Poesia como resistência é cerne do livro pioneiro e organizado por indígena

Adélia Prado/Marcelo Rubens Paiva/Aaron Salles Torres - Foto: Reprodução/Arquivo Pessoal
Adélia Prado/Marcelo Rubens Paiva/Aaron Salles Torres - Foto: Reprodução/Arquivo Pessoal

‘Treze Mulheres Contemporâneas, Treze Mulheres Cada’ será lançado nesta quinta-feira com sessão de autógrafos

Considerada a maior poeta brasileira viva, a escritora Adélia Prado divide as páginas de ‘Treze Mulheres Contemporâneas, Treze Poemas Cada’ com outras doze vozes atuais, entre indígenas, negras, árabes, judias e ciganas, de diferentes regiões e gerações do Brasil. Editado pelo sul-mato-grossense Aaron Salles Torres e organizado pela poeta e educadora indígena Márcia Mura, o livro traz um marco histórico: é a primeira vez que uma antologia de poesia feminista brasileira é organizada por uma mulher indígena. A obra será lançada pela Georgois Livros nesta quinta-feira (5), no Café Doce Lembrança, em Campo Grande, às 19h.

Além de diretor e produtor, Aaron é editor da Georgois Livros. Para ele, jogar luz a obras de mulheres é papel essencial para o combate à violência e resistência. “Durante o período recente de nossa história, as mulheres sofreram abusos que eu jamais poderia ter imaginado que testemunharia”,

Após apresentar a ideia de “poemas que representem a realidade da mulher brasileira contemporânea”, ele convidou Márcia para organizar a obra. “Já passava da hora de uma antologia de poesia feminista ser organizada por uma mulher indígena no Brasil.”

Coragem de não aceitar as imposições da sociedade foi a ponte que juntou as poetas, segundo Márcia. “O que interliga essas poetas é a própria condição humana e as formas de desumanização. Vi nas poesias a violência denunciada, a dor, a revolta e a força para seguir em frente”, afirma. Para ela, as vozes indígenas, dos seringais, judias, lésbicas, trans e negras trazem a memória das que vieram antes como força. “Apesar de toda a colonização, do patriarcado e do capitalismo, não nos venceram. Estamos vencendo.”

Ao lado de Adélia, a seleção reúne Gleycielli Nonato Guató, Val Souza, Érica Zíngano, Tânia Rego, Dalva Agne Lynch, Layla de Guadalupe, Flora Thomé, Paula Máiran, Lama, Kimani, Sara Kali e Renata Machado Tupinambá. Juntas, representam diferentes gerações (nasceram entre 1930 e 2002), regiões e identidades.

O livro Dissecado de Aaron Salles Torres tem o prefácipo de Marcelo Rubens Paiva, autor de Ainda Estou Aqui e Feliz Ano Velho – Foto: Divulgação

Concepção

A pesquisa de seleção levou mais de um ano. O critério de Aaron foi buscar poetisas que evolucionassem os conceitos e as formas do Modernismo e que demonstrassem, por meio de seu trabalho, compreender a necessidade de o movimento identitário ser sempre atrelado à luta de classes.

O resultado é uma obra que dialoga com a diversidade sem perder de vista a batalha coletiva. “Os grupos de identidade, de outra forma, estão cada vez mais focados nas diferenças. Quanto mais isolados, mais fracas as nossas vozes”, afirma Aaron.

“Esperamos que os leitores de ‘Treze Mulheres’ levem consigo emancipação intelectual — e que isso resulte na tão desejada emancipação laboral do trabalhador brasileiro em termos práticos”, complementa a poeta Layla de Guadalupe.

Sobre a organizadora: Márcia Mura é educadora, pesquisadora, escritora e doutora em História Social pela USP (Universidade de São Paulo). Nascida em Porto Velho (RO), pratica a pedagogia da afirmação indígena a partir das vivências no território. É autora de “O Espaço Lembrado” (2013), “O Curumim do Rio do Machado” (2021) e “Tecendo Fios de Memórias Mura” (2022). Faz parte das coletâneas “As 29 Poetas Hoje” (2021) e “Originárias” (2023).

“Dissecado” expõe o luto de um pai em sociedade que não permite perdão

Além de ‘Treze Mulheres’, a quinta-feira também será marcada pelo lançamento da segunda edição de ‘Dissecado’, romance do próprio Aaron Salles Torres, com prefácio de Marcelo Rubens Paiva, que aborda as dores do machismo estrutural.

A narrativa acompanha um pai que esquece o filho com deficiência no carro e as consequências que se desdobram a partir desse momento fatal. “Tanto o protagonista quanto todos os que o circulam quanto o narrador passam a ser não confiáveis, pois são homens sem hombridade e o narrador é influenciável”, pontua o autor.

Marcelo Rubens Paiva, autor de “Ainda Estou Aqui”, assina o prefácio da obra. No texto, ele define “Dissecado” como um retrato do “mundo cão”. “Marcelo leu ‘Dissecado’ em poucas horas e foi muito efusivo em seus comentários. Quando escreveu o prefácio, colocou o dedo na ferida sobre as questões sociais que o livro retrata”, celebra Aaron.

Inspirado por notícias que inundaram os jornais brasileiros sobre pais que acidentalmente causaram a

Foto: Reprodução

morte dos próprios filhos, o autor se dedicou por três anos ao desenvolvimento da obra. “Fiquei comovido com essas histórias e me intrigou o fato de os protagonistas serem do sexo masculino. No decorrer do trabalho, fui bastante fiel à minha inspiração inicial e me aprofundei psicologicamente nesse universo masculino, que é profundamente encharcado de machismo.”

A radicalidade da estrutura narrativa se estende à própria linguagem do livro. A escrita de “Dissecado” reflete essa independência: a grafia não segue o Acordo Ortográfico de 1990. “É uma trapalhada que faz um desserviço à nossa língua. A população brasileira não lê por diversos motivos culturais, mas também porque não sabe ler. Esses acordos ortográficos apenas excluem ainda mais os cidadãos que tentam se orientar pela relação entre grafia e sonoridade, ou grafia e sentido (raiz da palavra).”

Sobre o autor: Natural de Três Lagoas (MS), Aaron Salles Torres formou-se na School of the Art Institute of Chicago (Belas Artes do Cinema) e fez MBA em Comunicações Integradas de Marketing pela Loyola University Chicago. É diretor, roteirista, escritor e letrista. Dirigiu o sitcom “Vai que Cola” e os longas-metragens “Quando o Galo Cantar pela Terceira Vez Renegarás tua Mãe” (2017) e “Nunca te Prometi um Mar de Rosas” (2026). Em 2022, fundou a Georgois Livros. É autor de “Inferno & Danação” (2022), “Dissecado” (2026) e “Debruçou-se” (2009).

Serviço: O lançamento do livro ‘Treze Mulheres Contemporâneas: Treze Poemas Cada’ e ‘Dissecado’, será nesta quinta-feira (5), às 19h, na Cafeteria Doce Lembrança (Rua Dom Aquino, 2055, Centro). O evento ainda trará roda de conversa, debate com a psicanalista Gleda Brandão Araújo e o jornalista Rafael Belo, e sessão de autógrafos com Aaron Salles Torres e Gleycielli Nonato Guató.

 

Por Carolina Rampi

 

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