Na continuidade da série de reportagens sobre as escolas de samba de Campo Grande, o Jornal O Estado traz hoje a história da escola “Deixa Falar”, uma das mais vitoriosas da Capital e campeã do último Carnaval em 2024. No dia 4 de março, as 19h, na Praça do Papa, logo após o desfile da Unidos do Cruzeiro, a escola promete agitar a avenida com sua energia contagiante e com o brilho de suas alegorias e fantasias. A entrada é gratuita!
Da Vila Santo Amaro, o Grêmio Recreativo Escola de Samba Deixa Falar é uma das mais importantes escolas de samba de Campo Grande, Mato Grosso do Sul. Fundada em 23 de abril de 2011, a escola rapidamente se firmou como uma das grandes potências do carnaval local. Com as cores verde, vermelho e branco, e o tigre como símbolo, a Deixa Falar já conquistou seis títulos pelo grupo especial: 2014, 2018, 2020, 2022, 2023, 2024.
Para o carnaval deste ano, a Escola de Samba Deixa Falar traz um samba-enredo que celebra a Ancestralidade, intitulado “Anauê Tupã”, que homenageia a criação dos céus e da terra, simbolizada pelo Senhor do Trovão. Com um tema que resgata as raízes culturais e históricas, o enredo nos convida a caminhar em busca de nossas origens.
Por meio de versos que evocam a força da natureza e os mistérios da floresta, a escola traz à avenida a resistência e os saberes dos povos originais. O samba enredo revela a mistura das culturas afro-indígenas, com referências à Mãe África e aos povos nativos, destacando a luta pela liberdade e o resgate de uma história muitas vezes esquecida. Com o ritmo dos tambores e a velocidade das flechas, a Deixa Falar promete emocionar os foliões e celebrar a riqueza cultural da ancestralidade.
Processo Criativo
A preparação para o carnaval deste ano iniciou no segundo semestre de 2024, entre os meses de junho e agosto, quando o enredo foi finalmente definido pela presidência da escola. Nesse período, a bateria oficial da agremiação, Filhos de Jorge, começam a se integrar com as demais áreas, dando início às oficinas de percussão, com o objetivo ensinar os novos integrantes a tocar e se conectar com a energia do samba.
A partir de outubro e novembro, com a chegada do samba-enredo, começa o processo de construção da apresentação, incluindo a criação das fantasias, acessórios e outros itens essenciais para o desfile. O planejamento é minucioso, com uma análise detalhada do tema e definição dos aspectos das evoluções. Em dezembro, a rotina de ensaios se intensifica, e a escola trabalha com mais empenho para dar forma ao que foi idealizado meses antes.
A Filhos de Jorge, campeã de melhor bateria do carnaval de Campo Grande, exerce uma forte influência no desenvolvimento do enredo, trabalhando de forma totalmente integrada com a temática do samba. Em entrevista à reportagem, Nayara Thomaz, mestre da bateria, explica que o som “dialoga” diretamente com o enredo, utilizando a mesma linguagem e incorporando elementos que fazem referência às tribos indígenas, à ancestralidade e às influências das religiões de matrizes africanas.
“Esses elementos são muito importantes para nós, pois acreditamos que as religiões de matrizes africanas nos protegem durante o desfile. Todo esse processo é cuidadosamente planejado e estruturado, garantindo que nossa bateria esteja 100% alinhada com o samba e o enredo, visando proporcionar a melhor apresentação possível na avenida”.
O processo de criação da bateria da Filhos de Jorge começa com a recepção do enredo, que serve de base para toda a construção musical. Juntamente com seus diretores, Nayara Thomaz realiza uma pesquisa detalhada para adaptar os toques, bossas e ritmos aos elementos do tema, como tribos indígenas e orixás.
“Cada diretor, responsável por um instrumento, traz suas sugestões, que discutimos e testamos até encontrarmos a sonoridade ideal. Com a definição do som, elaboramos um cronograma de ensaios para treinar os ritmistas e garantir que o ensaio seja repetido até a perfeição para uma apresentação impecável no desfile”, explica Nayara.
Deixa eles Falarem!
Para uma escola de samba funcionar, é necessário o trabalho de muitas pessoas. Gabrielly Flores, diretora de bateria da Deixa Falar, iniciou sua trajetória ao lado da mestre Nayara Thomaz no final de 2015, mas foi no final de 2020 que ingressou oficialmente na agremiação. A mestre a convidou para integrar a bateria, e, após anos atuando como ritmista de tamborim, Gabrielly teve a honra de ser nomeada diretora do instrumento.
“A Mestre Nayara sempre foi, e continuará sendo, nosso guia nas criações de desenhos e bossas. A escola se tornou uma verdadeira família, sempre apoiando as novas propostas. A cada ano, trazemos novas danças e ritmos que marcam tanto os ritmistas quanto toda a escola, o que nos motiva a inovar constantemente, sem perder o legado da Deixa Falar”, destaca Gabrielly para a reportagem.
No início do desfile, a visão da comunidade vestida com fantasias e se divertindo nos carros alegóricos, assim como também os componentes da escola, é um momento único para quem assiste. A bateria é o coração de uma escola de samba, responsável pelo ritmo na avenida e, muitas vezes, pelos primeiros sons que ecoam ainda no recuo.
“Para este ano, podemos esperar um desfile inesquecível, repleto de surpresas. Trabalhamos intensamente no barracão da escola, e o público, no dia do desfile, verá o reflexo de todo esse trabalho. Existem pessoas que se dedicam diariamente, muitas vezes por horas a fio. É nossa responsabilidade dar o nosso melhor na avenida”, afirma.
Gabriel Issagawa, folião da Deixa Falar, iniciou sua trajetória no carnaval em 2022, quando ainda fazia parte de outra escola de samba da cidade. Com essa experiência anterior, ele já estava familiarizado com os ensaios, a confecção de fantasias e a organização de eventos, o que facilitou sua adaptação e integração à sua nova agremiação.
“Sair em ala é uma experiência única, e o coração bate ainda mais forte quando o primeiro sinal soa e a bateria começa a tocar. Ver as pessoas da cidade tendo acesso à cultura local, e conhecendo mais sobre a história de nossa cidade e do país em um único desfile é emocionante”, conta Gabriel para O Estado.
Nos preparativos para o carnaval, Gabriel está ativamente envolvido na confecção das fantasias, destacando que esse processo é tão divertido quanto o desfile em si. Ele ressalta que há algo muito especial em ver o trabalho coletivo tomando forma, além de ser uma oportunidade valiosa para aprender mais sobre a história do desfile. “É um aprendizado que você leva para a vida, como costurar e manusear materiais”, afirma Comenta.
Nayara finaliza, destacando que, além da bateria, a Deixa Falar adota um bordão que enfatiza a importância do respeito às diferenças e limitações, considerando isso o grande diferencial do grupo. Para este ano, a escola promete emocionar na avenida.
“Acredito que o que torna a bateria Filhos de Jorge única é, sem dúvida, o trabalho com pessoas 100% voluntárias, onde o respeito às diferenças é essencial. É isso que buscamos trazer para a bateria, para podermos, de alguma forma, emocionar e transmitir essa energia contagiante do samba para toda a nossa escola durante o desfile”, finaliza.
Amanda Ferreira