A David Monteiro de Souza Jr. (In Memoriam)
A Filosofia da Física é uma área de interface entre ciências humanas, naturais e formais. Um Grande Sertão, com mistérios e veredas, rios caudalosos e algumas vidas secas, campo grande, imenso, pantanoso, Pantanal, onde a pesquisa não utilitária é desenvolvida como forma de vida, cultivando-se o valor epistêmico, cultural, social, da ciência em si. E nessa área, robusta ponte entre a tradição e a vanguarda, que alarga as fronteiras do conhecimento, temos realizado, em nível de excelência, uma profunda pesquisa filosófica no MS. O fato do livro em que coordenei os trabalhos editoriais, atuando como organizador, revisor geral e autor, “Filosofia da Física: Problemas de Ontologia e Epistemologia da Física Moderna” (São Paulo: LF, 2024) ter sido finalista do Jabuti Acadêmico em 2025, é prova cabal disso.
O Jabuti é conhecido como o prêmio literário mais importante, de maior prestígio e distinção, do Brasil. Se antes a literatura especializada era uma categoria do Jabuti, agora é uma modalidade, com cerimônia própria, organizada pela Câmara Brasileira do Livro, com apoio da Academia Brasileira de Ciências e a Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência. São milhares de livros pré-selecionados pelas editoras e inscritos, passando por sucessivas fases, até a escolha dos 5 finalistas de cada categoria. O selo de “Livro Finalista”, usado de agora em diante em todas as futuras edições, introduz a obra na história da Filosofia brasileira como um dos livros especializados mais prestigiados por público e crítica. E se não fosse a pesquisa e o trabalho sério realizado pelo “Physikós – Estudos de História e Filosofia da Física e da Cosmologia” na UFMS, em parceria com o Departamento de Física Nuclear e Altas Energias da UERJ, “Filosofia da Física”, não teria, de fato, sido publicado.
Quando embarquei no aeroporto de Campo Grande rumo a São Paulo, para participar da Cerimônia de Premiação, não pude deixar de pensar que um avião estava me levando ao Jabuti…. Viriam excelentes dias! Palestraria no Instituto de Física da USP, conheceria Valter Hugo Mãe, Tom Zé, celebraria com os mais prestigiados autores acadêmicos do Brasil! Os versos de Gil me vieram logo a mente: “Se o que se pode ver, ouvir, pegar, medir, pesar/ Do avião a jato ao jabuti/Desperta o que ainda não, não se pôde pensar/ Do sono eterno ao eterno devir/ (…) Se a crença quer se materializar/ Tanto quanto a experiência quer se abstrair/ A ciência não avança/A ciência alcança/A ciência em si”. O avião levantou voo e olhei pela janela. Lá embaixo, Grande Sertão Veredas, em que o real se revela é no meio da travessia! Seus cantos e recantos, suas armadilhas e suas prendas. Pantanal infinito e belo, aberto sobre o globo. O avião…Tuiuiú em voo, materialização da “ciência em si”, pássaro de encontrar o azul. Olho o Mato Grosso do Sul. Penso em Manoel e sinto um assombro profundo! Ouço-o lá dentro e também experimento que “meu quintal é maior do que o mundo”.
*(Após concluir o texto percebi que repetira o mesmo verso de Manoel que utilizei ao final de meu último artigo nesse jornal. Acabrunhei-me. Fiquei besta. Fiz-me para pedra posta no meio do próprio caminho. E agora Vinícius? Vinícius, e agora? Mas logo o próprio Manoel me ofereceu uma saída: “Repetir, repetir – até ficar diferente. Repetir é um dom do estilo”. Assim sendo, foi).
Vinícius Carvalho da Silva é Professor de Filosofia da Ciência e Epistemologia no PPgFil e no PPGECI da UFMS. Coordenador do Grupo de Pesquisa Physikós e finalista do Jabuti Acadêmico em 2025. E-mail: [email protected]
Este artigo é resultado da parceria entre o Jornal O Estado de Mato Grosso do Sul e o FEFICH – Fórum Estadual de Filosofia e Ciências Humanas de MS.
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