Bebê chegou em Campo Grande nessa terça-feira (11); segurança deficitária na fronteira contribui para cometimento de crimes de sequestro e desaparecimentos
Ayla chegou à Capital ontem (11) após a autorização da transferência da menina pelo Poder Judiciário. Após ser resgatada, a bebê foi encaminhada para uma unidade de acolhimento de crianças em Ponta Porã, município que faz divisa com a cidade paraguaia onde a menina estava com um casal. A decisão foi deferida dois dias depois.
A criança foi imediatamente encaminhada para outra unidade de acolhimento em Campo Grande, mas ainda não se sabe quando Ayla deve retornar à família. Em nota oficial, divulgada pelo Tribunal de Justiça do Estado, a criança encontra-se em segurança, sob acolhimento e passa bem. O local onde a criança está acolhida será mantido em sigilo, como medida necessária à sua proteção e à preservação de sua integridade.
No momento, o caso ainda é sensível e passa por uma série de dúvidas. A polícia não descartou a possibilidade de que a mãe possa ter vendido a bebê e, por esse motivo, ela deve ficar sob a tutela de uma instituição de cuidados infantis até que a situação esteja mais concreta. O casal preso com a bebê no Paraguai, deve cumprir prisão preventiva na Unidade Penal Ricardo Brandão (presídio masculino) e o Estabelecimento Penal Feminino de Ponta Porã.
Expectativas para ver Ayla
Em entrevista ao jornal O Estado na manhã de ontem (11), a madrinha de Ayla Emanuelly afirmou que a família já estava planejando ir ao encontro da menina em Ponta Porã, para onde ela foi levada após ser resgatada em Pedro Juan.
Contudo, ainda não se tem confirmação se os familiares poderão vê-la antes da decisão judicial que irá determinar quem terá a tutela da criança, mas, de acordo com a madrinha, a mãe e a avó irão solicitar autorização judicial, se for o caso.
O reencontro com a bebê é aguardado com expectativa pelos familiares. Ayla desapareceu em Campo Grande e foi localizada na madrugada de domingo, 48 horas depois, em Pedro Juan Caballero, depois de uma mobilização que envolveu forças de segurança dos dois países.
Registro
Um fato que chamou atenção no Caso Ayla foi a inexistência de registro da criança. Quando desapareceu, Ayla não tinha sido registrada pela família. Novamente em conversa com a reportagem, a madrinha da menina afirmou que familiares procuraram o Fórum de Campo Grande para regularizar a situação. Agora, segundo ela, Ayla já está registrada.
As versões sobre o motivo pelo qual Ayla ainda não era registrada, mesmo após 28 dias do nascimento, divergem-se entre si. No último sábado (8), quando o jornal O Estado esteve na casa da família, a madrinha da bebê afirmou que o registro não havia sido feito por uma questão de saúde da mãe, adolescente de 17 anos.
“Ela veio para casa [depois da cirurgia cesariana] e aí ficou adiando, né? ‘Não, eu tenho 30 dias para ir’ e ficou adiando. Como ela estava com um pouco de dor nos pontos, um deles realmente infeccionou na parte do meio, ela marcou para segunda-feira”, contou a madrinha. A criança teria sido raptada na quinta-feira antes do dia agendado.
Já no domingo, quando a menina foi encontrada, a versão apresentada pela mãe foi outra. “A gente ligou para o pai e ele disse que não tinha dinheiro para ir lá [no cartório]. Aí, depois que a gente foi para casa, a gente esperou alguns dias para poder registrar. E também porque eu não tinha dinheiro logo em seguida para ir lá, entendeu? Aí eu esperei para ir”, contou à imprensa.
Fiscalização na fronteira
O caso do suposto sequestro da menina Ayla Emanuelly, de menos de 1 mês de vida, encontrada em uma casa em Pedro Juan Caballero, no Paraguai, levanta questionamentos quanto à segurança e fiscalização na fronteira do Brasil com o país vizinho, uma vez que, ao que tudo indica, pessoas envolvidas no caso atravessaram para a outra cidade sem que fossem questionados ou parados para verificação de parentalidade da menina. Inclusive, é possível que ela nem mesmo possua documentação, o que facilitou ainda mais a ação dos sequestradores.
Com a repercussão da notícia, o especialista em segurança pública e Coronel da PMMS (Polícia Militar de Campo Grande) Alírio Villasanti reforça que a deficiência dos aparatos da segurança pública no território que divide os dois países facilita o cometimento de diversos crimes, incluindo sequestros e, embora os criminosos tenham modus operandi próprios, a falta de forças de segurança e fiscalização, abrem brechas para o cometimento desses delitos transfronteiriços .
“As fronteiras com o Paraguai e com a Polícia são muito vulneráveis, não se tem um controle efetivo desses espaços. Cada criminoso ou grupo tem uma forma de atuação dependendo das circunstâncias e de seus objetivos, mas precisamos de uma atuação mais efetiva das próprias Forças Armadas, até por questão de soberania nacional.
Ainda de acordo com ele, não existe um perfil que seja mais vulnerável para alvos de sequestros, já que o criminoso avalia todo o cenário. Villasanti ressalta, no entanto, que é primordial agir preventivamente para reduzir as chances de ser vítima deste tipo de crime.
“O que se deve fazer é agir preventivamente, tomando as precauções. Reduzir no que puder as oportunidades para o cometimento, como não interagir com estranhos, instalar sistema de monitoramento nas residência e não se deixar seduzir por propostas tentadoras de ganho fácil”, afirmou.
Por Ana Clara Julião e Maria Gabriela Arcanjo