Querido “Pixote”,
Entendo seu abatimento por ter sido rotulado como terrorista por um poderoso governo. Dói mesmo. Veja bem, o uso de termos criminais para marcar indivíduos é uma ferramenta antiga de isolamento político. No entanto, você é um jovem promissor, bolsista Prouni. Não desista de estudar. Perceba que, por detrás desses ataques, existem perigos institucionais e econômicos estruturais que causam estragos mais amplos. Não se deixe paralisar, foque nas engrenagens, veja que a encrenca não é com você. Aqui estão uns exemplos.
O filósofo analítico Jason Stanley explica com quem é o problema. Para ele, a retórica autoritária opera por meio de distorções linguísticas. Quando líderes afirmam que a expansão de direitos tornou a vida do cidadão comum (branco, classe média, etc.) mais complexa ou difícil, eles usam uma estratégia de má-vontade argumentativa. Essa tática inverte a realidade, falando mal da busca por justiça social como se ela gerasse um peso para a maioria, preparando o terreno para que a população aceite a retirada de garantias fundamentais.
Esse processo se traduz em perda de bem-estar. Dá para entender isso estudando o método forense de David Cay Johnston. Em suas investigações no veículo DCReport, ele mostra que o perigo real de um governo de perfil autocrático está na captura do sistema fiscal. A alteração das leis tributárias transfere renda pública para oligarquias financeiras, enquanto o esvaziamento de órgãos de fiscalização impede a auditoria de grandes fraudes. Esse arranjo desestabiliza a economia e reduz o poder de compra da maioria.
Outro ponto cego que você deve estudar é a destruição da burocracia técnica, analisada por Donald Moynihan. Através de um malabarismo jurídico, a tal da Schedule F, o governo converte cargos estáveis de cientistas e técnicos em postos de livre nomeação política. Como ele aponta, essa perda de expertise paralisa agências de saúde, previdência e meio ambiente. O Estado perde a capacidade de fiscalizar e regular o mercado, deixando a população desprotegida contra abusos corporativos. E ainda vai azucrinar outros países que tentam pôr ordem no seu mercado, com a lei Magnitsky…
Os cientistas políticos Steven Levitsky e Daniel Ziblatt explicam que as democracias, hoje, não caem mais por golpes militares. Elas sofrem erosão interna através do uso manipulado das próprias leis. Freios institucionais são substituídos por funcionários molengas que legalizam o arbítrio. O rótulo aplicado a você, por exemplo, serve como anestesia pública para perseguir opositores sem quebrar formalmente a Constituição.
Por fim, veja a historiadora Ruth Ben-Ghiat. Ela detalha a aliança entre o líder autocrático e novos bilionários do setor tecnológico. Essa fusão usa a desregulação como moeda de troca para manobrar as plataformas de comunicação e fluxos financeiros, consolidando o controle social.
Estude esses fenômenos, mas fora das redes sociais. Leia relatórios de instituições de pesquisa do país envolvido, como a Brookings Institution. Leia reportagens baseadas em documentos da ProPublica. O poder real se esconde nos diários oficiais, nas minutas de decretos, nas alterações de alíquotas econômicas. Compreender essa lógica é a melhor maneira de superar a tristeza do ataque pessoal e compreender os desafios do nosso tempo. Força, filho. Você vai aprender a descascar essa laranja podre.
Com solidariedade,
Um amigo.
Josemar de Campos Maciel é Doutor em Psicologia (PUC-Campinas) e professor dos Programas de Pós-Graduação em Desenvolvimento Local e Psicologia da UCDB. E-mail: maciel50334@yahoo.com.br
Este artigo é resultado da parceria entre o Jornal O Estado de Mato Grosso do Sul e o FEFICH – Fórum Estadual de Filosofia e Ciências Humanas de MS.
Acesse as redes sociais do Estado Online no Facebook e Instagram
Leia mais