‘Chamas da Tradição’: Documentário relata a história de aldeia de MS e criação de brigadas para combater queimadas na região

Foto: s: Making of documentário/Kaique Andrade/Divulgação
Foto: s: Making of documentário/Kaique Andrade/Divulgação

‘Não tem povo sem terra, nem terra sem povo’. Essa é uma frase que define diversos povos indígenas no Mato Grosso do Sul e no Brasil, que perdem suas terras, sua história e suas tradições para o fogo das queimadas. É esse um dos motes que norteiam o documentário ‘Chamas da Tradição’, produzido pela jovem cineasta sul-mato-grossense Thauanny Maíra. A personagem protagonista é a aldeia indígena Mãe Terra, da etnia terena, localizada em Miranda, e que conta sua história por meio da retomada do território e da reinvenção, motivada pelo fogo das queimadas, recorrentes no Pantanal.

O documentário começa contando a história da comunidade Mãe Terra, que surge em 2005, após uma ação de retomada de um grupo de 21 famílias. Ele dá destaque para a importância do pertencimento e território para depois jogar luz nos problemas relacionados às queimadas.

“No segundo ato do filme focamos no fogo, como ele chega e acaba com tudo, deixando frágil e complicada a relação do povo com a terra, deixando mais difícil conseguir recursos”, explica a diretora.
Segundo o roteirista, Cainã Siqueira, o filme surgiu com a ideia de falar sobre os incêndios no Pantanal, mas, no processo de pesquisa, a equipe entendeu que não dava para falar sobre isso sem falar sobre como eles influenciavam nas comunidades indígenas.

“Surgiu o argumento baseado em como essas queimadas influenciavam direta e indiretamente na terra indígena Mãe Terra, no cultivo, no dia a dia, em tudo. Mas, na visita que fizemos, ficou muito claro que o fogo não era o protagonista; a Mãe Terra, com todos os seus personagens, virou a protagonista. Então, virou um filme sobre essa luta deles contra as queimadas, mas também sobre a retomada e sobre a aldeia em si”, resume.

A resposta ao fogo

O fogo foi o fio condutor para a Mãe Terra, que precisou se reinventar e criar, a partir de 2020, as brigadas voluntárias, para impedir que o fogo se alastre até a chegada do Corpo de Bombeiros e da equipe do Prevfogo (Centro Nacional de Prevenção e Combate aos Incêndios Florestais). Na comunidade, há inclusive a participação de mulheres nessas brigadas. Outra iniciativa destacada no documentário é a Escola Quintal, criada na comunidade na esperança de resgatar a cultura Terena. Semanalmente, a comunidade se reúne para praticar costumes antes perdidos ou até mesmo desconhecidos por gerações.

O processo de produção envolveu muita pesquisa, inclusive com uma visita prévia à comunidade, onde a equipe conheceu as famílias, sua culinária, músicas, tradições religiosas e anseios. A gravação foi feita em apenas dois dias, e a diretora lembra que até os desafios enfrentados compuseram o resultado final. “Em um dos dias ficou chovendo bastante, então a gente teve que se virar do jeito que dava para a chuva não estragar o áudio, para a gente conseguir gravar, não molhar os equipamentos… Mas quando você está fazendo o que ama, qualquer perrengue vira história para contar”, conta.

Thauanny Maíra assina o documentário em parceria com Cainã Siqueira, responsável pelo roteiro. Com apenas 26 anos, a jovem sul-mato-grossense, atualmente residindo em São Paulo e trabalhando como diretora, roteirista e diretora de pós-produção, dirigiu seu primeiro documentário, “A Margem é o Centro”, sobre o bairro Moreninhas, aos 20 anos. “Minha ligação com o documentário é conhecer outros pontos de vista, entender mais sobre as histórias, mas também apresentar para outras pessoas, para quebrar um pouco do estigma que elas criam sobre assuntos que não conhecem. O preconceito muitas vezes vem do desconhecimento, e trabalhos como esse ajudam a gente a entender o lado do outro”, afirma a cineasta.
Para a equipe, os maiores aprendizados durante a produção do documentário e as trocas com a comunidade foram a relação com o território, o cuidado com a natureza e a importância de perpetuar a cultura e os ensinamentos ancestrais.

“Com esse filme, a gente conseguiu entregar um resultado que não parece que fizemos com o orçamento que ele teve. Parece um filme com um orçamento gigante, mas, pelo contrário, isso tem muito da paixão que a gente colocou ali, eu, Thauanny e todos os envolvidos. Todo mundo trabalhou para que o filme acontecesse e ficasse muito mais do que ele parece ser. É um filme com histórias lindas, e estou muito feliz de ter participado”, reforçou Cainã.

Identificação e memória

Foto: Bruna Motta

O documentário já foi exibido para toda a comunidade da Aldeia Mãe Terra. Para o vice-caçique da aldeia, João Leôncio (Kambu), o documentário serve para registrar a história da comunidade para as próximas gerações.

“Para a preservação da nossa identidade, da língua, dos artesãos, da espiritualidade. Então, isso vale muito para a gente. Espero que grupos vejam e queiram apoiar esse trabalho de resgate da língua, revitalização das nascentes, recuperação das florestas para equilíbrio do meio ambiente.”

Quem também recebe o título de uma das protagonistas é Maria Dalva de Souza, artesã, parteira, médica da floresta e uma das fundadoras da aldeia. Ela esteve presente na primeira exibição do documentário e comentou que seu desejo é que a comunidade tenha mais visibilidade e ajuda.

“O filme foi muito bom, eu nunca esperava me assistir igual assisti hoje, né? Agora a gente espera também que o filme nos ajude, porque a gente precisa de parceiro aqui na retomada; não é fácil correr atrás desses 35 hectares que temos aí para reflorestar. O que nós mais queremos é parceiro que apoie a gente, que converse, traga ideia para a gente”, disse.

O documentário “Chamas da Tradição” foi financiado com recursos da Lei Complementar nº 195/2022 – Lei Paulo Gustavo, do Ministério da Cultura, por meio da Fundação de Cultura de Mato Grosso do Sul (FCMS) – Edital nº 09/2023, órgão do Governo do Estado.

“Espero fazer outras exibições, porque eu acho que é uma temática muito interessante e acho que precisa ser apresentada, principalmente em escolas e para os jovens, para a gente, desde pequeno, ir plantando essa sementinha da importância dos povos originários, da importância do cuidado da natureza, e também é uma forma de registrar a história do nosso estado. Essas pessoas fazem parte do nosso território, então a gente precisa valorizar muito a cultura indígena”, finaliza a diretora.

 

Por Carolina Rampi

 

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