Antes de transformar folhas, penas e pétalas em suportes para o bordado, Alan Vilar já observava a natureza como matéria de criação. Na infância, vivida em um sítio, desenhava no chão com galhos, reproduzindo vacas, cavalos e outros elementos que faziam parte da paisagem. O contato com lápis e papel só veio na escola, onde os cadernos rapidamente passaram a ser preenchidos por desenhos.
“Eu sempre desenhei e pintei desde muito pequeno, sempre fui uma criança muito curiosa. Como eu morava no sítio, não tinha muito contato com os materiais. Eu lembro que ficava desenhando no chão, com galho mesmo, olhando os animais que estavam próximos de mim”, conta.
A habilidade ganhou novas dimensões durante a vida escolar. Alan foi um dos alunos indicados pela escola para uma avaliação de altas habilidades e passou cerca de três meses nesse processo. Depois, passou a frequentar o NAS (Núcleo de Atividades de Altas Habilidades/Superdotação), atualmente CEA, localizado no bairro Amambai, em Campo Grande. O espaço reúne estudantes interessados em diferentes campos do conhecimento e hoje atende alunos das redes estadual, municipal e particular.
No núcleo, Alan desenvolveu as artes visuais, mas também experimentou teatro e biologia evolutiva. Mais do que ampliar interesses, encontrou um ambiente em que podia conviver com pessoas que compartilhavam algumas de suas curiosidades.
“Eu me sentia um pouco diferente da minha família, dos meus primos. E ali eu tinha pessoas com quem dava para conversar, pessoas com alguns interesses em comum. Foi muito interessante porque eu me identifiquei bastante”, afirma.

Caminhos
A formação acadêmica seguiu por outro caminho. Alan cursou Engenharia Civil até o último semestre, enquanto mantinha a produção artística, participava de exposições e dava aulas de desenho e pintura. A dificuldade de conciliar as duas áreas, porém, levou-o a repensar a trajetória. Depois de realizar o Enem, conseguiu bolsa integral para Arte na universidade federal e para Design no CDB. Escolheu Design por considerar que a área poderia trazer novos desafios.
“Eu percebi que seria infeliz se me formasse como engenheiro civil. Eu sabia que seria uma grande dificuldade conciliar as duas áreas”, explica.
Foi durante a graduação em Design, em 2020, no período da pandemia, que o bordado entrou em sua produção. Até então, Alan trabalhava com papel e tela. Sem experiência anterior na técnica, começou com fio de overloque da avó e uma agulha improvisada. Primeiro, testou o bordado em tecido. Depois, um furo feito pelo cachorro em uma camiseta abriu outra possibilidade.
“Eu tinha aprendido a fazer umas flores e umas folhinhas. Aí fiz essas flores e essas folhinhas para tampar o furinho que meu cachorro fez nessa camiseta que eu gostava muito”, lembra.
A experiência levou às folhas e, depois, às folhas esqueletizadas, cujo processo retira a clorofila e preserva as nervuras. Aos poucos, Alan passou a explorar volume e movimento. Uma arara com asa móvel foi uma das experiências que ampliaram a pesquisa para outras superfícies, como penas, pétalas e favos.
“Eu comecei a pensar: se consigo fazer movimento, se consigo bordar em pena, em favo, em pétala, quais outras superfícies eu posso experimentar?”, relata.
O método foi essencialmente autodidata. Só depois de meses de experimentação Alan descobriu que a técnica utilizada se aproximava da pintura de agulha, modalidade de bordado conhecida pela construção de imagens realistas.

Pausa
A trajetória recente também foi atravessada por um episódio violento. Em novembro, faltando cerca de uma semana para uma viagem, Alan teve a casa invadida e foi atacado com um facão. Ao tentar se defender, sofreu um corte profundo na mão, precisou passar por cirurgia e levou cerca de 40 pontos.
“Eu levei minha mão para me defender e isso ocasionou uma lesão, um corte. Fiz uma cirurgia, levei 40 pontos. Fiquei sem movimento e sem sensibilidade por algumas semanas”, relata.
A recuperação envolveu fisioterapia e terapia ocupacional. Mesmo antes de recuperar completamente os movimentos, ele retomou o bordado gradualmente entre março e abril, enquanto reorganizava os planos de viagens e oficinas.
“Logo que saí do hospital, já fui fazer fisioterapia e terapia ocupacional. É uma recuperação longa, demorada, mas ali por março, abril, já estava voltando a bordar aos pouquinhos”, conta.
Hoje, Alan afirma ter recuperado cerca de 90% da mão. A sensibilidade voltou quase completamente, embora ainda existam áreas com menor percepção, aderências e marcas da cicatriz.
“Minha mão já está 90% recuperada. Já voltei à sensibilidade quase total. Ainda tenho um pouco de aderência da cicatriz. Não recuperei 100%, talvez não recupere, mas o que eu recuperei já me permite trabalhar”, afirma.

Expansão
O bordado, que começou durante a pandemia, tornou-se hoje o centro da atividade profissional de Alan. Ele trabalha com oficinas presenciais, materiais de ensino lançados pela Hotmart, peças por encomenda e produtos desenvolvidos especificamente para o bordado em superfícies naturais.
Em 2022, quando finalizava o Design, recebeu um convite do Sesc Avenida Paulista, em São Paulo, para ministrar uma oficina. A partir dali, estruturou materiais teóricos e passou a ensinar regularmente a técnica. No mesmo período, começou a desenvolver um bastidor próprio para folhas, já que os modelos tradicionais eram destinados ao tecido.
“Foi usando um pouco da Engenharia e do Design para criar essas ferramentas, mas também para desenvolver os materiais de ensino. As apostilas, por exemplo, sou eu que fotografo, diagramo e monto”, explica.
A combinação entre diferentes áreas também aparece na maneira como Alan apresenta o trabalho. Nas oficinas, o bordado é acompanhado por informações sobre coleta e preparação das folhas, aproximando os participantes da flora e da fauna representadas nas peças.
“É muito bonito ver a transformação no olhar das pessoas em relação à natureza, tanto para a nossa flora como para a fauna. Nas oficinas, explico sobre todo o preparo das folhas, a coleta”, diz.
O alcance da produção cresceu junto com a pesquisa. O trabalho já ganhou espaço em matérias de repercussão nacional e chegou a nomes conhecidos da cultura brasileira.
“A proporção, a dimensão que meu trabalho tomou é algo inimaginável. Já tive matérias em nível nacional, consegui chegar a artistas muito grandes e já consegui entregar uma peça para o Ney Matogrosso”, afirma.
Do desenho feito no chão do sítio ao bordado sobre folhas, Alan construiu uma pesquisa em que arte, natureza, design e engenharia se encontram. Hoje, a folha não é apenas o lugar onde a imagem aparece: suas nervuras, formas e fragilidades participam da própria construção da obra. Para acompanhar esse trabalho e conhecer as peças, oficinas e experimentações do artista, o público pode acessar @alanvilart nas redes sociais.
Gabriela Porto