Caso João expõe falhas na saúde e associação registra 80 denúncias anuais de erros médicos em MS

Foto: reprodução/redes sociais
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Presidente da Associação de Medicina Intensiva garante que falhas na intubação podem levar à insuficiência respiratória

Em meio à repercussão da morte de João Guilherme Jorge Pires, de 9 anos, a Associação de Pacientes Vítimas de Erros Médicos de Mato Grosso do Sul afirma receber, em média, 80 denúncias por ano de supostos erros médicos e negligência em atendimentos no Estado. Segundo a entidade, cerca de 25 casos envolvem crianças.

Nesta quinta-feira (9), dois dias após a morte de João, a causa da tragédia foi revelada. A certidão de óbito aponta três causas: insuficiência respiratória, septicemia (popularmente conhecida como infecção generalizada) e artrite septicemia (em resumo, infecção em uma articulação).

Já no documento emitido pela Santa Casa, último hospital ao qual o menino foi encaminhado antes de sua morte, mostra que, no dia 6, às 20h30, João “deu entrada na UPA Universitário com cianose em extremidades de MMII, rebaixamento do nível de consciência e dessaturação”. Isso significa que a criança chegou com a pele já arroxeada/azulada na região dos membros inferiores. Às 01h15 da manhã do dia 7, a morte foi constatada. A equipe tentou reanimar João oito vezes.

Mas o que chama atenção é o trecho que diz: “Iniciamos os cuidados com o mesmo, coleta de exames e preparativo para troca de tubo com escape”. Ou seja, houve falha no processo de incubação de João, o tubo, que deveria auxiliar na respiração do menino, estava mal fixado.

Outro caso no interior do Estado também chama a atenção. Uma gestante de aproximadamente 33 semanas, de alto risco, deu entrada em trabalho de parto no hospital de Nova Alvorada do Sul (MS) na quarta-feira (8). Segundo o boletim de ocorrência, a unidade não tinha anestesista nem pediatra e tentou um parto normal por cerca de sete horas, incluindo manobras como Kristeller e uso de fórceps, o que teria causado lesões na paciente. O parto não evoluiu e houve tentativa de transferência.

A família afirma que a transferência, inicialmente esperada para Campo Grande, foi feita para Rio Brilhante sem regulação prévia. O bebê nasceu em estado grave, com sinais de sofrimento fetal, foi entubado, mas não resistiu e morreu por volta das 4h da manhã. O caso foi registrado como possível negligência médica e está sendo investigado.

 

Indícios de Negligência

Para o presidente da associação, Valdemar Moraes de Souza, o episódio evidencia problemas estruturais antigos da rede pública de saúde, que vão desde falhas na triagem até a sobrecarga das unidades e a falta de condições adequadas de trabalho. “É preciso remodelar e reestruturar o sistema de atendimento no Estado. Pela alta demanda, pelas irregularidades e por situações que muitas vezes acabam sendo fatais”, disse ao jornal O Estado.

‘Eu não tenho dúvida que houve negligência’, diz presidente

A associação acompanha o caso junto à família de João Guilherme, que afirma que o menino foi vítima de negligência médica. João morreu na madrugada da última terça-feira (7), em Campo Grande. Segundo os familiares, ele passou por duas UPAs (Unidades de Pronto Atendimento) e também pela Santa Casa nos dias que antecederam a morte. Ao todo, foram sete tentativas de atendimento médico.

O caso foi registrado como homicídio culposo, quando não há intenção de matar. A Polícia Civil e a Sesau (Secretaria Municipal de Saúde) investigam se houve falha ou negligência nos atendimentos prestados à criança.

Para Valdemar, o histórico de atendimentos e a condução do caso indicam que o quadro clínico não recebeu a gravidade necessária. “Eu não tenho dúvida de que houve negligência, tanto na parte do atendimento quanto na parte dos remédios, porque ele foi na primeira consulta e retornaram o mesmo remédio. E tinham várias pintinhas no corpo dele. Estava conversando com a mãe e com a família”, afirmou.

