A sutil arte de observar quem convive conosco revela os mundos e as urgências que o olhar distraído costuma ignorar
O ser humano é um “multiverso” de expressões. Se formos atentos ao conviver com o próximo, seja na formalidade dos ambientes profissionais, na convivência das comunidades de fé, na intimidade do lar ou na descontração dos espaços públicos e digitais, passamos a observar que ninguém é linear. Somos uma mistura de fases que se alternam; uma mudança de espaço nesse multiverso interior que se apresenta conforme o “jeito do dia”.
Essa sensibilidade nos permite perceber quando algo não está no seu eixo comum. Esse conceito de “fases” pode ser exemplificado, de forma urgente, nos casos de mulheres que enfrentam dificuldades silenciosas, como a violência doméstica.
Muitas vezes, a mulher precisa navegar nas emoções mais turbulentas para manter uma fachada de normalidade, enquanto lida com uma densa nuvem de pensamentos que altera sua frequência emocional. É um recolhimento que tenta mascarar o desespero.
Se tivermos a calma de observar, notaremos que aquela não é a pessoa predominante em dias normais. E é aqui que o cuidado se torna estratégico: ao perceber que um amigo ou
amiga não está bem, podemos nos aproximar de forma discreta.
Contudo, se a proximidade for limitada por questões de intimidade, especialmente quando o zelo exige a delicadeza entre sexos opostos, a nossa sensibilidade deve nos guiar para acionar outra pessoa de confiança. Falar com um amigo em comum que tenha mais acesso àquela intimidade é garantir que o socorro chegue, mesmo que não seja pelas nossas mãos diretas.
Assim, neste período em que o calendário nos convida a refletir sobre o Dia da Mulher, o maior tributo que podemos oferecer é acionar essa engrenagem do cuidado compartilhado. O objetivo é que ninguém passe despercebido em sua dor. Que possamos alicerçar nossas relações na bondade, garantindo que, para cada mundo paralelo de dúvidas e anseios, haja uma rede de apoio pronta para agir.
Afinal, como ensinou a filósofa Edith Stein: “A alma é um castelo com muitos aposentos, e é preciso muita delicadeza para não invadir o que deve ser sagrado, mas estar presente onde o auxílio é necessário.”
Que neste Dia da Mulher, sejamos nós esse amparo, seja agindo diretamente com bondade ou sendo a ponte para quem pode ajudar.
ODAIR JOSÉ DE MELO
Mestrando em Administração com Ênfase em Políticas Públicas – PROFIAP/UFMS
Bel. Direito e Administração; Pós em Direito Público, Direitos Humanos, Direito da
Criança, Jovem e Idoso.