Escavando a nós mesmos: a Pré-História de Mato Grosso do Sul e a busca pelas origens humanas
Por que buscamos o passado? A resposta parece simples: para conhecer nossas origens e compreender como chegamos até aqui. Mas a arqueologia mostra que essa busca vai muito além da curiosidade histórica.
Escavar um sítio arqueológico é investigar formas de viver, pensar, comunicar e atribuir significado ao mundo. Cada vestígio encontrado amplia nossa compreensão, não apenas sobre aqueles que viveram antes de nós, mas sobre nossa própria condição humana.
Mato Grosso do Sul ocupa um lugar privilegiado nesse debate. Muito além do Pantanal e do Cerrado, o estado guarda evidências fundamentais para compreender a ocupação das Américas. Em diferentes regiões foram identificados sítios arqueológicos que registram a presença humana desde tempos muito remotos.
Entre eles destaca-se o sítio Casa de Pedra, em Chapadão do Sul, cuja datação alcança aproximadamente 12.600 anos antes do presente, uma das mais antigas do estado. Esses achados dialogam com as novas pesquisas que vêm reformulando antigas teorias sobre o povoamento americano, mostrando que esse processo foi muito mais complexo do que se imaginava.
Entretanto, a importância desses sítios não reside apenas na antiguidade. Eles revelam a capacidade humana de adaptar-se a diferentes ambientes, desenvolver tecnologias, construir conhecimentos sobre a paisagem e produzir cultura muito antes da invenção da escrita.
É nesse cenário que a arte rupestre de Mato Grosso do Sul assume papel central. Pinturas e gravuras registradas em paredões rochosos constituem algumas das manifestações simbólicas mais antigas da América do Sul, que durante muito tempo foram interpretadas apenas como expressões artísticas. Hoje, compreende-se que representam sofisticados sistemas de comunicação visual, capazes de transmitir informações, marcar territórios, fortalecer identidades e preservar conhecimentos coletivos.
Esses grafismos podem ser entendidos como uma das primeiras tecnologias de comunicação da humanidade. Antes dos livros, da imprensa ou das redes digitais, grupos humanos já utilizavam símbolos para registrar experiências e construir memória. As paredes rochosas transformaram-se em arquivos culturais capazes de atravessar milhares de anos, permitindo que mensagens do passado ainda dialoguem conosco.
Essa perspectiva aproxima a arqueologia e da filosofia e das ciências humanas. O filósofo Friedrich Nietzsche afirmava que o ser humano é um “animal histórico”: necessitamos compreender nossa trajetória para atribuir sentido à existência. Martin Heidegger lembrava que somos seres temporais, constituídos pelas experiências herdadas e pelos futuros que projetamos. Assim, cada sítio arqueológico representa um encontro entre diferentes tempos, onde o passado permanece vivo no presente. Jacques Lacan afirmava que somos movidos por um desejo permanente de compreender aquilo que nos falta. Talvez seja justamente essa busca que explique nosso fascínio pelas origens. Cada nova descoberta arqueológica responde a algumas perguntas, mas produz muitas outras.
Ao investigar os primeiros habitantes de Mato Grosso do Sul percebemos que a história humana é marcada por migrações, adaptações, criatividade e produção contínua de significado. Os vestígios arqueológicos encontrados no estado revelam que comunicar experiências sempre foi uma necessidade humana. Os grafismos rupestres mostram o desejo de deixar marcas que ultrapassassem o tempo, conectando indivíduos, grupos e gerações. São testemunhos de que cultura, memória e simbolismo acompanham nossa espécie desde seus primeiros passos no continente.
Por isso, a Pré-História de Mato Grosso do Sul ultrapassa os limites de uma história regional. Ela integra um dos grandes debates científicos contemporâneos sobre as origens humanas nas Américas e evidencia que compreender o passado é também compreender o presente. Cada escavação revela muito mais do que objetos antigos: revela a extraordinária capacidade humana de criar conhecimento, compartilhar experiências e construir memória coletiva.
Talvez seja essa a maior contribuição da arqueologia. Ao escavarmos a terra, escavamos também nossa própria identidade. Descobrimos que a história da humanidade não é apenas a narrativa de sua sobrevivência, mas a permanente busca por significado. No fundo, cada sítio arqueológico nos aproxima da mesma pergunta que acompanha a filosofia há milênios: quem somos nós?
Lia Raquel Toledo Brambilla Gasques é Arqueóloga, Professora da FACH/UFMS e Pró-reitora de Extensão Cultura e Esporte da UFMS. E-mail: lia.gasques@ufms.br
Este artigo é resultado da parceria entre o Jornal O Estado de Mato Grosso do Sul e o FEFICH – Fórum Estadual de Filosofia e Ciências Humanas de MS.
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