Samba no pé e orgulho no coração

Foto: Divulgação
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Membros de escolas de samba de Campo Grande revelaram como é a preparação para o Carnaval e o amor pela festa

O samba no pé pode ser de berço ou de aprendizado, o que importa é a paixão pelo ritmo, pelo desfile e pela atividade, que muitas vezes é realizada com muito suor e lágrimas, ultrapassando todas as barreiras, seja de idade ou até mesmo a profissão.

Para o jornal O Estado, a Rainha de Bateria da Vila Carvalho, Lara Moreno, a Rainha de Bateria da escola Deixa Falar, Rebecca D’Albinie, a passista veterana e hoje musa da Escola Cinderela Tradição, Rosenilda Riquelme e a mais nova, Ana Clara dos Santos, passista da G.R.E.S. Os Catedráticos do Samba, relataram em entrevista como é pertencer a uma escola, suas rotinas e como começaram no mundo do Carnaval.

Rainhas do Samba

Foi com apenas oito anos que a Rainha de Bateria da Vila Carvalho, Lara Moreno, começou a trilhar seu caminho no samba e no Carnaval. “Cresci dentro dos desfiles, fiquei dois anos na ala das crianças e no meu terceiro ano na escola, desfilei na ala normal, na de adultos. E aí veio o convite para ser a 1ª Rainha Mirim de bateria da escola”.

Lara ficou por mais três anos na Vila Carvalho, mas saiu durante uma temporada. Nesse meio tempo chegou a ser coroada como a 1ª Princesa do Carnaval de Campo Grande, em 2020 e após a pandemia, recebeu novamente o convite para ser a Rainha de Bateria da Vila Carvalho. “E estou desde então, já são quatro carnavais sendo rainha de bateria da Vila Carvalho”.

Segundo Lara, ser Rainha é uma conquista. “É uma felicidade imensa, ser Rainha de uma escola que você começou ainda na ala das crianças, então é uma responsabilidade muito, muito grande, também pelo comprometimento com a escola, com os eventos, com a comunidade”, revelou.

Quem também conquistou o posto de Rainha de Bateria, pela G.R.E.S Deixa Falar, é a comunicadora e atriz Rebecca D’Albinie. Assim como Lara, Rebecca começou anos no mundo do samba, tendo inclusive a oportunidade de conhecer os fundadores da escola.

“Minha história na Deixa Falar começa antes da fundação da escola, quando conheci em 2005 o saudoso Salvador Dodero, bem como o carnavalesco Francis Fabian, ambos fundadores da Deixa Falar. Após trilhar caminhos por outras agremiações, sendo em uma delas Rainha por alguns anos e em outra Musa, até de escolas de samba de Corumbá, em 2016 tivemos uma tentativa de que virasse rainha na Deixa Falar, mas a um mês do desfile, acabei optando por desfilar em outra escola como rainha. Em 2019 trilhei um curto caminho pelo carnaval do Rio de Janeiro, sendo passista na escola de samba Estácio de Sá, mas voltei para Campo Grande para competir no concurso de rainha do carnaval de 2020 e saí campeã. Em outubro de 2022, após um ano sendo rainha do carnaval de Campo Grande e um ano afastada de todas as escolas, fui coroada finalmente Rainha da Deixa Falar, tendo minha melhor amiga, e comadre, como mestre de bateria da bateria Filhos de Jorge. Eu entrei na escola oficialmente através do meu reinado”, relembra.

Rebecca considera que ser Rainha de Bateria vai muito além do brilho e encanto dos desfiles. “É disciplina, entrega, preparo físico e cuidado emocional. Como sou crítica e perfeccionista, busco sempre a alta performance, porque quero retribuir ao público e à minha escola todo o carinho, respeito e responsabilidade que esse posto exige. Dentro da escola todos esperam o melhor, o samba, o sorriso no rosto, a energia boa e principalmente a presença. As rainhas precisam ser o exemplo para outras mulheres e meninas de força, de coragem, de posicionamento”, destacou.

Ana Clara dos Santos Passista da Catedráicos do Samba – Foto: Divulgação

Preparação

Não basta saber sambar, tem que ter carisma, posicionamento, amor pela escola e muito pique para aguentar as rotinas de ensaios, horas com fantasias pesadas e as noites de desfiles na Praça do Papa.

“Os preparativos começam por volta de junho e julho, tanto com roupa, corpo, alimentação, já que é preciso dar uma ‘seguradinha’ em algumas coisas. A roupa também é um gasto muito grande, tem a preparação para os ensaios, preparações apenas com a bateria, para aprender as batidas, para chegar nos próximos ensaios com a coreografia pronta”, explicou Lara.

A preparação também vai além do Carnaval, sendo até mesmo emocional, conforme Rebecca. “Minha rotina durante o ano todo é de muito cuidado físico e emocional, com treinamentos de dança, de força e condicionamento. Bem como me mantenho cuidando da dieta, só mudo as estratégias para quando chega mais perto do desfile e aumentam os ensaios. Mas cuidar do corpo e da mente é fundamental, até porque hoje em dia, com redes sociais, todos participam das nossas vidas de maneira muito próxima, sendo muito importante estar bem o ano todo. Fora os cuidados de manutenção de imagem que são rotina comum de uma rainha: cabelo, unha, cílios etc”.

