Quando li o livro de João Paulo Charleaux (As Regras da Guerra. São Paulo: Companhia das Letras, 2026), senti algo entre admiração e incômodo. É admirável um autor cujas páginas transbordam de vozes de vítimas e de clamor sério por limites para a guerra. Por outro lado, é incômodo sentir que, diante de um mundo em que populações inteiras estão sendo massacradas por iniciativas que conseguem ser ao mesmo tempo absurdas e criminosas, haja tão poucas pessoas adultas presentes nas salas de negociação, capazes de fechar a torneira por onde jorra sangue, petróleo e investimentos. Há poucas pessoas a falar claramente que é a mesma torneira. Uma delas é Charleaux. Ler com atenção o seu trabalho hoje é oportuno, enquanto crianças são explodidas, porque seu livro recoloca uma pergunta que nossa época tenta invisibilizar. De fato, o que ainda significa limitar a violência quando a guerra se torna cada vez mais automatizada, distante e impessoal?
Em tempos de velhos que agem como moleques e brincam com armamentos perigosos como se fossem consoles de videojogos de apertar botões, comportando-se como operadores anônimos, mobilizando drones, sistemas tecnológicos e tomando decisões à distância e à beira de seus laguinhos de Narciso, a guerra corre o risco de parecer um procedimento sem corpo, sem rosto e sem culpa. Charleaux vai na direção oposta, insiste que não há combate abstrato e lhe dá rosto: há vítimas, há mortes, há responsabilidade e, justamente por isso, deve haver regras. A guerra não deixa de ser guerra quando se torna técnica, ou quando se glamouriza. Ela apenas aprende a esconder melhor seu aguilhão e sua violência.
O mérito de Charleaux está em tratar o direito da guerra não como ornamento moral, mas como tentativa concreta de conter a barbárie e o absurdo que lhe dá corpo. As normas humanitárias existem porque a guerra tende ao excesso. Sem elas, o discurso da eficiência bélica facilmente encobre o que deveria causar horror: alguém decidiu matar, alguém foi morto, alguém foi poupado por uma regra. A força do livro está em lembrar que a guerra, como prática humana, pode ser submetida a limites. E se há limites, há ferramentas para aquelas pessoas que ainda atribuem valor às vidas humanas poderem frear as máquinas de moer populações.
No livro está embutida também uma crítica ao vocabulário contemporâneo da violência, muitas vezes adocicado eufemisticamente por palavras como segurança, precisão, neutralização. Charleaux devolve peso ao léxico, narrando a história das regras da guerra e mostrando que a proteção de civis, o tratamento de prisioneiros e a distinção entre combatente e não combatente não são detalhes burocráticos. São uma pauta ética a separar conflito de carnificina.
Por isso, o livro tem valor jurídico, crítico e político. Ele enfrenta a anestesia que costuma acompanhar as guerras transmitidas em tempo real, comentadas como espetáculo e consumidas como notícia. Charleaux provoca a todas e todos nós contra a indiferença e, em vez de glorificar drones e botões, pergunta quem paga o preço por esse gesto, mas não com dinheiro. Com sangue e com o corpo. Em vez de celebrar eficiência, ele recoloca no centro o custo humano.
Ler Charleaux é oportuno hoje, porque ele devolve à guerra sua dimensão trágica e concreta. Seu livro lembra que é uma questão de civilização, não de fraqueza, conter a violência com regras. Num tempo em que andamos confundindo poder com licença para massacrar, é uma leitura bem-vinda.
Josemar de Campos Maciel é Doutor em Psicologia (PUC-Campinas) e professor do Programa de Pós-Graduação em Desenvolvimento Local da UCDB. E-mail: maciel50334@yahoo.com.br
Este artigo é resultado da parceria entre o Jornal O Estado de Mato Grosso do Sul e o FEFICH – Fórum Estadual de Filosofia e Ciências Humanas de MS.
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