Aos 22 anos, Rebecca Borre, natural de Dourados, leva sua visão autoral da moda sul-mato-grossense para o exterior. A estilista apresenta na London Fashion Week a coleção que desenvolveu para seu trabalho de conclusão de curso, intitulada “Do Secreto ao Florescer”, inspirada em elementos da flora brasileira, como o pau-brasil e o capim-dourado. Além disso,a estilista irá participar de um projeto internacional voltado à moda inclusiva, consolidando sua trajetória em um cenário global.
O ponto de partida dessa trajetória foi o trabalho de conclusão de curso, inspirado na planta do Pau-Brasil, desenvolvido durante a graduação em Moda na Universidade do Estado de Santa Catarina. Criada no ambiente do ensino público, a coleção foi construída a partir de um processo aprofundado de investigação, experimentação e amadurecimento criativo.
A consolidação do projeto ocorreu com a apresentação em um desfile de formatura que funciona como vitrine para novos designers e integra uma iniciativa universitária dedicada ao estudo de tendências, cultura e comportamento contemporâneo. Nesse espaço, os trabalhos apresentados refletem a aplicação prática de um percurso acadêmico consistente.
Após essa estreia, a coleção ultrapassou os limites da universidade e passou a circular em outros contextos, abrindo portas para o mercado internacional. O percurso evidencia o papel da universidade pública como agente formador e produtor de cultura, além de destacar a importância da orientação docente e do suporte institucional para a realização de projetos criativos de alcance global.
Construção visual
A coleção de Rebecca Borre se constrói a partir de referências simbólicas que atravessam natureza, espiritualidade e tempo, articulando moda e narrativa visual. O pau-brasil, o texto bíblico de Eclesiastes 3 e a noção de processo orientam a concepção das peças, que traduzem essas ideias por meio de cores, estruturas e técnicas artesanais.
“A flor do pau-brasil foi o ponto de partida visual da coleção. Ela tem quatro pétalas amarelas e uma vermelha, e isso definiu toda a paleta cromática. O dourado aparece como base, enquanto o vermelho surge como contraste, trazendo profundidade e identidade para os looks”, explica a estilista.
Dividida em três composições, a coleção apresenta diferentes estágios de um mesmo ciclo, em diálogo direto com a ideia de que há um tempo certo para cada fase. As modelagens variam entre estruturas rígidas, formas em abertura e peças mais leves e fluidas, acompanhando o percurso simbólico da semente ao florescimento.
“O primeiro look fala do tempo de criar raiz, algo mais fechado e contido. O segundo é transição, quando o broto começa a surgir. Já o último representa o florescer, com movimento, brilho e leveza. O capim-dourado aparece como material e como símbolo, reforçando a conexão com o artesanato brasileiro e com a ideia de permanência”, afirma.
Moda Inclusiva
O projeto desenvolvido por Rebecca também foi selecionado para uma iniciativa internacional em Londres, voltada à moda inclusiva, ampliando o alcance conceitual da coleção e incorporando questões de acessibilidade ao processo criativo. A participação marca um novo momento da trajetória da estilista, que passa a dialogar com outras formas de pensar o vestir.
“Trabalhar com moda inclusiva exige escuta e responsabilidade. É preciso repensar desde a modelagem até a relação da roupa com o corpo, entendendo que cada pessoa vivencia o vestir de uma maneira diferente”, afirma a criadora.
No desenvolvimento e na adaptação das peças, aspectos como conforto, funcionalidade e autonomia ganham centralidade, deslocando o foco exclusivo da estética. A inclusão passa a ser tratada como parte estrutural do projeto, integrada às decisões criativas desde as etapas iniciais.
“Essa experiência amplia meu olhar técnico e conceitual. Criar pensando em acessibilidade me desafia a trabalhar com mais consciência e reforça a moda como um espaço possível de acolhimento, cuidado e representatividade”, completa.
MS mundo afora
A relação de Rebecca com o Mato Grosso do Sul aparece como eixo formador de sua identidade criativa. Nascida e criada em Dourados, a estilista traz para a coleção uma percepção de brasilidade construída a partir da convivência com a natureza, do ritmo do tempo e das transformações constantes da paisagem sul-mato-grossense.
“Crescer em Dourados me ensinou a observar o tempo com mais atenção. Estar cercada pela natureza faz a gente entender que tudo passa por processos, que nada acontece de forma imediata. Essa observação influencia diretamente a forma como eu crio”, explica.
Durante o desenvolvimento do projeto, referências ligadas à flora local surgiram como ponto de partida conceitual. A ideia inicial envolvia o ciclo do ipê-amarelo, presença marcante no cotidiano da cidade, mas o amadurecimento da pesquisa levou à ampliação desse olhar, conectando a experiência local a símbolos capazes de dialogar com uma identidade nacional mais ampla.
“O pau-brasil entrou como um símbolo que representa o país como um todo, mas a essência da coleção nasce dessa vivência em Dourados, do hábito de contemplar, de viver o tempo com mais calma. Isso também está na nossa cultura, no tereré, na convivência, no cuidado com o outro. É esse Brasil sensível e profundo que levo comigo”.
Apoie a moda local
Em meio à busca por patrocínios e apoios institucionais, Rebecca também aposta em uma mobilização independente para viabilizar seus próximos passos. A estilista produz e comercializa peças feitas à mão, retomando uma prática que atravessa sua trajetória pessoal e profissional e que hoje sustenta, de forma concreta, o caminho até a London Fashion Week.
“Empreender sempre fez parte da minha história. Comecei ainda criança e, em 2020, criei a minha marca de acessórios de cetim. Agora, esse trabalho ganha um novo sentido: além de ser parte de quem eu sou, ele se torna um meio real de levar meu projeto para fora do país”, explica.
A venda direta das peças, aliada ao contato próximo com o público, transforma o processo em uma construção coletiva. Cada compra, compartilhamento ou acompanhamento nas redes passa a integrar a narrativa do projeto, que é documentado desde os bastidores até a preparação da coleção que será apresentada em Londres.
“Quero que as pessoas se sintam parte dessa jornada. A moda não é só o momento da passarela, mas todo o caminho até ela. Construir isso de forma autônoma, com apoio das pessoas e da minha família, reforça para mim que florescer só é possível porque houve permanência, cuidado e dedicação”, finaliza.
Serviço: @beca_brand – Loja de acessórios de cetim produzidos artesanalmente pela artista. Os produtos estão disponíveis para compra online, com envio para todo o Brasil, pelo site www.becabrand.com.br. Em Dourados (MS), as peças também podem ser encontradas presencialmente na loja Melodia Cristã, localizada na Rua Joaquim Teixeira Alves, 1911, empreendimento da família da estilista.
Por Amanda Ferreira