Requisitos

Além de todo esse preparo, o carisma, a humildade e o amor pela escola também são colocados a prova, principalmente para as Rainhas, que possuem um elo profundo com suas comunidades. “Uma Rainha precisa ser aceita pela sua comunidade, pois se não é, nem adianta. Precisa ser humilde, ter o samba no pé, ter uma postura dentro e fora da avenida, tanto nos ensaios quanto no carnaval. Porque tem sempre as pessoas que acham que a gente está ali só para mostrar o corpo ou querendo algo a mais. Eles não levam isso como um trabalho em si. Quando eu estou como rainha de bateria, eu estou ali como uma profissional. Eu não estou ali para curtir o carnaval. É uma responsabilidade muito grande. Então, para mim, é um trabalho como qualquer outro. É um trabalho muito importante, sério e com responsabilidade”, argumenta Lara.

“É preciso ter uma postura de muito respeito e acessibilidade. Todos querem estar perto da rainha, e ela precisa ser de fácil acesso. Em muitos momentos a Rainha será a identidade da escola, por isso ter um posicionamento coerente com valores democráticos e voltados para manutenção da dignidade da mulher, especialmente a carnavalesca/sambista/passista, que tem seus corpos expostos ao defender a cultura do carnaval, é indispensável. E acima de tudo, sorriso no rosto… é o que esperam de uma Rainha. Para representar bem a Deixa Falar precisa da altivez de não desejar o mal aos oponentes e superar todos os dias desafios com amor pelo que faz, porque essa é a ideologia da escola”, reforça Rebecca.

Da tradição a juventude

Rosenilda Riquelme – Passista veterana da Escola Cinderela Tradição, do José Abraão – Foto: Divulgação

Passista veterana da Gres Cinderela Tradição do José Abrão e hoje musa da escola, Rosenilda Riquelme começou na escola por meio de um convite, e contabiliza 23 anos desfilando pela Cinderela. “Amo o que faço, lá é tudo de bom. É um amor que nem sei explicar para vocês e não pretendo sair tão cedo. Foi paixão a primeira vista”.

Com anos nos desfiles, ser uma passista veterana para Rosenilda é um cargo levado com responsabilidade e amor. “Ser passista veterana, é uma coisa maravilhosa. Eu sou a passista mais antiga da escola e depois me tornei musa. Foi algo incrível. Eu nem sei expressar direito como é hoje ser musa da escola da Cinderela. Eu comecei como passista e, com o tempo, conquistei esse espaço. Hoje sou uma musa que ainda se emociona ao falar disso. Fiquei conhecida em vários lugares por onde passo. As pessoas dizem: ‘Olha lá, chegou a musa, chegou a passista!’. Eu me orgulho muito de ser a passista mais antiga e também de ter me tornado musa. É uma trajetória que carrego com muito carinho”, recorda.

Em contrapartida, a mais nova dessa reportagem é Ana Clara dos Santos Basílio, de 16 anos. Passista desde os cinco aninhos, Ana representa este ano o Grêmio Recreativo Os Catedráticos do Samba.

“Desde pequena, minha família já estava inserida no mundo do carnaval. Eu sempre via as mulheres dançando e me inspirei nelas. Essa influência me fez começar a dançar e a paixão pelo samba só cresceu ao longo dos anos!”, relatou ao jornal O Estado.

Hoje com 16 anos, ela já começa a ver as mudanças dos anos presentes em um pavilhão de escola de samba. “Desde os meus primeiros desfiles, aprendi a me soltar mais e a sentir a música de forma intensa. Minha técnica melhorou, mas o mais importante é que agora consigo transmitir a emoção do samba e me conectar com o público de maneira mais profunda”.

Mesmo com trajetórias diferentes, com Rosenilda a anos e Ana Clara começando, as duas reforçam que ser passista é um trabalho que precisa ser feito com orgulho e paixão, para conseguir transmitir esses mesmos sentimentos tanto para a escola quanto para a comunidade.

Rebecca D’Albinie-Rainha De Bateria Deixa Falar – Foto: Divulgação

“Para ser passista, você precisa amar em primeiro lugar. Amar muito o que faz, para dar orgulho e representar bem. As meninas que querem ser passistas hoje precisam lutar pelo seu objetivo, fazer coisas bonitas, se dedicar de verdade, não só ir aos ensaios, mas trabalhar por aquilo que desejam. Não é fácil, o caminho é difícil, mas no final dá tudo certo”, disse Rosenilda.

“O samba é uma paixão que me traz alegria e união, representando minha identidade e me ensinando a valorizar a cultura. Uma grande inspiração para mim é a música da Alcione, ‘Não Deixa o Samba Morrer’, que me lembra da importância de preservar essa arte. Para as crianças e adolescentes que sonham em desfilar, eu diria que sigam seus sonhos com dedicação e amor. O samba é um caminho que traz muitas oportunidades e amizades!”, reforça Ana.

“Quando você entra na avenida, dança, interage com o público, faz amigos… é algo divino. Ser passista é divino. Eu amo, amo mesmo. Inclusive, também sou passista de outra escola, da Igrejinha. É um orgulho enorme. Se eu pudesse aconselhar as meninas que estão começando agora, diria para nunca desistirem, nunca pararem de ser passistas maravilhosas e sempre lutarem pelo que gostam e pelo que amam. É isso”, finaliza a passista e musa.

 

Por Carolina Rampi

 

 

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