Multiartista de 63 anos estava internado em um hospital de Aquidauana
Artistas e produtores culturais de Mato Grosso do Sul comentaram nesta terça-feira (15) sobre a morte do multiartista Jorge Barros de Oliveira, de 63 anos, que estava internado em um hospital de Aquidauana, após um acidente em casa. Jorge era cadeirante, quadro desenvolvido devido à poliomielite, e também teria apresentado comprometimento nos rins durante a internação.
A FCMS (Fundaçãod e Cultura de Mato Grosso do Sul) emitiu nota oficial, lamentando o falecimento do artista, que possui trajetória marcante na cultura do Estado, com mais de quatro décadas dedicadas às artes, tendo transitado pelo teatro, teatro de bonecos, artesanato e arte-educação.
Jorge também foi integrante do Grupo Ipurã, além de ter participado de importantes montagens da cena teatral de MS, sendo o primeiro ator a interpretar o poeta Manoel de Barros.
“Seu trabalho também se destacou pela criação de bonecos, esculturas e adereços inspirados nas paisagens, tradições e identidades de Mato Grosso do Sul, além da atuação na formação de novos artistas por meio de oficinas realizadas ao longo de sua carreira”, destacou a fundação.
O órgão ainda manifestou solidariedade aos familiares, amigos, alunos, colegas e toda a comunidade cultural. O velório foi realizado nesta terça-feira (15), no Parque Monte das Oliveiras.
Cena em lutoColegas de profissão e de lutas lamentaram a partida de Jorge. O ator e diretor Filipi Silveira recordou com carinho o convívio e a cumplicidade nas mobilizações do setor ao longo dos anos. “Sempre gentil quando nos encontrávamos e nas trocas de ideias, eu sempre brincava com seus bonecos. Quando soube de sua partida, me lembrei de uma pasta com fotos que fiz de um manifesto cultural anos atrás. Lá estávamos nós… na luta pela cultura”, pontuou o diretor, ao prestar homenagem ao veterano da arte sul-mato-grossense.
Amigo de longa data, o jornalista, escritor e produtor cultural Bosco Martins relembrou a convivência com o multiartista desde os anos 1990, quando se conheceram no clássico Bar do Português, em Campo Grande, entre encontros que reuniam poesia, música e os primeiros trabalhos de Jorge com fantoches e artesanato.
A conexão de Jorge com a cultura local se fortaleceu no distrito de Piraputanga, onde o artista fixou residência e continuou sua produção criativa em meio a rodas de conversa e declamações do poeta Manoel de Barros. “Jorge partiu aos 63 anos. Seu último endereço foi Piraputanga. Mas Jorge nunca coube num endereço. Morava na arte, na poesia, nos causos, nos bonecos, nas fogueiras e nas amizades”, homenageou Bosco, destacando que as sequelas da poliomielite contraída na infância jamais limitaram sua força criativa.
No distrito de Aquidauana, a atuação do artista também deixou um marco físico e institucional ao revitalizar um antigo bolicho de mais de 80 anos, transformado por ele no Espaço Cultural Raiz. Bosco Martins ressaltou que, entre os projetos iniciados pelo amigo, ficou um apelo em favor da memória do local: “Partiu deixando sonhos realizados e outros pelo caminho, como o desejo de ver o Espaço Raiz reconhecido como Patrimônio Histórico e Cultural. Talvez os artistas nunca partam completamente. Ficam escondidos nas coisas que criaram e nas pessoas que tocaram”, concluiu.
Em postagem nas redes sociais, a artista plástica Miska Thomé expressou publicamente seu pesar e destacou o caráter espiritual do legado criativo do amigo, com quem dividiu o cenário cultural sul-mato-grossense.
“Não tenho maiores informações, mas a todos os artistas, amigos e familiares, meus sentimentos. Que o Jorge faça uma passagem tranquila e que logo possa continuar suas criações no plano espiritual”, declarou a artista.
A artista Lu Bigatão ressaltou o caráter libertário e combativo de sua obra. “Salve Jorge… Vai em paz, guerreiro… Foram lindos nossos momentos juntos… Você fez uma bela trajetória, cheia de luta, resistência, poesia, teatro, bonecos e bons amigos”, registrou.
O músico Guga Borba prestou condolências, destacando a dimensão humana do artista. A produtora e artista Rosiney Bigattão recordou que, mesmo nos últimos anos de vida, Jorge continuava projetando novos espaços de difusão artística no interior do Estado.“Que triste! Sempre tão cheio de planos e vontades para realizar e fazer acontecer na arte. Em nosso último encontro, em Piraputanga, contou dos planos de um teatro de arena ali e tantas outras ideias. Siga em paz, que seja bem acolhido”, pontuou Rosiney.
Também pelas redes sociais, a produtora e gestora cultural Caroline Garcia relembrou os momentos de celebração, a constante busca por avanços na cena artística e o exemplo de resiliência deixado por Jorge.
“Quantos momentos, de alegria, de festa e de luta… Meu amigo Jorge, me perdoa por não ter conseguido ser mais e fazer mais… Fiz o quanto pude, e não deu tempo. A vida passa ligeiro, foram tantas emoções e seu legado de força, otimismo, autonomia e superação não será esquecido. Foi massa, amigo! Vai em paz”, pontuou Caroline.
A ligação com Jorge de Barros também vinha de memórias da juventude e do início do movimento teatral no Estado. O bonequeiro Wilson Motta recordou que conheceu o artista ainda na adolescência, convivendo entre a Fazenda Jaraguá e a cidade de Terenos, antes de iniciarem juntos a trajetória no palco.
“A gente começou a fazer teatro amador juntos no Grupo Ipurã. Mais tarde, quando tínhamos vinte e poucos anos, ele me chamou para montar um espetáculo e entrar de vez na área”, relembrou Wilson. A parceria rendeu montagens históricas como A Caixa Mágica de Joãozinho Pimenta Verde e a sátira Canal 51.
Para o bonequeiro, a convivência de décadas com Jorge extrapolava a atuação, a cenografia e a direção. “Fizemos vários trabalhos, tanto de boneco como de ator e cenografia. O Jorge sempre esteve envolvido com movimentos e protestos, gostava muito e tomava a frente com o pessoal”, concluiu.
Por Carolina Rampi