De Campo Grande a São Paulo, “Cabeça de Toco” leva o Centro-Oeste para o palco da MITsp

Em cena, brilham Febraro de Oliveira, Marcos Mattos, Marcus Perez e Renata Leoni  - Foto: Caio Fantasmao/divulgação
Em cena, brilham Febraro de Oliveira, Marcos Mattos, Marcus Perez e Renata Leoni - Foto: Caio Fantasmao/divulgação

Dança-instalação sul-mato-grossense explora memória, território e materialidade em uma das maiores mostras de teatro do país

 

De Campo Grande para a Capital paulista, um trabalho criado no coração do Centro-Oeste integra a programação da MITsp – Mostra Internacional de Teatro de São Paulo, realizada de 6 a 15 de março em diferentes espaços culturais de São Paulo. O espetáculo “Cabeça de Toco, Aqui Tudo É Mato” marca a presença sul-mato-grossense na mostra e amplia o debate sobre território, memória e identidade artística.

Selecionada para a plataforma Conexão Centro-Oeste, iniciativa do Itaú Cultural, a criação propõe uma experiência cênica que cruza dança, instalação e narrativa, reafirmando a produção contemporânea de Mato Grosso do Sul no circuito nacional.

Idealizado pela Arado Cultural, coletivo responsável por festivais como o Cerrado Abierto e o Dancidades, o trabalho reúne diferentes trajetórias artísticas de Campo Grande sob direção de Eduardo Fukushima.

Foto: Caio Fantasmao/Divulgação

Em cena, Febraro de Oliveira, Marcos Mattos, Marcus Perez e Renata Leoni constroem uma dramaturgia que entrelaça corpo e palavra, tendo como uma das referências poéticas a produção escultórica de Conceição dos Bugres. A montagem investiga as camadas simbólicas do Centro-Oeste brasileiro, evocando paisagens, ancestralidades e modos de vida que atravessam fronteiras culturais e geográficas.

Aqui Tudo É Mato

O elenco de “Cabeça de Toco, Aqui Tudo É Mato” contou para o Jornal O Estado que a participação na MITsp – Mostra Internacional de Teatro de São Paulo é resultado de um processo de articulação construído ao longo de anos.

Segundo os artistas, a presença na plataforma Conexão Centro-Oeste não aconteceu de forma isolada, mas integra um movimento contínuo de inscrição e circulação de trabalhos sul-mato-grossenses em editais nacionais. O grupo destacou ainda que a iniciativa do Itaú Cultural, apoiador da mostra, amplia a visibilidade de produções fora do eixo tradicional e cria oportunidades para que novas narrativas ocupem espaços de projeção nacional.

Foto: Caio Fantasmao/Divulgação

“Esse convite não surge do nada. Ele é fruto de uma insistência antiga em criar pontes entre o que produzimos no Mato Grosso do Sul e outros centros do país. Há anos enviamos nossos trabalhos para convocatórias, entendendo que não se trata de promoção individual, mas de fortalecer uma cena inteira”, contam.

Para o grupo, integrar a programação representa mais do que ocupar um palco em São Paulo; trata-se de afirmar a potência artística do Estado em um dos principais encontros das artes cênicas do país. Entre dezenas de propostas inscritas, seis foram selecionadas para compor o recorte dedicado ao Centro-Oeste. Na avaliação dos intérpretes-criadores, a escolha evidencia um momento de abertura e reconhecimento, além de reforçar a importância de políticas culturais que garantam circulação, permanência e sustentabilidade à produção sul-mato-grossense.

“Estar na MITsp significa colocar nossa pesquisa diante de novos olhares, inclusive críticos, e romper um pouco com a invisibilidade que muitas vezes marca a produção do Centro-Oeste. Quando existe um olhar curatorial atento para essas regiões, isso muda o jogo”.

Foto: Caio Fantasmao/Divulgação

MS em Cena

Ao comentar a provocação lançada pelo Itaú Cultural “quando você viu um trabalho de Mato Grosso do Sul?” O elenco de “Cabeça de Toco, Aqui Tudo É Mato” disse a reportagem que a presença em São Paulo carrega tanto responsabilidade quanto afirmação estética.

