Mato Grosso do Sul é um estado jovem no mapa político, mas antigo no mapa da experiência humana. Antes de estradas, antes de cidades, antes até de muitas palavras que usamos hoje, já havia gente por aqui olhando o céu, observando os rios, conversando com a paisagem — e deixando marcas. Em abrigos sob rochas, paredões de arenito e lajes expostas, estão as inscrições e pinturas rupestres: sinais que atravessaram séculos como quem atravessa uma cheia, insistindo em permanecer.
Para quem nunca viu de perto, é fácil imaginar “desenhos antigos” como simples curiosidade. Mas as inscrições rupestres são mais do que arte — são memória material, são arquivo do território. Elas registram modos de vida, deslocamentos, escolhas de lugar, relações entre humanos e animais, ciclos de água e estação, festas, caçadas, ritos e, sobretudo, maneiras de pensar o mundo. Em muitos painéis, há grafismos geométricos, linhas onduladas, figuras humanas estilizadas, pegadas, marcas repetidas como “ritmos” na pedra. Não é exagero dizer: são páginas de um livro escrito sem papel, cujo idioma exige respeito e método para ser lido.
O valor cultural disso é difícil de medir, porque ele se espalha em várias dimensões ao mesmo tempo. Há o valor científico, claro: cada painel pode dialogar com geologia, arqueologia, paleoambiente, tecnologia de pigmentos, história da ocupação humana. Há o valor educativo: as inscrições são uma aula ao ar livre sobre tempo profundo, sobre biomas, sobre diversidade cultural e sobre o que significa pertencer a um lugar. E há um valor que às vezes esquecemos de nomear: o valor simbólico. Em tempos de tanta pressa e tanta tela, a pedra nos devolve a pergunta básica: quem esteve aqui antes e como se relacionou com este chão?
E aqui cabe uma ressalva essencial: falar em “significados” não é o mesmo que “traduzir” como se houvesse uma legenda definitiva. A arte rupestre não é um código simples e não deve ser tratada como caça ao tesouro interpretativo. Há limites éticos e epistemológicos. Muitas leituras precisam ser construídas com cuidado, com pesquisa, com comparação técnica e, sobretudo, com escuta: povos indígenas e comunidades locais não são “fontes”, são sujeitos de conhecimento, e em vários contextos certos sentidos são reservados, não publicáveis, pertencentes a protocolos culturais específicos. Valorizar é, também, saber onde parar.
Mas se é verdade que a pedra pede respeito, também é verdade que ela oferece possibilidades. Um dos debates mais urgentes para Mato Grosso do Sul é como transformar patrimônio em futuro sem transformar patrimônio em mercadoria. A boa notícia é que existe um caminho: turismo cultural e de natureza feito com base em conservação, interpretação qualificada e governança local.
Quando um município abriga sítios com inscrições rupestres, ele abriga um potencial raro: o de ser destino de um turismo que não depende de grandes obras, e sim de boas práticas. Trilhas sinalizadas com controle de acesso, visita guiada por monitores capacitados, centros de interpretação com linguagem acessível, parcerias com universidades, material educativo para escolas, roteiros integrados com gastronomia, artesanato, hospedagem familiar e paisagens naturais. É um turismo que cria e distribui renda, gera orgulho e estimula a conservação — porque, quando a comunidade percebe que o patrimônio tem valor e traz benefício, ela vira guardiã, não espectadora.
Isso não significa abrir porteira sem critério. Pelo contrário. A arte rupestre é frágil: fuligem, toque, umidade, pichações, fogo, drones sem regras, flash repetido, trilhas erosivas — tudo isso pode apagar em poucos anos o que resistiu por milênios. Por isso, a valorização precisa vir junto com infraestrutura mínima, regras claras e fiscalização inteligente. E aqui entram os agentes públicos: prefeituras, estado, órgãos de patrimônio, setor de turismo, universidades. Patrimônio não se protege com discurso; protege-se com plano de manejo, investimento, equipe, formação e continuidade.
Mato Grosso do Sul já tem um patrimônio que muitos estados gostariam de ter. Falta, em muitos casos, que a gente conte melhor essa história — e a conte do jeito certo: com ciência, com ética e com a beleza que ela merece. As inscrições rupestres não são só passado. Elas são uma chance de futuro para regiões inteiras, se tratadas como aquilo que são: prova de humanidade no território e um convite a um desenvolvimento que não destrói o que tem de mais precioso.
No fim das contas, talvez seja isso que a pedra nos ensine: progresso não é apagar marcas; é aprender a caminhar com elas.
Lia Brambilla Gasques é Arqueóloga, Professora e Pró-reitora de Extensão, Cultura e Email: lia.gasques@ufms.br
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