Caso Emanuelly: criança já tinha três registros no Conselho Tutelar antes de morrer

Foto: Nilson Figueiredo
Foto: Nilson Figueiredo

“Minha filha era carinhosa, querida”: mãe de Emanuelly desabafa após morte

Em documentos obtidos pela reportagem do jornal O Estado, apenas em 2025, o Conselho Tutelar da Região Sul de Campo Grande foi acionado três vezes para acompanhar denúncias de maus-tratos contra Emanuelly Victória Souza Moura, estuprada e morta aos 6 anos, na Vila Carvalho. O corpo da criança foi encontrado nesta quinta-feira (28), na casa de William Teixeira Timóteo, de 20 anos. O acusado foi morto em confronto com a polícia ainda pela manhã.

De acordo com a documentação, a primeira ocorrência foi registrada no dia 11 de janeiro, quando foi ao dentista com a bisavó do padrasto. Durante a consulta, a enfermeira que a atendeu, acionou o Conselho após a criança relatar que sua mãe tinha lhe dado um empurrão.. Ainda de acordo com a denúncia Emanuelly também apresentava sinais de maus-tratos e tinha o topo da cabeça com fios arrancados.

Segundo o relato da vítima, a mãe tinha o hábito de arrancar os cabelos da menina quando ficava irritada. A criança também disse que, em certa ocasião, levou um tapa na bunda do seu tio, mas, de acordo com o registro do Conselho Tutelar, não conseguiram entender “se tratava de violência física, sexual ou algum comportamento social próprio da família”.

Neste dia, a bisavó de Emanuelly apenas foi orientada sobre quais os cuidados que deveriam ser tomados com a criança e sobre as consequências que este tipo de violência pode trazer para a criança.

Já no dia 19 de março, houve um atendimento domiciliar para que o Conselho verificasse em quais condições Emanuelly vivia com sua família. Neste dia foi constatado que a criança, junto com a irmã mais nova, vivia em um ambiente com frequentes agressão física e psicológica, além de passar fome.

O registro ainda aponta que a mãe vive em situação de violência doméstica e sofre de deficiência cognitiva, mas não especificam qual é o transtorno. Mesmo diante deste cenário e visitando o local onde a vítima vivia, a conselheira responsável não requisitou acompanhamento da família e nem informou a situação ao MPMS (Ministério Público de Mato Grosso do Sul). A Polícia Militar também não foi notificada.

Já a terceira denúncia, recebida pelo Canal Disque 100, que recebe notificações sobre crianças em situação de maus-tratos e abuso ou exploração sexual, em maio, dá conta de que a criança teve o braço quebrado e era ameaçada de morte por pessoas que conviviam com ela. Ainda segundo a documentação, Emanuelly não era frequente na escola e faltava às aulas quando estava lesionada.

Neste último registro, feito poucos meses antes da morte da menina, revela que a criança dividia a casa com usuários de drogas. Apesar de ir ao local mais uma vez, a conselheira responsável não tomou providências sobre o ocorrido.

Sangue frio

David Bernardes, pai da vítima – Foto: Nilson Figueiredo

Marcos Willian chegou a passar toda a quarta-feira (27) com o pai da vítima, David Bernardes, de 26 anos, antes de ser capturado e morto em confronto com a polícia. O suspeito era conhecido da família e frequentava a residência nos últimos dias.

David, que também é pai de uma menina de 2 anos e a esposa está grávida de oito meses, contou que convivia de forma esporádica com o autor. “Ele era conhecido só de trabalho. Aparecia por aqui de vez em quando pra conversar, mas nunca chegou a parar muito aqui, não”, relatou.

Segundo o pai, Willian foi até a casa da família pela manhã e levou a criança. Horas depois, acompanhou David em uma diária de trabalho, enquanto a menina já estava morta dentro de sua própria casa.

“Ele (Willian) veio e pegou a menina cedo aqui, por volta das 8 horas. Quando foi 11 horas, ele foi comigo fazer uma diária de serviço e ficou a tarde inteira comigo, minha filha lá na casa dele, já morta”, disse, emocionado.

David contou ainda que, mesmo passando o dia ao lado do suspeito, não desconfiou do crime. “Eu só vi ele suando frio, nervoso, mas eu não desconfiava de nada porque ele tem uma menina do tamanho da minha. Cuidei da filha dele, ele cuidou da minha, eu não esperava ser ele, não.”

