‘Estado Fantasma II’: apresentação da Cia de Dança do Pantanal baseada em livro estreia hoje

Foto: Reprodução
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Corpos que rastejam, se erguem e renascem em espiral. Luz e sombra disputando o palco. É nesse território entre o visível e o invisível que a Cia de Dança do Pantanal apresenta o espetáculo ‘Estado Fantasma II’, nesta sexta-feira, dia 27 de fevereiro, às 19 horas, no Sesc Teatro Prosa, em Campo Grande–MS.

Construído a partir da leitura do livro ‘A Queda do Céu’ de Davi Kopenawa e Bruce Albert, um recorte a força ancestral dos Xapiris, e suas danças espiraladas que nos alertam sobre as travessias anunciadas nas quais já sentimos os efeitos. O céu vai cair se não acordarmos desse estado fantasma.

Intérprete e criadora do espetáculo, Aline Espirito Santo retomou sua formação no Moinho Cultural para desenvolver a obra e se inserir nela. “No Moinho aprendi a entender o processo criativo como o coração da construção de um espetáculo, é nesse espaço que nossas referências, memórias e inquietações ganham forma. É onde deixamos de apenas reproduzir e passamos a elaborar, questionar e transformar movimento em discurso. Passar por um processo criativo é, para mim, uma das experiências mais potentes da cena. É um território de risco, descoberta e amadurecimento. É ali que podemos dar luz às nossas ideias, escutar o coletivo e entender como a nossa singularidade contribui para o todo”, explica.

A pesquisa de linguagem e concepção coreografica fica por conta de Fernando Martins, que aposta em uma dança intensa e física, marcada por deslocamentos, quedas e reconstruções. A parceria com Fernando serviu de fio condutor para o processo criativo de Aline.

“Partiu do corpo em escuta: a respiração, o olhar, o apoio do calcanhar, a articulação dos joelhos, a cabeça do úmero, as danças espiraladas. Foi um mergulho nas micropercepções e nas camadas sutis do movimento. Descobri uma escuta individual, coletiva e orgânica, um estado em que o corpo responde antes mesmo de formular” relembra.

Além de ser intérprete-criadora, ela também colocou em sua execução suas próprias vivências e atravessamentos. “Minha presença em cena foi sendo construída na tensão entre fragilidade e força: um corpo que hesita, mas permanece. Busquei um estado de disponibilidade real, onde cada gesto nascesse de uma necessidade interna, e não apenas de uma marca coreográfica”.

Fotos: Reprodução

Corpo, natureza e espiritualidade

Segundo Aline, a Cia de Dança do Pantanal carrega consigo um eixo poético e político com uma relação profunda com a natureza e território onde está inserida. Nascida e criada em Corumbá, a intérprete sente cada parte do Pantanal em seu dia-a-dia. “Está na paisagem, no clima, na forma de viver e, inevitavelmente, no corpo. Essa identidade da companhia atravessa o trabalho de maneira orgânica, como algo que não se separa da criação. Em ‘Estado Fantasma’ esses elementos me atravessaram como uma convocação às ancestralidades”, disse ao Jornal O Estado.

A montagem se inspira na leitura de ‘A Queda do Céu’ e com o documentário inspirado na obra. “Trouxe meus pés para o chão e a menta para outra visão de mundo, que reconhece interdependência e reverência o que veio antes de nós”, destaca.

“Houve momentos do processo em que senti que dançar era também escutar o invisível, reconhecer forças que me atravessam e compreender que o respeito pelo outro é condição de sobrevivência coletiva. Não busquei representar algo externo ou ilustrar uma espiritualidade, mas permitir que o corpo fosse território de atravessamentos reais, um corpo em relação, em conexão e em responsabilidade com o que o cerca”, complementa.

Além disso, a conexão com o livro permitiu que Aline ampliasse sua percepção de corpo e território como local de memória. “A partir dessa inspiração, passei a compreender o gesto não apenas como forma estética, mas como manifestação de uma rede maior: histórica, espiritual e coletiva. No palco, isso se traduz em uma presença que busca densidade e escuta. Um corpo que não dança sozinho, mas que carrega camadas de tempo, de invisibilidades e de resistência. Essa influência me levou a interpretar com mais responsabilidade, entendendo que cada movimento pode ser também um ato de reverência e de posicionamento”.

‘Estado Fantasma II’ também traz ao palco a proposta ‘corpo que perdeu o sentir, mas pode renascer’, que, conforme Aline, dialoga com as experiências contemporâneas de “anestesia emocional, sensorial e política”, onde estamos rodeados de um excesso de informações e de violências simbólicas.

“Isso nos endurece, nos distância do que sentimos e do que somos. Artisticamente, acredito que o palco pode ser um espaço de reativação do sensível. O renascimento desse corpo não é ingênuo; ele passa pelo confronto com a dor, com a memória e com as próprias ausências. É um renascimento que carrega cicatrizes, mas também uma nova lucidez. Uma percepção ampliada de si e do mundo”

Momento

A trilha sonora original, também assinada por Fernando Martins, dialoga com a criação de luz de Rodrigo Silbat, criando uma atmosfera que alterna tensão e delicadeza.

“É uma criação que nos convida a despertar desse estado de anestesia em que muitas vezes vivemos. O ‘estado fantasma’ fala de um corpo que perdeu o sentir, mas que pode renascer. A dança aqui é um chamado para reencontrar nossa potência e nossa responsabilidade com a vida e com a natureza”, destaca Márcia Rolon, diretora geral do espetáculo e diretora artística do Instituto Moinho Cultural Sul-Americano.

O elenco reúne Agustin Salcedo, Aline Espírito Santo, Izabelle Paiva, Kelven Alex, Marcos Souza, Nayara Conceição, Núbia Santos, Luz Coelho e Pedro de Barros, que assumem o papel de intérpretes-criadores na construção da obra.

“Espero provocar uma espécie de desaceleração. Gostaria que saíssem com perguntas, não necessariamente com respostas. Que algo permaneça reverberando no corpo depois da experiência, que consiga reativar o sentir, abrir pequenas fissuras na pressa cotidiana e despertar um olhar mais atento para a relação entre humano e natureza, acredito que já terá cumprido parte do seu gesto. E, claro, também desejo que as pessoas reconheçam a potência artística da Cia de Dança do Pantanal: um coletivo que produz arte a partir do seu território, que transforma paisagem em linguagem, que articula pesquisa, identidade e contemporaneidade com rigor e sensibilidade”, finalizou Aline.

Serviço: O espetáculo ‘Estado Fantasma II’ será realizado nesta sexta-feira (27), às 19h, no Sesc Teatro Prosa, em Campo Grande, de forma gratuita.

 

Por Carolina Rampi

 

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