Exibições começa às 19h30 na Casa de Cultura de Campo Grande
As vozes que atravessam gerações, resistem ao tempo e seguem florescendo em meio ao concreto da cidade ganham espaço nas telas nesta sexta-feira (12), às 19h30, na Casa de Cultura de Campo Grande. Com entrada gratuita, acontece a pré-estreia dos curtas-metragens “Kaguateka: Aquelas que Resistem”, dirigido por Gleycielli Nonato Guató e “A Trovadora e a Poeta”, dirigido por Marcus Teles.
Produzido em Campo Grande, o documentário acompanha trajetórias de mulheres indígenas que vivem em contexto urbano e integram o Coletivo de Mulheres Indígenas Kaguateka. A obra registra histórias marcadas pela ancestralidade, pela luta coletiva e pela preservação cultural, revelando como mulheres de diferentes povos mantêm vivas suas identidades mesmo diante dos desafios impostos pela vida na cidade.
“Kaguateka: Aquelas que Resistem” representa um marco para o audiovisual indígena contemporâneo. O filme é dirigido por Gleycielli Nonato Guató, tornando-se o primeiro filme dirigido por uma mulher Guató. A produção também reúne mulheres indígenas na construção do roteiro, na produção e nas narrativas que conduzem a obra.
“O Coletivo Kaguateka resiste nessa insistência da nossa ancestralidade dentro da cidade, dentro do contexto urbano, pela voz de mulheres. Isso é muito forte, isso é muito grande, isso é muito ancestral. Essa é a nossa cultura resistindo a cada momento através do coletivo, através da força individual de cada mulher e através agora deste documentário. Então é uma honra poder dirigir ele e poder levá-lo ao público pela primeira vez”, destaca Gleycielli.
Ao longo de aproximadamente 15 minutos, o filme acompanha histórias de mulheres que deixaram aldeias e comunidades por diferentes razões, mas que encontraram formas de fortalecer suas raízes mesmo longe de seus territórios de origem. Entre as protagonistas estão Suzie Guarani, Luana Kadiwéu, Matilde Kaiowá, Mirian Terena e a própria Gleycielli Guató.
Para a produtora e roteirista Suzie Guarani, participar da realização do documentário também foi uma oportunidade de revisitar memórias pessoais e coletivas. “A concepção desse documentário foi muito importante porque pude relembrar a história da minha mãe, Marta Guarani, conhecer ainda mais a trajetória da Matilde, da Luana Kadiwéu, da Mirian Terena e da Gleycielli. Foi muito emocionante reunir essas mulheres para contar a história de cada uma”, afirma.
Suzie lembra que alguns dos momentos mais marcantes das gravações vieram dos relatos das protagonistas. “O mais emocionante foi ouvir a Luana contar sua história, uma mulher de luto e uma mulher guerreira. Também nos emocionamos muito com a história da Matilde, lembrando todo o sofrimento vivido em sua comunidade e o caminho que percorreu até chegar à Aldeia Urbana Água Bonita. Foram momentos que nos fizeram chorar e refletir sobre a força dessas mulheres”.
Ancestralidade que floresce na cidade
A narrativa do documentário parte de uma reflexão sobre a presença indígena em Campo Grande, uma das cidades com maior população indígena em contexto urbano do país. Ao invés de apresentar a cidade como um espaço de ruptura, o filme revela como a ancestralidade continua viva e se transforma em ferramenta de resistência.
“Eu espero que o público não só compreenda a existência dessas mulheres, mas enxergue nelas a voz de uma resistência cultural. Apesar da força que o urbano tem, elas quebram as barreiras do cimento e fazem brotar as flores e as plantas de sua ancestralidade. Porque, apesar de ser uma cidade, embaixo de toda essa calçada e desse asfalto ainda corre uma terra ancestral”, reflete Gleycielli.
A diretora acredita que o filme ajuda a revelar uma força que muitas vezes permanece invisível. “Essas histórias mostram que a nossa força ancestral não é o passado, ela é o futuro. São mulheres que deixam sua ancestralidade brotar na pele, na voz, nas ações, na arte e na coletividade. Em vez de serem apagadas pela cidade, elas usam a cidade para fortalecer suas ancestralidades”.
Para Suzie, o documentário também representa um legado para as próximas gerações. “O coletivo Kaguateka está plantando uma semente. É a história das mulheres indígenas de Campo Grande e de Mato Grosso do Sul. É a semente de Marta Guarani para Suzie, de Madalena para Mirian Terena, das mães para suas filhas e para as novas gerações. Queremos deixar essa história para os jovens que vão continuar defendendo nossos direitos e fortalecendo a luta das mulheres indígenas. Essa árvore ainda vai dar muitos frutos”.
O projeto conta com recursos da PNAB (Política Nacional Aldir Blanc de Fomento à Cultura), do Governo Federal, por meio do Ministério da Cultura, com edital operacionalizado pela Prefeitura Municipal de Campo Grande, através da Fundac (Fundação Municipal de Cultura).
Serviço: A pré-estreia dos curtas “Kaguateka: Aquelas que Resistem” e “A Trovadora e a Poeta” será nesta sexta-feira (12), às 19h30 na Casa de Cultura, na Avenida Afonso Pena, 2270 – Centro. A entrada é gratuita.
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