A mãe da menina, grávida de 8 meses e muito abalada, fez um apelo por justiça. “Meu Deus do meu coração! Minha filha, minha filha! Meu Deus do meu coração! Ela era dada, ela era querida, carinhosa. Meu Deus, tem que achar esse monstro”, desabafou, chorando.

Durante as buscas, a família pediu ajuda a vizinhos e comerciantes da região para acessar imagens de câmeras de segurança. A tia da vítima, Kênia Ana, de 22 anos, contou que foi um dos momentos mais difíceis.

“Tem um cabeleireiro aqui perto, e aí a gente pediu pra olhar as filmagens da câmera dele. Aí ele falou que queria saber que hora, porque não ia ficar fazendo isso o tempo inteiro. Eu falei que foi por volta das oito, nove horas da manhã. E aí ele puxou uma pessoa levando a criança”, relatou Kênia.

No início da noite, as imagens confirmaram que Willian havia levado a menina. A partir daí, a família iniciou buscas pela região e pediu ajuda à polícia. David também disse que foi informado, na delegacia, sobre a possibilidade de o suspeito ter feito outras vítimas.

“Na delegacia falaram que minha filha não foi a primeira, foi a terceira dele. E falou que se essas têm ficha lá, e as que não têm? E as que ele pode ter matado e enterrado? Tudo isso a gente ficou nervoso, né? A gente foi, andou todos os matos por aqui e não achamos”.

Abalado, o pai afirma que precisa encontrar forças para apoiar a esposa. “Tenho que ficar forte para ajudar a minha esposa”, disse, com a voz embargada. O corpo da criança foi encontrado na casa do suspeito, no bairro Vila Carvalho, enrolado em um cobertor marrom, dentro de uma banheira de bebê e embaixo da cama.

Outras vítimas

Marcos William Teixeira Timóteo, de 20 anos, conhecido como “Gordinho”, já era investigado por outros dois casos de estupro antes de sequestrar e matar Emanuelly Victoria Souza Moura, de 6 anos, na Vila Carvalho, em Campo Grande. Ele morreu na manhã desta quinta-feira (28), após entrar em confronto com o GOI (Grupo de Operações e Investigações), e chegou a ser levado para a UPA Vila Almeida, onde não resistiu.
De acordo com informações apuradas pela reportagem, uma das vítimas teria sido um bebê de apenas 1 ano, que quase morreu em decorrência do crime. A outra vítima seria a enteada do suspeito, que sofreu abuso aos 11 anos de idade.
Os dois casos teriam ocorrido entre 2019 e 2020, quando Marcos William tinha entre 15 e 16 anos. Por envolver vítimas menores de idade, detalhes sobre as ocorrências não foram divulgados.

Vulnerabilidade infantil

O caso reacende a memória do caso que ganhou repercussão nacional, o da pequena Sophia Ocampo, no dia 26 de janeiro de 2023. A pequena apesar de ter tido o registro de 30 passagens pelas UPAs (Unidade de Pronto Atendimento Médico), não conseguiu a proteção do poder público. Assim como Sophia e Emanuelly outras 274 crianças e adolescentes foram vítimas de estupro de vulneráveis em Mato Grosso do Sul, conforme os dados da Secretaria de Segurança Pública, somente neste ano, o que comprova que as políticas públicas precisam sair do papel e chegar até as vítimas.

Jovem enterra feto no quintal de casa

Mais um caso chamou a atenção ontem (28), quando uma jovem de 22 anos procurou a Unidade de Saúde da Família de Anhanduí, em Campo Grande para relatar que sofreu um aborto há quase um mês, a criança era fruto de um abuso sexual, que teria ocorrido em outra cidade. Funcionários da unidade acionaram a Guarda Civil Metropolitana.

Após o aborto, ele teria enterrado o feto no quintal de casa. O feto, tinha cerca de 39 semanas de gestação e foi localizado enrolado em um pano pelas equipes da Perícia que foram acionadas para investigar o caso.

A mulher contou que estava sozinha em casa no dia 1º de agosto, quando entrou em trabalho de parto. O bebê nasceu sem vida, e ela decidiu enterrá-lo no quintal. O caso será investigado pela Polícia Civil.

Por Suelen Morales, Juliana Aguiar, Ana Clara Julião

 

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