Tertuliano e o azar de todos, na copa de 2026

Josemar de Campos Maciel - Foto: divulgação
Josemar de Campos Maciel - Foto: divulgação

Tertuliano de Cartago é o primeiro latinista cristão e um grande apologeta. Em um texto hoje clássico, “De Spectaculis” (197-202 d.C.), ele tentava manter os cristãos longe dos espetáculos romanos. A obra foi editada por J-P. Migne em Paris, em 1844 (vol. I, cols. 627-662), e é uma provocação até hoje, enquanto assistimos ao bombardeio promovido pela indústria dos jogos de azar durante a Copa do Mundo.

O argumento central de Tertuliano ultrapassa a idolatria de espetáculos, corridas de bigas ou carnificina entre machos gladiadores. No capítulo XV, ele desenvolve uma crítica fisiológico-espiritual, argumentando que Deus prescreveu que o Espírito Santo, naturalmente terno e delicado, fosse tratado com tranquilidade e paz, e não inquietado pelo furor, pela bile, ira e dor. Essa exigência divina contradizia as exibições públicas de então, pois nenhum espetáculo deixava de provocar um abalo no espírito humano. O mecanismo da degradação baseia-se em uma reação em cadeia, observa Tertuliano: onde há prazer, há engajamento e paixão partidária; e onde existe essa rivalidade, emergem furor, bile, ira e dor. A alma acelera-se e é moída pela engrenagem de agitação, perdendo a sua estabilidade e a sua quietude virtuosa.

Em nossos tempos, esse diagnóstico repete-se nos jogos de azar, encaixados com muito dinheiro nas transmissões da Copa no Brasil. O apostador de hoje aparece com a mesma paixão. Investe, projeta, espera. A aposta converte-se numa luta contra a casa e contra o destino. A alma acelera a cada lance, a cada cartão, a cada minuto de acréscimo. A ansiedade é o combustível do negócio. A fúria explode com o gol contra; a bile, com a derrota do favorito; a ira, com a aposta perdida por detalhe; a dor, com a perda do sustento e com a dívida.

Tertuliano advertia: “nemo ad voluptatem venit sine affectu, nemo affectum sine casibus suis patitur.” (“Ninguém busca o prazer sem afeto, nenhum afeto escapa aos revés”, em tradução livre). O jogo de azar na Copa é uma máquina de produzir fracasso.

Alguém objetaria que o apostador não frequenta templos pagãos. Mas se atentarmos ao efeito existencial, cai a resistência. Tertuliano perguntava no capítulo XXV: “Poderá alguém, posto onde nada há de Deus, lembrar-se de Deus?”. O apostador imerso nos joguinhos de aparência inocente, atiçado por locutores empáticos e supostamente apolíticos, habita território onde a transcendência é liquidada. Não há paz quando a alma oscila entre a euforia do ganho e o desespero da perda. A concussão é permanente.

Além disso, Tertuliano notava que nos espetáculos “o próprio consenso […] forma uma constelação de faíscas de paixões”. A mesma dinâmica ocorre nos grupos de apostas e nas redes de prognósticos. A comunhão de interesse não gera fraternidade, mas fanatismo em série. O apostador está cercado por multidão virtual igualmente cega e furiosa.

Os jogos de azar na Copa não são mero entretenimento. São mais um entre tantos casos de tecnologias de aceleração e sequestro da alma (juntamente com as telas!). Perturbam o espírito, artificializam a espera, monetizam a emoção e transformam o tempo do jogo em tempo de apreensão. Contra isso, Tertuliano perguntava: Qual prazer é maior do que o fastio do próprio prazer, do que a verdadeira liberdade, do que uma consciência íntegra?… Se o desafio parece excessivo, isso confirma o diagnóstico: a alma acelerada já não reconhece sua própria doença. Este texto não é sobre Tertuliano, caro leitor.

Josemar de Campos Maciel é Doutor em Psicologia (PUC-Campinas) e professor dos Programas de Pós-Graduação em Desenvolvimento Local e Psicologia da UCDB. E-mail: maciel50334@yahoo.com.br

Este artigo é resultado da parceria entre o Jornal O Estado de Mato Grosso do Sul e o FEFICH – Fórum Estadual de Filosofia e Ciências Humanas de MS.

 

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