“Na língua Terena, Kalivôno quer dizer criança”, essa frase abre o espetáculo “Kalivôno”, que é o primeiro espetáculo infantil do Grupo de Pesquisa em Danças Populares Brasileiras Renda que Roda, da Universidade Estadual de Mato Grosso do Sul (UEMS). No palco, onze dançarinas (os), entre acadêmicas (os) e egressas (os) dos cursos de Dança e de Teatro da UEMS e do Mestrado Profissional de Artes (Prof-Artes) da Universidade Federal de Mato Grosso do Sul (UFMS), desenvolvem uma narrativa pautada nas culturas populares do Brasil e na cultura Terena de Mato Grosso do Sul.
O Grupo de Pesquisa Renda que Roda existe desde 2016 e busca, através de suas pesquisas teóricas, práticas e pedagógicas, inserir, divulgar e valorizar as culturas populares e tradicionais do Brasil nos debates e ações cênicas e educacionais (acadêmicas e de formação básica). Para tanto, o grupo possui diversos espetáculos de dança e ações que levam essas culturas para escolas, centros culturais e eventos, além de desenvolver uma importante formação através e a partir dessas culturas nos cursos de Dança e de Teatro da UEMS e no Mestrado em Artes da UFMS.
O espetáculo nasce do desejo de aprofundar as experiências estéticas das crianças a partir das culturas que são tratadas nas cenas, criadas por meio de um processo colaborativo organizado e desenvolvido através da articulação de proposições corporais advindas de nossas respectivas pesquisas sobre “estado expandido de consciência”, sobre o “corpo-máscara” e sobre os corpos em processos de criação a partir de danças populares brasileiras como Maracatu, Cacuriá, Siriri, Catira e outras danças dos diferentes territórios de identidades no âmbito nacional.
Os “estados expandidos de consciências”, em contexto de processos criativos em dança, são estados psicofísicos que acionam memórias e sensações e as usam como aliadas à criação da movimentação corporal.
O “corpo-máscara” é um estado psicofísico de extensão corporal, que é desenvolvido a partir do mascaramento estabelecido por meio do uso de máscaras, indumentárias ou caracterizações corporais em atuações no teatro, na dança e na performance em algumas festividades populares brasileiras.
A partir dessas duas concepções corporais articuladas com a prática de algumas danças populares brasileiras, desenvolvemos um conjunto de laboratórios de criações cênicas de onde surgiram potentes memórias das infâncias dos intérpretes(as)-criadores(as) que nutriram as coreografias, orientadas por ritmos como o acalanto, os cantos de trabalho, a música instrumental, o cancioneiro de danças populares tradicionais e os ritmos urbanos com referência no Funk. Tais memórias e ritmos deram materialidades para a criação dos Bichos-Papões, alegorias que fazem parte do espetáculo.
A montagem de “Kalivôno” oportunizou a nossa continuada apreciação sobre os processos de criação a partir de danças populares brasileiras e, assim, nos possibilitou como artistas-docentes-pesquisadores, o direcionamento de um processo de treinamento corporal no qual as dançarinas e dançarinos desenvolveram autonomia criativa, aprimoramento técnico e a articulação de uma prática artístico-pedagógica com teóricos como Ailton Krenak, Nego Bispo, Daniel Munduruku, Marcia Kambeba, dentre outros.
Além da articulação teórico-prática, o processo de montagem também foi alimentado com memórias de brincadeiras infantis que impulsionaram uma potente reflexão sobre a importância do brincar desde as infâncias até a idade adulta. Por isso, afirmamos que o espetáculo é para crianças de todas as idades, uma vez que, “Numa floresta encantada, onde o vento dança com as árvores, uma criança sonha com uma cobra. Entre memórias, contos e símbolos, constrói-se uma poética embalada pela cultura popular brasileira: o brinquedo vermelho que gira na roda, a avó que conta histórias, a onça que protege a mata e o bicho papão que rouba sonhos, mas não dá medo. No rastro do som da flauta e no despertar da alfaia, somos mães, pais, tios, avós, filhas, amigos que carregamos com a gente pra todo canto. “Kalivôno” é a criança que somos e um convite para dançar as infâncias e tudo o que as constituem”.
Gabriela Salvador é artista da cena, pesquisadora e professora nos cursos de Dança e de Teatro da UEMS e no Mestrado Profissional da UFMS, e coordenadora do Grupo Renda que Roda. E-mail: gabriela.salvador@uems.br
Tom Conceição é artista da cena, pesquisador e docente nos cursos de Dança e de Teatro da UEMS e docente colaborador do Grupo Renda que Roda. E-mail: osvanilton.conceicao@uems.br.
Este artigo é resultado da parceria entre o Jornal O Estado de Mato Grosso do Sul e o FEFICH – Fórum Estadual de Filosofia e Ciências Humanas de MS.
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