A investigação sobre a morte da adolescente Lívia, em Naviraí, levou a Polícia Civil a descobrir uma organização criminosa que atuava em plataformas digitais recrutando principalmente meninas em situação de vulnerabilidade.
Segundo a delegada Anne Karine Sanches Trevisam Duarte, titular da DEPCA (Delegacia de Proteção à Criança e ao Adolescente), as vítimas eram transformadas em “escravas virtuais”, submetidas a ameaças, manipulação psicológica e desafios violentos que podiam culminar em automutilação e até suicídio. “Dentro dessa organização criminosa, existem ‘escravas virtuais’. Isso acontece principalmente com as meninas”, afirmou durante coletiva de imprensa nesta quinta-feira (6).
De acordo com a delegada, o caso chegou à DEPCA após a divulgação da morte de Lívia nas redes sociais. As investigações, no entanto, apontaram que a adolescente não agiu por vontade própria, mas foi induzida por integrantes de um grupo organizado na internet. A Operação Lívia identificou cinco adolescentes e um adulto em diferentes estados do país, alvos de mandados de prisão, apreensão e busca domiciliar. “Durante a investigação, verificamos que não foi um suicídio, mas realmente um homicídio”, declarou Anne Karine.

Entre os materiais apreendidos estão objetos com referências ao nazismo e extremismo – Foto: divulgação/PCMS
As apurações revelaram que os criminosos utilizavam perfis falsos para se aproximar das vítimas. Eles coletavam informações pessoais nas redes sociais, criavam laços de confiança e, depois, iniciavam um processo de intimidação e controle emocional.
“Eles fazem uma engenharia social. Procuram informações sobre a família, onde a vítima estuda, se passam por outra pessoa e começam a manipular a criança ou o adolescente”, explicou a delegada. Segundo ela, os integrantes sequer conheciam a identidade real uns dos outros e se comunicavam apenas por apelidos, os chamados “nicknames”.
A polícia também descobriu que os grupos, conhecidos como “panelas”, competiam entre si para produzir conteúdos cada vez mais violentos.
“O hype deles é ter mais violência. Quanto mais violento é o grupo, melhor ele é, porque mais pessoas querem entrar”, afirmou Anne Karine.
Antes de morrer, Lívia teria sido obrigada a cumprir uma tarefa chamada de “luz”, que consistia em matar o próprio gato. Como não realizou a ação, continuou sendo pressionada.
“É como se eles estivessem jogando um videogame. Tem que passar de fase. Eles têm uma frieza absurda e sentem satisfação com esse resultado”, disse a delegada.
Ela também revelou que, durante os chamados “eventos”, dezenas de pessoas acompanhavam as transmissões e incentivavam as vítimas a se automutilarem ou tirarem a própria vida.
Diante da gravidade do caso, a titular da DEPCA fez um alerta aos pais sobre os riscos do ambiente virtual. Segundo ela, o controle parental é uma das principais ferramentas para impedir o aliciamento de crianças e adolescentes.
“Olhar o celular dos filhos não é invasão de privacidade. Eles são seres em formação e precisam da supervisão dos responsáveis”, ressaltou.
A delegada também destacou que muitos dos investigados levavam uma vida aparentemente comum dentro de casa.
“As pessoas acham que o perigo está na rua, mas, muitas vezes, ele está dentro de casa, no ambiente virtual. É preciso usar a internet com cautela e acompanhar de perto o que crianças e adolescentes estão consumindo”, concluiu.
Com colaboração do repórter Ian Netto
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