. E quando sobrevive, até que a Polícia Rodoviária, Bombeiros ou Polícia Ambiental sejam acionados e o animal levado para um centro de reabilitação, ele acaba morrendo”, relatou.

Mesmo quando chegam aos centros especializados, muitos ficam com sequelas irreversíveis. “Às vezes o animal perde uma pata ou sofre lesões muito graves. Nesses casos, não consegue voltar para a natureza”, explicou.

O caso mais recente ocorreu nesta semana, quando uma onça-pintada morreu atropelada na BR-262. Segundo a especialista, episódios semelhantes vêm se repetindo constantemente.

Impactos econômicos e turísticos

Para Raquel Machado, os prejuízos também atingem diretamente o turismo e a economia sul-mato-grossense. “Você tem custos com veículos, atendimento médico, danos materiais e até judicialização. Além disso, há um impacto negativo para o turismo. Muitas pessoas vão a Bonito esperando ver um tamanduá vivo na natureza e acabam vendo animais mortos na estrada”.

Ela ressalta que o prejuízo é difícil de mensurar, mas afeta toda a cadeia econômica ligada ao ecoturismo e à conservação ambiental.

Medidas urgentes

Para reduzir os atropelamentos, Raquel afirma que apenas placas de sinalização não são suficientes. “Sinalização sozinha não resolve. O que realmente reduz atropelamentos é impedir que o animal atravesse a pista”.

Entre as soluções apontadas estão cercamentos ao longo das rodovias, passagens subterrâneas e aéreas para fauna, limpeza de galerias já existentes e redução de velocidade em áreas críticas. “Você precisa fazer cercamento e criar passagens inferiores e superiores. Para espécies arborícolas, como macacos e quatis, são necessárias passagens aéreas. É isso que efetivamente reduz os atropelamentos”, destacou.

Segundo ela, a responsabilidade pelas medidas deve ser dos administradores das rodovias, sejam concessionárias, governo estadual ou União. “Quem administra a rodovia é responsável pela segurança dos usuários e também dos animais. É responsável pelas mortes, pelos danos e pelos projetos de mitigação”, defendeu.

Mais de 460 animais mortos em oito meses

Levantamento realizado entre dezembro de 2023 e julho de 2024 identificou 463 animais atropelados em rodovias estaduais de Mato Grosso do Sul. Do total, 428 eram animais silvestres, 25 domésticos e 10 não puderam ser identificados devido ao estado das carcaças.

O monitoramento ocorreu em trechos das rodovias MS-178, MS-345 e MS-382.

Na MS-178, foram registrados 142 atropelamentos no trecho Norte, entre Bonito e Bodoquena, e 102 no trecho Sul, entre Bonito e Jardim. Já a MS-382 contabilizou 130 ocorrências, enquanto a MS-345 teve 89 registros.

Por Geane Beserra

 

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