Uma reflexão sobre memória, isolamento e a forma como as relações humanas podem ser esvaziadas ganha espaço nos palcos de Campo Grande neste mês. A Companhia Onças D’Água inicia a circulação do espetáculo “Vida de Coisa”, montagem inédita que passará por escolas e espaços culturais da cidade com sessões gratuitas voltadas tanto para estudantes quanto para o público em geral.
Dirigido por Edner Gustavo e com as atrizes e produtoras Sabrina Lima, Nathália Maluf, Karen Centurion e Gabriela Freitas, a obra integra uma programação que também inclui atividades formativas. A proposta é aproximar diferentes públicos da produção teatral contemporânea, oferecendo experiências que vão além da apresentação cênica e estimulam o contato com os processos de criação artística.
Em cena, a narrativa se desenvolve a partir da convivência de três mulheres que habitam um ambiente marcado pela estagnação e pela repetição. A chegada inesperada de uma visitante rompe a lógica daquele espaço e desencadeia questionamentos sobre pertencimento, identidade e as transformações que afetam a percepção de si e do outro. A história utiliza situações absurdas, humor corporal e referências populares para tratar de temas delicados sem abrir mão da leveza e da inventividade.
Na trama, o público acompanha a rotina de três mulheres que vivem em um cenário marcado pelo isolamento e pela repetição. A aparente imobilidade desse universo é abalada pela chegada de uma visitante desconhecida, que traz consigo novas perspectivas e provoca mudanças na dinâmica do grupo. Entre situações permeadas pelo absurdo e pela poesia, a narrativa conduz reflexões sobre identidade, pertencimento e os processos que podem levar uma pessoa a perder sua própria humanidade diante das imposições da vida cotidiana.
A circulação de “Vida de Coisa” começa na terça-feira, 16 de junho, às 16h, no Instituto ACIESP, no bairro Aero Rancho. No dia seguinte, 17 de junho, a montagem será apresentada para estudantes da EJA (Educação de Jovens e Adultos) da E.M Professor Plínio Mendes dos Santos, no Guanandi, às 19h.
Já as sessões abertas ao público acontecem nos dias 19 e 21 de junho, sexta-feira e domingo, respectivamente, sempre às 19h, no Teatro Flor e Espinho, localizado na região central de Campo Grande. Todas as apresentações têm entrada gratuita, com retirada de ingresso no Sympla
Universo cênico
Para a reportagem do Jornal O Estado, Karen Centurion explicou que a construção estética de “Vida de Coisa” foi desenvolvida a partir de referências ligadas ao teatro físico, à comicidade e ao universo do absurdo. Segundo ela, a proposta era criar uma linguagem cênica capaz de provocar o riso sem abrir mão do estranhamento, permitindo abordar questões humanas de maneira poética.
A atriz destaca ainda que a cultura popular teve papel importante na concepção da montagem. Elementos presentes no cotidiano serviram de inspiração para a criação das personagens e para a forma como elas se relacionam com os objetos e com o espaço em cena, contribuindo para a construção de uma atmosfera singular.
“Nós buscamos uma estética que valorizasse o corpo, a ação e a imagem. Em muitos momentos, o significado não está apenas nas palavras, mas nas situações que são construídas no palco e na maneira como o público se conecta com elas”, afirmou.
Karen também ressaltou que o caráter coletivo do processo criativo influenciou diretamente o resultado final do espetáculo. “Muitas soluções surgiram da improvisação e da experimentação conjunta. A escuta entre direção, elenco e equipe criativa foi fundamental para que encontrássemos uma linguagem própria para a obra”, completou.
Olhar humanizado
A reflexão proposta por “Vida de Coisa” surgiu ainda nas primeiras etapas de criação da dramaturgia, desenvolvida especialmente para o espetáculo. Segundo Karen, o processo partiu de temas que o grupo desejava abordar em cena e foi sendo construído gradualmente ao longo dos ensaios e experimentações.
Entre os assuntos que passaram a ocupar o centro das discussões estava a forma como a sociedade enxerga a velhice, especialmente a experiência das mulheres idosas. A equipe buscou investigar como essas pessoas frequentemente são reduzidas a estereótipos ou associadas à perda de função social, deixando de ter suas trajetórias e subjetividades reconhecidas.
“Em muitos momentos, as pessoas mais velhas acabam sendo vistas apenas pela ideia de utilidade. Isso nos levou a questionar o que existe para além desse olhar e quais histórias continuam vivas mesmo quando a sociedade parece não enxergá-las mais”, explicou.
A partir dessas inquietações, o espetáculo passou a construir personagens que evidenciam memórias, desejos, afetos e diferentes formas de existir. “Nos interessava olhar para essas mulheres de maneira complexa e humana, mostrando que elas carregam sonhos, vontades e experiências que continuam presentes independentemente da idade”, completou Karen.
Parceria
Embora cada integrante tenha assumido funções específicas durante a criação de “Vida de Coisa”, o processo foi marcado pela colaboração constante. Nathália Maluf atuou na dramaturgia, ao lado do diretor Edner, e também na produção, enquanto Sabrina Lima esteve envolvida na produção e Karen contribuiu diretamente na concepção do cenário, entre outras atribuições.
“Apesar dessa divisão, é difícil estabelecer fronteiras rígidas entre os papéis. Foi um trabalho muito artesanal, em que todas participaram de diferentes etapas e colaboraram sempre que necessário. As funções acabaram se cruzando o tempo todo, tornando a construção do espetáculo verdadeiramente coletiva”, conta Karen.
O Espetáculo foi concebido para dialogar com espectadores de diferentes faixas etárias, apostando em temas universais que atravessam distintas experiências de vida. Segundo Karen, a circulação em escolas e instituições amplia as possibilidades de encontro entre a obra e públicos diversos, enriquecendo as trocas promovidas pelo espetáculo.
“A apresentação na ACIESP tem um significado especial porque reúne um público idoso que se aproxima diretamente de muitas questões presentes na montagem. Mas nossa intenção é que a peça converse com qualquer pessoa, independentemente da idade, já que aborda assuntos como memória, afeto, pertencimento, desejos e a passagem do tempo, temas que fazem parte da experiência humana de forma geral”, finaliza.
O projeto foi contemplado pela PNAB (Política Nacional Aldir Blanc), com recursos do Ministério da Cultura e Governo Federal, por meio da Prefeitura Municipal de Campo Grande e FUNDAC. A iniciativa conta com o apoio da CIA APOEMA, Grupo de Teatro Fulano Di Tal, Teatro Flor e Espinho e Primos Resíduos Metálicos.
Ficha técnica:
Atrizes criadoras: Sabrina Lima, Nathalia Maluf, Karen Centurion e Gabriela Freitas
Direção e encenação: Edner Gustavo
Dramaturgia: Edner Gustavo em colaboração com Nathalia Maluf
Assessoria de imprensa: Madu Livramento
Produção executiva: Sabrina Lima
Produção geral: Nathalia Maluf
Social Media: Karen Centurion
Iluminação: Luana Vilela
Identidade visual: Gabriel Mikyo
Fotografia e vídeo: Hevo Mídia
Intérprete de Libras: Tatiana Tassia
Amanda Ferreira