Em continuidade as matérias especiais de Carnaval sobre as escolas de samba de Campo Grande, hoje é dia de falarmos da Vila Carvalho, uma das mais tradicionais escolas da Capital. Com o tema ‘Inez: De matriarca à força feminina da nação verde e rosa’, a escola será a segunda a desfilar, no dia 3 de março, a partir das 19h, na Praça do Papa.
O Grêmio Recreativo Escola de Samba Unidos da Vila Carvalho foi fundada em 15 de outubro de 1969, tendo como seu o bairro Vila Carvalho o seu local do coração. Felipe Duque, o ‘Felipão’, foi o responsável por montar a escola, no quintal de casa, no bairro que hoje carrega o orgulho do samba. No primeiro ano ela foi campeã, o que encheu de alegria os corações dos moradores do bairro, e da família do carnavalesco. Depois do seu falecimento, em 1974, a escola teve um novo presidente, José Carlos de Carvalho. A escola ganhou o título no primeiro ano de José Carlos na presidência.
Com mais de 50 anos de história e tradição, a verde e rosa escolheu para o desfile de 2025 homenagear aquela que durante esse tempo, mostrou dedicação e amor pelo samba: Inês Mônica de Castro. Matriarca fundadora, a Vila Carvalho levará para a avenida toda a trajetória e força feminina de uma personagem essencial para a escola.
A matriarca
Mestre de Bateria, vice-presidente e filho de Dona Inês, Wlauber Carvalho contou ao Jornal O Estado que a preparação para o Carnaval começa no ano anterior, contabilizando aproximadamente um ano de organizações. “Nos preparamos quando acaba o nosso desfile, geralmente já temos um enredo na cabeça para o próximo Carnaval e durante o ano vamos desenvolvendo”, explicou. “O Carnaval para a Vila Carvalho não é apenas janeiro ou fevereiro, é o ano inteiro”.
Além de homenagear a matriarca, o enredo destacará a força feminina da escola. “Podemos ter certeza de que apresentaremos com muito amor, dedicação e carinho a nossa matriarca, nossa mãe e todas as mulheres, pois ela representa a força feminina em cada uma delas.”
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Foto: Divulgação
A diretora de bateria, Giovanna Adilia Dias Bertho Arevalo, de 19 anos, explica que o enredo, além de trazer a homenagem à matriarca da escola, também fala um pouco da superação que a escola passou no último ano. “O processo de criação do samba vem muito do enredo. Ele fala sobre a matriarca da nossa escola e o samba, a vida dela, sua trajetória. No refrão também fala sobre o ‘renascer das cinzas’, porque no ano passado tivemos o pior Carnaval da nossa história, onde dois carros quebraram antes de entrar na avenida. Entramos no desfile sabendo que iriamos ser um dos últimos colocados, foi bem difícil. Nesse ano voltamos a disputar no nosso nível”, explica.
Com os ensaios a todo vapor, meses e meses de preparação, a expectativa é emocionar o público na avenida. “O enredo traz muito disso e a bateria corresponde com muito amor e ritmo. Quando a Vila fala da própria história, ela vem muito mais forte e o enredo vem disso. Estávamos no nosso pior momento e quando alguém esta assim, recorre à mãe. E é exatamente isso que a nossa escola fez e quer trazer essa essência para a avenida”, destaca.
Ritmo de família
Um dos ritmistas da Poderosa, bateria da escola Vila Carvalho, Vinicius Martins de Souza, de 23 anos, relatou ao jornal O Estado que os ensaios possuem uma rotina puxada, mas muito gratificante.
“Ser ritmista é muito legal, tocamos em vários lugares diferentes. Nessa reta final temos muitas apresentações e ensaios, mas é muito gratificante ver a galera se divertindo com nossas apresentações. O Carnaval em si sempre é um desafio para nós ritmistas, querendo ou não, a bateria da escola de samba que dita o ritmo da escola na avenida, mesmo sendo um lugar para diversão temos muita responsabilidade nas nossas mãos, a escola depende de nós”.
Vinicius acompanha a verde e rosa desde pequeno, ao lado do irmão, responsável por introduzi-lo ao mundo do samba. Com o amor pelo ritmo florescendo, o ritmista chegou a aprender a tocar caixa, um dos instrumentos da escola. Após um tempo afastado da Vila Carvalho, foram os estudos que o trouxeram de volta. “Em 2019, quando entrei na faculdade de Ciência da Computação, vi que tinha a bateria lunática. Logo entrei de volta para esse mundo do samba, aprendi novamente a tocar caixa e os demais instrumentos. Em 2020 voltei para a escola e desfilei pela primeira vez na bateria, foi incrível e desde lá nunca parei”, relembra.
Exaustão, vida pessoal, profissional e estudos. Tudo isso precisa ser conciliado com os ensaios da bateria e a responsabilidade de ser ritmista. “São vários meses de ensaios, apresentações, aprender o samba, as bossas. Para mim, que toco caixa, é um instrumento que mantém o ritmo da bateria, então basicamente nunca paramos de tocar, é uma batalha com o cansaço, mas depois de tantos ensaios conseguimos um certa resistência, e tudo da certo”, ressalta.
Cria da Vila
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Lara Dias, Rainha de bateria – Foto: arquivo pessoal
Pode-se dizer que a Rainha de Bateria Lara Dias Gomes da Silva é ‘nascida e criada’ dentro da escola Vila Carvalho. Conhecida como Lara Morena, começou a frequentar a escola de samba aos 8 anos. “Sou ‘cria da vila’, desfilando em alas tanto das crianças como de adultos. Um dia a esposa do presidente da escola me viu sambando e falou com minha mãe, se eu não poderia ser a Rainha Mirim da escola, e claro que aceitamos”, relembra.
Após ficar por três anos como Rainha Mirim, Lara passou por escolas de samba em Campo Grande, Corumbá e Cuiabá. Em 2020 se tornou a Primeira Princesa do Carnaval de Campo Grande. “Logo em seguida recebi o convite para retornar a Vila Carvalho como rainha e estou a quatro anos a frente da bateria”.
E quem pensa que ser Rainha de Bateria é apenas ter samba nó pé, está muito enganado. “Ser Rainha é muita responsabilidade! Não é só chegar, ser bonita e danças, vai além disso. Tem que amar a comunidade, acolher todos, ter carisma e muita humildade”, explica. Com treinos cinco dias da semana, ela reforça que a troca entre rainha, comunidade e escola é o principal. “Quem faz a escola é a comunidade. Se a comunidade não aceita a rainha, não adianta! É um clima super desagradável, porque a comunidade deixa ela de lado. E é tão gostosa essa troca de energia, principalmente para mim que sou da Vila desde muito nova, conheço todo mundo lá dentro. Também sempre acolho os novos integrantes!”.
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Lara Dias
Vinicius e Giovanna destacam a expectativa para o desfile. Para eles, a maior expectativa é levar alegria e emoção para quem for assistir ao desfile na Praça. “Podem esperar uma bateria correta, instrumentos bem tocados, afinação perfeita e bossas excelentes, será um verdadeiro show, para quem for à praça do papa nos acompanhar não vai se arrepender”, disse o ritmista.
“A gente espera que todo mundo conheça a Dona Inês, conheça mais uma parte da história da Vila Carvalho, com muito amor, emoção e carinho. Tudo aquilo que nossas mães desejam para nós, é o que a gente quer transmitir para o público, assim como a Dona Inês transmite pra gente. Será um desfile com muitas surpresas”, finaliza a diretora.
Por Por Carolina Rampi