Artistas se unem em exposição sobre flores, cores, preservação e biodiversidade

Foto: Reprodução
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Produção ressalta o compartilhamento de saberes e belezas do Cerrado

A primavera, que começa em setembro, traz cores, flores e a beleza da natureza. Com essa essência, a exposição ‘Florarium: Do Nativo ao Endêmico’ reúne 20 artistas de diversas modalidades e entusiastas da botânica sul-mato-grossense para um momento de contemplação de obras e compartilhamento de saberes. Totalmente gratuita, a visitação começa a partir do dia 4 de setembro, quando será realizado o evento de abertura, às 19h, na Casa de Cultura, em Campo Grande.

A mostra possui curadoria coletiva dos artistas Addi, Bejona e Lumar, que também terão suas obras expostas. O objetivo é sensibilizar e despertar um olhar atento dos visitantes para as belezas do Cerrado, Pantanal e Mata Atlântica, biomas que compõem a biodiversidade sul-mato-grossense. Para isso, a exposição traz como obra principal a representação de flores nativas e endêmicas da região, com técnica aquarelável em tecido, com obras de diversos nomes da cena cultural de MS.

Para o Jornal O Estado, Addi explicou que a escolha de quais flores nativas e endêmicas, aquelas que nascem apenas em um tipo de ambiente ou país, foi realizada, a princípio, de forma livre por cada artista.

“Os artistas participantes escolheram espécies que mais tinham conexão, mas três espécies acabaram sendo mais importantes: as endêmicas, que só são encontradas em Mato Grosso do Sul, 2 margaridas, Dimerostema Pantanalense e Aspilia Grazielae, e uma bromélia, Tillandsia Bonita. Mas outra que é nativa e que tomou conta da exposição foi o ipê, amarelo, rosa e roxo”, explicou.

Reforçando a ideia de coletividade, assim como no funcionamento da natureza, o grande tecido, manifestação principal da mostra, foi pintado por diversos artistas de diferentes estilos, como Giane Bifon, Rosane Bonamigo, Lígia Rocha, Patrícia Helney e Paloma Roma, que registram as particularidades da flora do Estado, emprestando suas visões sobre o tema.

Segundo o curador, no momento da realização da obra principal, a ideia inicial era que as técnicas e estilos de cada artista se fundissem. Porém, o resultado foi diferente do esperado, o que tornou o processo ainda mais surpreendente.

“Inicialmente, minha ideia era justamente fazer os estilos se mesclarem, o que não aconteceu, talvez pelo medo, respeito da arte do outro ou falta de direcionamento meu, mas acredito que tenha sido uma escolha pessoal de cada um, então preferi não forçar e deixar livre a proposta. Acabou tendo um resultado diferente do que imaginei, fazendo quem olha perceber ou descobrir de quem é a pintura apenas pelo estilo de pintar. Também não quis forçar isso, pois alguns artistas estão acostumados a assinarem todas suas pinturas, então algumas foram assinadas e outras não”, destacou.

A teia criativa também contou com os contornos das artistas Alice Torres, Deb Koala, Diana Morais, Gi Brandão, Jamille Rosa, Jaqueline Basso, Julia Muniz, Luana Aielo, bem como da muralista Natacha IK.

Também contribuíram para a criação do grande mural de tecido Bittrrud, D. Farias, Gabiru, Paola Roma, Renan Reis, Ruan Quevedo Rubi, Bruna Camargo, Diana Costa, Ariel Campagna, Syunoi e Henrique Silva.

Além da arte contemplativa, o evento traz a contribuição de artistas botânicos de outros estados, que trazem em suas obras o teor científico da pesquisa sobre o tema.

O espaço físico também fez parte do processo de produção. O tecido principal circulou por diferentes espaços de criação, como os ateliês de Ruan Quevedo, Addi e Lumar, responsável também pela curadoria e pelo espaço expositor, além da papelaria Arquitécnica, da sala de oficinas da Casa de Cultura e do ateliê da Plataforma Cultura. O ateliê Dindôrere, do artista e professor de Arte Ariel Campagna, que também ministra aulas para crianças, foi outro dos locais que recebeu a produção da obra.

Flora afetiva

A sensibilização para os temas que podem ser explorados a partir do ato de pensar a natureza como parte integrante do cotidiano e sua importância para a vida na Terra também passará pelo despertar dos sentidos, por meio de um vídeo mapping reativa que será exibido em sincronia com a obra do artista Nativo e do show musical com Jorge Aluvaiá, no qual serão apresentados sons e composições inéditas no espetáculo “A partilha da miragem, sementes do som, mistérios da luz”.

Para Addi, que, além de curador, está à frente da produção do evento, o tema escolhido, além de promover o conhecimento e enaltecer a natureza do estado, também tem o poder de reflexão sobre os impactos da ação humana, que tem deixado um constante alerta sobre a necessidade de preservação.

“A exposição não é apenas para gravar a flora regional na mente dos visitantes pelas pinturas, mas também promove reflexões sobre a conservação e alerta sobre o efeito da presença humana nesses ambientes”, disse.

Durante o processo de produção, a relação dos próprios artistas com as flores também ganhou novos significados. Segundo Addi, cada participante acabou estabelecendo uma conexão particular com a espécie escolhida, seja por lembranças da infância, pela nostalgia ou pela relação com frutos do Cerrado.

“Posso dizer, por mim, que percebi no processo algo muito interessante: cada pessoa tem uma conexão com uma flor, seja por nostalgia ou lembrança pessoal. Alguns lembram de frutos do Cerrado, outros de flores que viam na infância. É realmente algo pessoal, e não poderia ordenar que pintassem apenas flores específicas, seria menos íntimo. Acho que essa conexão é que gera algo valioso”, explica.

Ainda fazem parte do evento os artistas convidados Lúcia Monte Serrat, Haycson, Paulo Ormindo, Klei Souza, Fernanda Lopes, Ana Julião, Carelli, Genoveva Roberto,, Kalebe Mazzinee Origamis Fabulosos.

Mais do que apresentar a biodiversidade sul-mato-grossense, Addi espera que a exposição provoque uma mudança de olhar sobre a relação com a natureza e com a própria identidade regional. Para ele, esse processo também transformou a maneira como os artistas enxergam o tema.

“Gostaria que as pessoas saíssem da galeria com a lembrança de que a natureza sempre precisa de cuidados e de que é muito importante sabermos em que meio vivemos, sejam os biomas, as flores, os frutos nativos, a fauna e suas conexões. A regionalidade em Campo Grande pode parecer cansativa e repetitiva, mas é extremamente necessária. Hoje, eu, que já tive uma visão negativa sobre só ter esse tema de arte no Estado, vejo com outros olhos. Então, essa exposição muda até o olhar dos próprios artistas sobre essa questão”, afirma.

Segundo ele, a mostra também representa uma forma de ressignificar essa produção. “Não somos ensinados a saber por que essa regionalidade é importante, apenas nos sentimos presos a ela. Então, de certa forma, a exposição é uma homenagem à natureza e, sem querer, uma tentativa de lidar com essa visão da arte regionalista do Estado de forma integrativa”, conclui.

 

Por Carolina Rampi

 

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