“(…)Tomei banho. Esquentei comida. Li um pouco. Não sei dormir sem ler. Gosto de manusear um livro. O livro é a melhor invenção do homem” (Quarto de despejo: diário de uma favelada). Carolina Maria de Jesus, escritora e artista, mulher preta, periférica, mãe solo de três, neta de ex-escravizados(as) dos garimpos de ouro de Minas Gerais, com pouco acesso à educação formal, migrante. Nascida em Sacramento, Minas Gerais, em 14 de março de 1914, filha de Maria Carolina de Jesus, conhecida como “Cota”, trabalhadora doméstica e, também sem alfabetização formal, produto das contendas da estrutura socioespacial brasileira que excluía a população negra do acesso à educação formal.
Durante a infância, Carolina frequentou a escola Alan Kardec por apenas dois anos, mas a escrita e a leitura sempre foram suas guias. Em frente à sua casa, em Sacramento, ela lia diariamente um dicionário de capa dura e preta. Preta, como a cor da sua pele. Na época existia no código penal brasileiro um dispositivo chamado “lei da vadiagem”, que levou os vizinhos chamarem a polícia para prender a menina, pois ela estaria, segundo eles, praticando bruxaria com um livro de São Cipriano. Carolina e sua mãe foram presas e brutalmente espancadas. Após esse episódio, tornou-se perigoso e difícil arrumar emprego na cidade, levando-as a migrar para Franca, no interior de São Paulo.
E como já nos conta a história, Carolina e a sua mãe, viveram em condições extremamente precárias, momento em que Maria Carolina de Jesus e Carolina Maria de Jesus, mãe e filha, mulheres pretas de um Brasil com rugosidades escravocrata e patriarcal precisaram se separar.
Em 1937, aos 23 anos, Carolina chegou a São Paulo, a capital dos “sonhos” de muitos(as) migrantes. Momento em que sentiu uma grande solidão e tormento com a cidade grande. Em São Paulo trabalhava como doméstica, pois sendo mulher preta e sem escolaridade não lhe restavam muitas alternativas. Sem se adaptar a esse trabalho, que por muito tempo no Brasil era análogo à escravidão, passou a morar em albergues e viadutos, e sua vivência nas ruas da cidade grande é amplamente retratada em seus escritos. Em 1947 foi morar numa ocupação na rua Antônio de Barros, um terreno baldio. Assim, a rua volta no seu cotidiano. Até chegar as margens do Rio Tietê.
A prefeitura de São Paulo, decidiu recolher as pessoas que viviam nas ruas, despejando-as em um terreno sem infraestrutura, distante da cidade, que se tornaria a favela do Canindé. Um pedaço de terra para construir a sua casa, seu lar!
A realidade socioespacial da favela de Canindé marca a obra de Carolina Maria de Jesus. Sem infraestruturas urbanas básicas como água, esgoto e energia; sem acesso aos serviços de saúde e educação públicos; sem emprego; sem comida; vivendo o racismo no corpo e na alma, onde segundo Carolina, o fedor das fezes nos corpos das crianças se juntava à lama pobre, entremeada entre o rio e os barracos, da água do rio que chegava pela torneira — contaminada de fezes e caramujos –, lixo, sobre o qual ela, guiada por seu plano literário, dia e noite, todos os dias, com fome e exausta, escreveu em seus mais de 50 cadernos, um diário. Um diário que documenta as lutas das mulheres pretas e pobres do Brasil, denunciando a fome – amarela – enquanto um problema político, que desmascara a hipocrisia da sociedade brasileira. Sua escrita coletiva – sua escrevivência – fala de dor, resistência e esperança.
“Quarto de Despejo: Diário de uma favelada”, publicado em 1960, foi o livro mais vendido no Brasil por seis meses, superando “Cravo e Canela”, de Jorge Amado. Traduzido para 13 idiomas e editado em diversos países, Carolina recebeu prêmios e honrarias de presidentes, artistas e intelectuais. Mas, onde e quando você ouviu falar pela primeira vez de Carolina Maria de Jesus? Carolina(s) e Maria(s) que foram “apagadas” da memória coletiva brasileira. No Brasil do passado, presente e futuro nos perguntamos: Quem conhece Carolina? Quem são as Carolinas? Onde estão as Carolinas? “E quem lê vai saber como as coisas são injustas e vão lutar para que isso não se repita mais” (Carolina Maria de Jesus – Cia dos Inventários).
Claudia Marques Roma é Professora, pesquisadora e extensionista junto ao Programa de Pós-Graduação em Geografia da UFGD. Coordenadora do projeto “Territórios de Escrevivências”, financiado pela Capes-PDPG Políticas Afirmativas. E-mail: claudiaroma@ufgd.edu.br
Este artigo é resultado da parceria entre o Jornal O Estado de Mato Grosso do Sul e o FEFICH – Fórum Estadual de Filosofia e Ciências Humanas de MS.