Segundo o presidente da associação, a entidade decidiu acompanhar oficialmente o caso. “Estamos assumindo a causa. Foi uma falha médica e administrativa. Não temos dúvidas de que ocorreu”, declarou.

Na avaliação da associação, o menino não deveria ter passado tantas vezes pelas unidades de pronto atendimento sem um encaminhamento mais rápido para atendimento hospitalar. “A associação não trabalha pela emoção, mas pelo que realmente aconteceu, pelo fato. E o fato aconteceu: ele foi várias vezes na UPA, e isso não poderia ter acontecido. Deveria ter sido encaminhado já para o hospital”, disse Valdemar.

O presidente também critica a forma como muitos pacientes são recebidos nas unidades de urgência e emergência e aponta a triagem como um dos principais gargalos do sistema. “É o descaso no atendimento, é o descaso da espera. Tudo isso ocorreu com João Guilherme. O que levou a esse óbito foram esses procedimentos de atendimento, uma triagem muito mal feita”, afirmou.

Com quase 20 anos de atuação à frente da associação, Valdemar diz que o número de denúncias recebidas revela um cenário preocupante no Estado. “É um fluxo muito alto de casos. A gente fica muito triste. Precisa mudar tudo”.

 

Falta de estrutura e demora no atendimento agravam risco, diz associação

Entre os problemas apontados pela entidade estão a demora no atendimento inicial, a estrutura reduzida das salas de triagem e a falta de condições adequadas para o trabalho das equipes de saúde.

“Quando faz uma triagem, você chega no balcão e demora para ser atendido. Muitas vezes a pessoa já está em situação crítica e precisa esperar sentada 30, 40 minutos. O espaço é muito pequeno. Tudo isso contribui para um erro médico ou negligência médica”, afirmou.

Segundo ele, a avaliação do paciente deveria começar antes mesmo da formalização do atendimento. “A partir do momento em que a pessoa entra na sala de triagem, quem está ali já tem que fazer uma leitura do paciente, do jeito que chegou. Porque você não sabe se a pessoa está morrendo ou se está bem. Se a pessoa foi até lá, é porque está sentindo alguma coisa”..

Valdemar também defende mais investimento em estrutura e suporte às equipes médicas. “Está faltando ventilação, está faltando aparelhagem. Tem que investir e dar mais condições para os médicos e para os enfermeiros no atendimento”, acrescentou.

 

Laudo aponta suposta falha na intubação

O jornal O Estado teve acesso ao laudo emitido pela Santa Casa para encaminhar o corpo ao IMOL (Instituto de Medicina e Odontologia Legal) que levanta a suspeita de falha no procedimento de intubação realizado em João Guilherme, na UPA Universitário, em Campo Grande.

De acordo com o registro, o menino deu entrada na unidade com insuficiência respiratória grave e cianose, quadro que exigiu a realização da intubação. Porém, no momento em que a equipe do Samu (Serviço de Atendimento Móvel de Urgência) assumiu o caso para fazer a transferência, a criança já estava em parada cardiorrespiratória e com o tubo mal fixado.

O relatório médico ainda descreve a presença de grande quantidade de sangue nas vias aéreas. Mesmo após manobras de reanimação realizadas ainda na UPA e durante o deslocamento, João foi levado em estado grave para a Santa Casa de Campo Grande.

Ao chegar ao pronto-socorro, por volta das 00h10, a equipe médica conseguiu restabelecer os batimentos cardíacos após três ciclos de reanimação. Na sequência, durante a preparação para a troca do tubo, em razão de um vazamento de ar (“escape”), o menino sofreu uma nova parada cardiorrespiratória.

Apesar de mais oito ciclos de reanimação, a morte foi confirmada às 1h05. O corpo foi encaminhado ao IMOL (Instituto de Medicina e Odontologia Legal), e o exame necroscópico deverá esclarecer a causa da morte.

