Embora a palavra “diversidade” tenha se instalado em nosso vocabulário e se disseminado nos discursos públicos, seu sentido ainda permanece distante de ser compreendido e, em consequência, incorporado em nossas práticas sociais cotidianas. Frequentemente acompanhada de outra palavra, “inclusão”, a diversidade permanece associada a uma percepção quantitativa, a um “mais é mais” (em oposição à célebre frase “menos é mais” do arquiteto alemão Mies Van der Rohe), e a operações matemáticas de soma e multiplicação de elementos.
No entanto, a soma das partes não se traduz em um todo diverso. Multiplicar olhares é mais do que somar olhos, é também movimentar o olhar para permitir observar o mundo a partir de diferentes perspectivas e enquadramentos, e, sobretudo, mirar outros objetos e horizontes. Para além de portas e janelas, buscar brechas, trincas e furos em tudo aquilo que nos envolve e protege para, talvez, enxergar além. Somar vozes, por sua vez, só traz diversidade se os ouvidos se multiplicarem e se a escuta e o diálogo se fizerem.
Como consequência dessa visão matemática da diversidade, o termo acaba apontando para uma ideia de perspectiva única, disseminada e consumida por um maior número de pessoas, que, embora diferentes em sua aparência, acabam submetidas aos mesmos instrumentos de medida, padrões, objetivos, ideias e desejos universalizados e globalizantes, que moldam a nossa percepção e experiência, e achatam o mundo em infinitas repetições do mesmo, mas com outra forma, cor ou sabor.
A Arquitetura e o Urbanismo, disciplinas e campos de um saber fazer específico, se estruturaram a partir de uma racionalidade moderna, ocidental, técnica e científica que moldou a nossa percepção e sensibilidade estética e vem dando forma aos espaços que somos capazes de produzir, ao nosso modo de viver e habitar o mundo, cada vez mais homogêneos e iguais. Tudo o que escapa desse molde é enquadrado como desvio, exotismo, atraso a ser corrigido e, na melhor das hipóteses, patrimonializado como curiosidade ou reproduzido como “temático”.
É esse gesto distintivo que produz o rótulo “vernacular”: uma forma de reconhecer a existência de outros modos de construir e habitar sem lhes conceder estatuto de conhecimento, sem admitir que também são formas de pensar, formular, decidir, articular, decidir e produzir não só o mundo mas também a forma de estar no mundo. O mesmo mecanismo que universaliza uma única métrica de desenvolvimento universaliza também uma única ideia do que é fazer cidade, do que é projetar, do que é morar bem, de como se constrói.
O agravamento das questões que ameaçam a nossa própria existência no planeta suscita uma imperiosa necessidade epistemológica de escutar pensadores que nunca foram plenamente absorvidos por essa racionalidade, porque falam de dentro de cosmologias e de modos de viver e sentir que sempre resistiram a ela. Não por acaso as ideias mais originais sobre Arquitetura e Urbanismo as quais tive contato nos últimos anos vem de Antônio Bispo dos Santos, o Nego Bispo, líder quilombola e ativista político falecido em 2023; Ailton Krenak, ambientalista, escritor e liderança indígena; ou ainda de Luis Simas e Luiz Rufino, professores e estudiosos da cultura, história, filosofia popular e religiosidades brasileiras.
Esses pensadores não nos oferecem um manual de projetos, ideias ou técnicas construtivas, nem um catálogo de materiais ecológicos e sustentáveis para a construção. O que nos oferecem é mais precioso: a evidência de que existiram e existem outras perguntas e formas de perguntar sobre espaço, tempo, corpo e pertencimento, perguntas estas que a racionalidade moderna, no seu interesse por universalização, deixou de saber formular. Diante dos problemas territoriais do presente, e penso aqui em projetos amplos de desenvolvimento como a Rota Bioceânica, nos projetos habitacionais que ameaçam os modos de habitar tradicionais do Mato Grosso do Sul, nas disputas por patrimônio e memória, talvez o gesto mais necessário não seja buscar respostas prontas em repertórios já esgotados, mas diversificar os pontos de vista e de escuta a partir dos quais essas perguntas podem ainda ser refeitas e, quem sabe, respondidas.
Flavia Palhares Machado é Arquiteta e Urbanista, Dra. em Desenvolvimento Local, docente do Curso de Arquitetura e Urbanismo da UNIDERP e membro do Fórum Humanidades UNIDERP. E-mail: flavia.machado@cogna.com.br.
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