Por que a democracia precisa das humanidades?

Pedro Henrique Cristaldo Silva Zanon

A questão que move este breve texto tem sua origem no livro homônimo da filósofa norte-americana Martha Nussbaum, intitulado: “Sem fins lucrativos: Por que a democracia precisa das humanidades”. O livro é um manifesto em defesa da educação em humanidades como fortalecimento da democracia. Sua proposta é cultivar tanto a filosofia quanto as artes em oposição ao produtivismo capitalista, que tenta, entre outras coisas, reduzir o ensino ao lucro. Tendo em vista as crises contemporâneas dos sistemas democráticos, as recentes ameaças institucionais e os diversos ataques sociais contra as humanidades, além do crescente investimento em profissionalização técnica e aperfeiçoamentos financeiros visando o sucesso econômico a todo custo, torna-se urgente a retomada da reflexão sobre o valor educacional dessas áreas que são a base da cultura. A título de definição: entendemos por “humanidades” um conjunto de disciplinas com valor intrínseco (filosofia, história, letras e artes, outras) que formam a intelectualidade de um indivíduo voltado à cultura.

Do lema de Sócrates – “a vida, se não for examinada, não merece ser vivida” – à proclamação “sapere aude” de Kant, a filosofia sempre teve um compromisso com a racionalidade. Isso nada mais é do que hoje tentamos nomear como “pensamento crítico”. Porém, devido a falta dessa postura e o excesso de banalização terminológica dela na atualidade, a questão acerca da democracia torna-se urgente. O pensamento crítico, em sua radicalidade filosófica, possibilita a autonomia intelectual do cidadão e o liberta de extremismos. Proporcionado pela “mãe das ciências”, a crítica consiste na capacidade de abstração, assumindo um distanciamento pessoal que leva à inconformidade diante de ideias e práticas dogmaticamente estabelecidas na sociedade. Como competência educacional, o pensamento crítico possui fatores relevantes para o exercício pleno da cidadania, como a avaliação histórica de contextos sociais, a administração econômica de recursos pessoais, o domínio linguístico de outros idiomas e o convívio com a pluralidade. Assim, para neutralizar a adesão política irracional, é preciso a perspicácia do pensamento crítico, pois como bem ensinou Oswald de Andrade: “Contestar é um dever da inteligência.”.

No entanto, ao lado dele é preciso as artes, pois sozinho o pensamento crítico pode se tornar esteticamente insensível e eticamente indiferente. As artes, concebidas em sua amplitude (cinema, música, literatura, teatro, pintura etc.), formam no espírito humano a sensibilidade estética e a compreensão representativa. Ao lermos um poema de Manoel de Barros, por exemplo, ocorre tanto a fruição sensível daquilo que é belo quanto a compreensão daquilo que representa a humanidade. A sensibilidade e a compreensão são elementos essenciais do que Nussbaum chama de “imaginação empática”. O cultivo de uma imaginação empática proporcionada pelas artes consiste na capacidade de transferência ética visando a alteridade por meio da obra artística. Essa transferência se dá pela observação, leitura ou escuta de alguém como pessoa semelhante, gerando o reconhecimento de si através do outro. Esse processo proporciona a identificação apesar da diferença, ou seja, o pertencimento a uma condição comum da existência. Assim, para diminuir a indiferença afetiva e cultivar uma cidadania solidária, é preciso a capacidade representativa da imaginação empática.

Em período político-eleitoral, é preciso estar imune a discursos simplistas, soluções imediatas e promessas populistas. O pensamento crítico neutraliza a adesão passiva, e a imaginação empática enriquece a conduta ética. A filosofia, com seu modo crítico de raciocínio, ataca o problema do autoritarismo ideológico, e as artes, com sua capacidade representativa, lidam solidariamente com o desafio do multiculturalismo. Essas duas competências são imprescindíveis para o exercício da cidadania, pois proporcionam à democracia a educação integral do ser humano. Portanto, por que a democracia precisa das humanidades? Porque o pensamento crítico da filosofia e a imaginação empática das artes fundamentam a cidadania e fortalecem a democracia! Leitor-eleitor: humanize-se…

 

Pedro Henrique Cristaldo Silva Zanon é mestrando no Programa de Pós-graduação em Filosofia (PPgFil) da UFMS. E-mail: pedro.h.c.silva@ufms.br

 

Este artigo é resultado da parceria entre o Jornal O Estado de Mato Grosso do Sul e o FEFICH – Fórum Estadual de Filosofia e Ciências Humanas de MS.

 

Acesse as redes sociais do Estado Online no Facebook Instagram

 

Leia mais

Carta para “Pixote” aprender a descascar laranjas

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *