Da amarelinha ao quebra-cabeça, até mesmo as histórias contadas pela avó; tudo pode se tornar uma oportunidade de aprender a ler e escrever. Em uma era em que as infâncias estão cada vez mais atravessadas por telas e estímulos digitais, o projeto ‘ABC do Brincar: Juntos pela Alfabetização’ propõe recuperar o espaço das brincadeiras tradicionais como ferramentas de aprendizagem, convivência e afeto entre gerações.
Segundo Rafael Gloria, diretor executivo da Associação Cultural Nonada Jornalismo, organização idealizadora do projeto, trazer de volta brincadeiras ‘de antigamente’ que conversem com a alfabetização é um dos principais objetivos.
“Vivemos em um mundo muito digital, marcado pela dispersão da atenção. Nesse contexto, resgatar brincadeiras lúdicas que envolvam o corpo, o movimento e a interação física é uma estratégia potente para contribuir com a alfabetização e com o desenvolvimento integral”, disse.
Nossa organização trabalha com questões sociais a partir do viés da cultura, e uma das aproximações mais naturais e necessárias nessa intersecção é a relação entre cultura e educação, especialmente quando nos referimos às culturas populares”, explicou Thaís Seganfredo, editora do Nonada Jornalismo e coordenadora-geral do projeto.
“O brincar faz parte dessa multiplicidade de culturas populares que existem no Brasil, e os brinquedos e brincadeiras que vivenciamos na infância nos ensinam muito sobre novas formas de viver o mundo, contribuindo para o desenvolvimento cognitivo das crianças. Criamos o ABC do Brincar para que as crianças possam descobrir como aprender também pode ser muito divertido”, complementa.
Mão na massa
Entre os dias 22 e 26 de setembro, a Escola Municipal Leire Pimentel de Carvalho Corrêa, no Jardim Colibri, região sul de Campo Grande, recebe a ‘Semana do Brincar’, que busca estreitar os vínculos entre professores, pais e alunos, para fazer com que a experiência do brincar ultrapasse os muros da escola e chegue aos lares.
Para isso, 100 famílias receberão kits educativos, com material pedagógico e uma publicação infantil que resgata brincadeiras de outras gerações, de um tempo em que a diversão acontecia longe das telas. A escola também ganhará um cantinho do brincar com brinquedos pedagógicos, para que as atividades tenham continuidade após o encerramento do projeto. Ao todo, o projeto prevê impactar e formar 300 pessoas.
Na manhã de sábado, 26 de setembro, a escola receberá crianças, familiares, professores e integrantes da comunidade escolar para um período dedicado ao brincar. O momento será marcado pelo lançamento e entrega do livro “O Baú de Brincadeiras da Vó Elza”, publicação inédita que reúne brincadeiras infantis presentes no Mato Grosso do Sul.
A publicação traz a história de Nina, uma menina que encontra um pião no baú da avó, Elza. A partir das lembranças da idosa, ela descobre como as gerações passadas se divertiam em território pantaneiro. A narrativa costura infância e memória afetiva, fazendo da obra uma ponte entre gerações.
“No primeiro semestre, realizamos uma pesquisa com a comunidade escolar e coletamos depoimentos sobre as brincadeiras de infância. A partir dessas memórias, mapeamos atividades que integram a publicação, desde amarelinha, pega-pega e queimada até brincadeiras regionais, como o Bozó, as bonecas de sabugo de milho e o jogo de taco, também conhecido como bets. Essas lembranças foram fundamentais para construir o livro e a história de Vó Elza e sua neta, Nina, que descobre de forma lúdica como eram as brincadeiras de outras gerações”, detalha Rafael Gloria.
Essa escuta surpreendeu Thais, que identificou que o brincar, na maioria das vezes, aparece atrelado a atividades ao ar livre. “Brincar sob o luar, na pracinha, subir em árvore, foram muitas imagens citadas e que hoje em dia são menos comuns. São memórias que geraram nostalgia e que mostram como o brincar é fundamental também no desenvolvimento emocional das crianças”.
Das telas para a vida real
A programação também contará com apresentações culturais do grupo Batucando Histórias e do Batuque Banda, em um espetáculo interativo que mistura cantigas de roda, brincadeiras tradicionais, folclore e muito humor.
Ao reunir crianças, famílias e educadores, o projeto também realiza uma série de formações voltadas para a alfabetização lúdica. Por cinco dias, as famílias participarão de uma oficina sobre desenvolvimento infantil, aprendizagem e fortalecimento de vínculos socioafetivos. Em paralelo, as crianças também recebem formação com arte-educadores que irão desenvolver jogos e atividades lúdicas que unem o brincar ao processo de alfabetização.
A psicóloga e especialista em psicopedagogia Pietra Garcia, que conduzirá a formação dos familiares durante a programação, destaca que brincar também é uma forma de desenvolver habilidades essenciais para a vida. “Brincadeiras de faz-de-conta treinam a memória, a tomada de decisão e a flexibilidade cognitiva, que sustentam a interpretação de textos. Jogos como a amarelinha ajudam no reconhecimento de sequências numéricas. O dominó e o jogo da memória exigem raciocínio lógico e atenção, fundamentais para a matemática. O gosto por desafios despertado na infância é, muitas vezes, o ponto de partida para o interesse por carreiras em Ciência e Tecnologia”, afirma.
Em um cenário em que crianças têm cada vez mais contato com telas, um dos desafios — e motivações — do projeto foi apresentar o brincar tradicional como uma experiência interessante e significativa para a nova geração.
“Os brinquedos ajudam muito as crianças no processo de descobrimento, descobrir novas formas, texturas, ultrapassar os desafios que eles oferecem, por exemplo, aprender a jogar um ioiô ou contar dadinhos no bozó. São todas experiências que não podem ser replicadas nas telas. Nas telas vamos ter outros aprendizados, que também são importantes, mas não podem ser os únicos”, disse Thais.
A rotina do dia a dia também foi considerada durante a elaboração do projeto, que entende que é preciso retirar um tempo para usufruir da cultura e da arte.
“Cultura é fundamental, alimenta a alma e amplia os horizontes, e pode contribuir tanto com o trabalho dos educadores como com as relações das crianças com seus familiares em casa. E o ABC do Brincar busca contribuir um pouco com isso, ou seja, construir com as crianças, pais e professores esses momentos de aprendizagem aliada à cultura.
O projeto “ABC do Brincar – Juntos pela Alfabetização” é realizado pela Associação Cultural Nonada Jornalismo, com patrocínio da Coca-Cola FEMSA Brasil, por meio da Lei Rouanet, coordenação geral da Associação Nonada Jornalismo, produção executiva da Amora Produções Culturais e apoio da Prefeitura de Campo Grande, por meio da Secretaria Municipal de Educação. Outras informações do projeto: acesse o Instagram (@nonadalab).
Por Carolina Rampi