 

Tubo com escape compromete a ventilação

Em entrevista ao jornal O Estado, o médico intensivista, presidente da Amib (Associação de Medicina Intensiva Brasileira) do Mato Grosso do Sul e professor do curso de medicina da UNIDERP (Universidade para o Desenvolvimento do Estado e da Região do Pantanal), João Antonio Carretoni Ricco, explica que como todo procedimento invasivo, a intubação possui riscos e possíveis complicações e que nenhum médico está totalmente isento de complicações relacionadas ao procedimento.

O intensivista afirma que um tubo com escape, ou seja, com vazamento de ar, compromete diretamente a ventilação. “Isso faz com que parte do ar ofertado seja perdida, entrando menos ar dentro dos pulmões. Dessa forma, um paciente que necessita de determinada quantidade de ar e oxigênio terá uma oxigenação menor, pois parte desse volume estará sendo perdida pelo vazamento”, afirma.

Além disso, ele comenta que os danos ao organismo quando esse tipo de falha médica acontece, depende da reserva clínica do paciente e da sua capacidade cardiopulmonar. “É algo bastante relativo. Existem pacientes que toleram uma hipoxemia ou um período de apneia por mais tempo, justamente por terem uma reserva cardiopulmonar maior. Por outro lado, pacientes com menor reserva clínica podem evoluir mais rapidamente com danos neurológicos, cardiopulmonares e sistêmicos. Portanto, depende do perfil clínico, hemodinâmico e neurológico de cada paciente”.

O fato é que a falha na ventilação pode levar à insuficiência respiratória, de acordo com o médico. “Se eu não consigo ofertar ar ao paciente de forma adequada através do dispositivo escolhido para a via aérea, isso gera dificuldade de oxigenação e ventilação, podendo levar à insuficiência respiratória.

Sobre as demais complicações, João explica que, diretamente, não existe risco de evolução para infecção generalizada nesses casos. “Uma falha de intubação, por si só, não gera diretamente uma infecção generalizada. No entanto, ela pode propiciar microaspirações. Ou seja, um tubo mal posicionado, mal fixado ou com componentes comprometidos. Por exemplo, o cuff, que é o balão que ajuda a proteger a via aérea, pode permitir a entrada de saliva e secreções da via aérea superior para a via aérea inferior e para os pulmões. Isso pode levar ao desenvolvimento de pneumonia ou infecção pulmonar. A partir daí, sim, pode haver evolução para um quadro de sepse, que popularmente é conhecido como ‘infecção generalizada’, embora tecnicamente seja uma resposta do organismo a uma infecção”, finaliza o especialista.

Menino passou por sete atendimentos antes da morte

De acordo com a família, João caiu enquanto brincava e machucou o joelho no dia 2 de abril. Ele foi encaminhado à UPA Tiradentes, onde passou por consulta e raio-X, sendo liberado com prescrição de dipirona e ibuprofeno. Nos dias seguintes, voltou a procurar atendimento em outras unidades, onde, segundo os familiares, recebeu medicação para dor e foi novamente liberado.

No dia 4 de abril, após receber uma medicação injetável na UPA Universitário, João começou a reclamar de dor no peito. Ainda conforme a família, o quadro foi tratado como ansiedade, e ele retornou para casa.

Depois, um novo raio-X apontou uma lesão no joelho, e o menino chegou a passar pela Santa Casa, mas não permaneceu internado. Já em casa, passou mal, desmaiou e foi levado novamente ao hospital, onde não resistiu.

 

As causas da morte seguem em análise

Em nota, o CRM-MS (Conselho Regional de Medicina de Mato Grosso do Sul) informou que acompanha com pesar as notícias sobre o caso e lamentou profundamente a situação relatada. “Uma infração ética só é confirmada após a conclusão de todo o processo administrativo. É esse cuidado que nos permite manter a ética e a segurança na medicina para toda a sociedade”.

Por Geane Beserra e Maria Gabriela Arcanjo

 

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