Os moradores do distrito de Anhanduí participaram, na manhã de ontem (25), de uma audiência pública organizada pela Câmara Municipal, cujo tema central girou em torno da permanência dos comerciantes locais às margens da BR-163, o que estaria em vias de ser impossibilitado com o início das obras de duplicação da rodovia. A população defende que a retirada das barracas, que já são tradicionais na região, irá afetar significativamente a economia e sustento da maior parte das famílias, que dependem exclusivamente da renda gerada pela venda de doces, compotas, queijo, mel e artesanato comercializados nestes espaços.

Foto: Roberta Martins
Durante a audiência a população destacou ser unânime em não aceitar que a duplicação, embora necessária, afete os comerciantes locais, que há mais de 30 anos preservam as bancas e o comércio dos produtos fabricados no distrito, uma vez que a renda dos residentes se movimenta, em grande parte, em torno desta atividade.
Nascida e criada no distrito, Marluce Nantes de Oliveira, de 41 anos, disse que trabalha com o comércio nas bancas há mais de 30 anos, sendo que há 20 está à frente de uma banca. De acordo com ela, antes de assumir os negócios, ela fornecia doces caseiros para serem vendidos.
“Faz 20 anos que temos a barraca lá, mas tem gente que tem barraca há mais de 30 anos. Anhandui é conhecida pelas bancas, que já virou tradição, porque aqui não tem emprego, não tem indústria, não tem nada, então, a gente vive das bancas. Se tirar as bancas, eu não sei como vai ficar aqui”, desabafou.
Assim como exemplificou a moradores, além das famílias que vivem da venda direta, a retirada das barracas também poderá afetar sobremaneira os produtores e distribuidores de produtos como queijo, mel, entre outros itens vendidos para quem passa pela entrada da localidade. Assim, os prejuízos será estendido para além das 43 barracas existentes no momento, alcançando diversas famílias que vivem no distrito.
“Aqui não tem um giro de comércio forte, supermercado, indústria, não tem nada. A economia local viva das barracas. Fora que nenhum empresário quer investir em Anhandui, ainda mais com um pedágio desses, que acabou de matar o distrito. A comunidade não vai aceitar. Não fizeram reunião para dar uma alternativa, só quiseram saber como era o distrito”, detalha Elenilton Dutra, subprefeito de Anhanduí, que afirmou que Motiva Pantanal não teria realizado qualquer reunião para que a população pudesse participar ou dar sua opinião artes da decisão final.
Em ofício enviado ao gabinete do vereador André Salineiro, responsável por promover a audiência pública, a Motiva Pantanal explicou que nenhum de seus representantes estaria presente no debate, uma vez que o assunto ainda está passando por análise interna, mas colocou-se à disposição para conversas sobre o tema.
Apoiando a população, por sua vez, o parlamentar reforçou a importância do espaço destinado às vendas para a economia local e sustento das famílias que vivem em Anhanduí, bem como ressaltou o papel cultural das barracas, que há anos são marca registrada do distrito.
“A gente tem que lembrar que Anhanduí faz parte do município e merece a atenção do povo, então, estamos aqui para ouvir a população, os empresários e as entidades. Além de ser o ganha-pão, também temos um projeto de lei para que seja tombado como patrimônio cultural. Se for aprovado, não poderão mais mexer nessas barracas”, disse Salineiro.
Também participaram a audiência, os vereadores Professor Juari, que apoiou a iniciativa de tornar o ponto de entrada do distrito um patrimônio cultural e histórico de Campo Grande, Coringa, que aproveitou a oportunidade para criticar o valor do pedágio cobrado no trecho entre a Capital e a localidade que, atualmente, é de R$ 10.
“É um absurdo o que essa empresa faz com a população, porque se o morador precisa ir ao médico, buscar um parente, fazer compras, ele tem que pagar R$ 20, porque é R$ 10 para ir e R$ 10 para voltar. Depois eles vem com essa história de que vão melhorar, de tirar as barracas, querendo prejudicar a população local. Cultura e história não se desmontam”, disse o vereador.
Ainda segundo Coringa, ele irá propor um projeto de lei para que moradores do distrito sejam isentos da taxa de pedágio imposto pela Motiva Pantanal.
Durante a manhã o debate também abrangeu os possíveis transtornos que podem ser causados pela duplicação da rodovia no perímetro urbano de Anhadui, bem como os prejuízos para as espécies nativas de fauna e flora, que sofreram com a intervenção.
Como alternativa, alguns residentes propõem que as obras de duplicação sejam realizadas até a entrada da localidade e, posteriormente, sejam deslocadas para a região mais à frente, onde a quantidade de casas e comércios é menor, preservando a atual configuração da via no trecho que passa por dentro da região urbana de Anhanduí. Por lá, além das barracas, ainda existe a movimentação de carros, bicicletas e pedestres, pois as pessoas precisam acessar escolas, postos de saúde, entre outros serviços.
Por se tratar de uma rodovia federal, o movimento para a permanência dos comerciantes no local tradicional conta com o apoio dos deputados federais Beto Pereira, Rodolfo Nogueira e Luiz Ovando. Os três enviaram mensagens por vídeos, nas quais reafirmam a importância da obra, mas declaram que irão buscar a melhor solução para que ambos os lados sejam atendidos da melhor forma possível.
Ao final do encontro ficou definido que um relatório com as demandas e reinvidicações dos moradores será enviado para a Motiva Pantanal e que será solicitado que a empresa encaminhe todo e qualquer projeto que acharem definitivo para a ampla divulgação na comunidade.
Por Ana Clara Julião
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