Os artistas lembram que o diálogo com a equipe curatorial vem sendo construído em diferentes encontros do setor cultural, como no MICBR (Mercado das Indústrias Criativas do Brasil), realizado em Fortaleza.
Para o grupo, ocupar um palco na capital paulista é também tensionar a lógica de visibilidade concentrada no eixo Rio–São Paulo e apresentar ao público outras referências, modos de produção e imaginários do Centro-Oeste.

“Existe uma ideia de que, por estarmos no Estado, já somos vistos aqui e isso não é verdade. Pesquisas recentes mostram que o acesso à dança ainda é limitado no próprio MS. Então, falar em representação é delicado: não é falar por todos, mas abrir uma fresta. Levar nosso trabalho para São Paulo é afirmar que produzimos arte contemporânea a partir de outras paisagens, outras matrizes e outras urgências. Essa pergunta serve para quem está fora e também para nós mesmos”, explicam o elenco.
Sobre a peça

O processo de criação de “Cabeça de Toco, Aqui Tudo É Mato” começou a tomar forma em 2022, a partir de uma residência artística realizada em Brasília, que provocava reflexões sobre dança e infância. Foi nesse contexto que surgiram os primeiros experimentos com pedaços de madeira reaproveitados de um quintal em Campo Grande, estabelecendo uma relação direta entre matéria, memória e território.

Ao longo dos anos, a pesquisa se aprofundou e ganhou novos contornos com a chegada do diretor e coreógrafo Eduardo Fukushima, que incorporou práticas corporais orientais e uma investigação de temporalidade expandida. Inspirado no universo poético de Conceição dos Bugres, o trabalho amadureceu como uma dança-instalação em que corpo e madeira ocupam o mesmo plano de importância dramatúrgica.

“O espetáculo nasceu de algo muito concreto: tocos de árvores que estavam no quintal de casa e que passaram a nos provocar artisticamente. Com o tempo, fomos entendendo que não se tratava apenas de objeto cênico, mas de presença. A preparação física é lenta, exige escuta e respiração, quase como se aprendêssemos com a própria madeira. A gente costuma dizer que os tocos já sabem o que fazer; nós é que precisamos nos colocar em estado de atenção. É um trabalho vivo, que se transforma a cada ensaio e que carrega também as memórias dos nossos quintais e das paisagens do nosso território”, afirmam.

Ao refletirem sobre as transformações provocadas pelo processo, os intérpretes destacam que a principal descoberta foi experimentar outra relação com o tempo. A criação passou a investigar uma temporalidade desacelerada, em que respirar, sustentar a presença e permitir que a cena aconteça se tornaram gestos centrais.

A tensão entre destruição ambiental e possibilidade de renascimento atravessa essa escolha estética: nada é imediato, tudo é consequência de camadas históricas e da ação humana sobre a natureza. O reaproveitamento dos materiais, como os próprios tocos e elementos cênicos mantidos desde o início da pesquisa, também reforça essa consciência ecológica e simbólica.

“Aprendemos a desacelerar e a entender que o trabalho não é sobre mostrar algo, mas sobre perceber o que está acontecendo ali, no encontro entre corpo e matéria. Cada território por onde passamos também nos transforma: novos pesos, texturas e paisagens interferem na forma como nos movemos. ‘Cabeça de Toco’ continua em processo, sempre atravessado pelo lugar onde pisa e pelas pessoas que o assistem”, finalizam.

Serviço: O espetáculo “Cabeça de Toco, Aqui Tudo É Mato” foi concebido por Renata Leoni, com direção, coreografia e trilha sonora de Eduardo Fukushima. Contou com iluminação de Hedra Rockenbach e intérpretes-criadores Febraro de Oliveira, Marcos Mattos, Marcus Perez e Renata Leoni. Design gráfico por Felipe Leoni, registros por Franciella Cavalheri e Vaca Azul, e produção de Roberta Siqueira (Arado Cultural). Acompanhe o trabalho nas redes sociais: @cabecadetoco e @aradocultural.

 

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