Ilustradora e ceramista, Marina Torrecilha une arte e biodiversidade em obras inspiradas no Cerrado e no Pantanal
Capivaras, tucanos, onças-pintadas e tamanduás, espécies que fazem parte da paisagem do Cerrado e do Pantanal, podem estar mais perto do que muita gente imagina. Além dos habitats naturais, esses animais ganham espaço no cotidiano por meio da arte produzida pela ilustradora e ceramista Marina Torrecilha, que transforma a fauna símbolo de Mato Grosso do Sul em peças de argila capazes de aproximar o público da biodiversidade regional.
Natural de Campo Grande, Marina cresceu em uma pequena chácara cercada pela vegetação e pela vida silvestre do Cerrado, cenário que moldou seu olhar artístico desde a infância. Bacharel em Artes Visuais pela UFMS (Universidade Federal de Mato Grosso do Sul), a artista conquistou projeção nacional com o perfil Copa de Barro, que reúne cerca de 85 mil seguidores nas redes sociais, além de assinar a animação em stop motion do clipe Homem com H, de Ney Matogrosso.
Como nasce esse processo?
Cada escultura nasce de um processo que vai além da criação estética. Antes de modelar a argila, Marina realiza pesquisas sobre os biomas, percorre paisagens que conhece, revisita áreas naturais e estuda as características das espécies que vivem nesses ambientes.
Esse levantamento se transforma em uma produção artística que valoriza a fauna e a flora sul-mato-grossenses, revelando detalhes da natureza por meio de formas, texturas e narrativas construídas em cerâmica.
Para a reportagem, Marina Torrecilha explica que sua produção artística vai além da criação de peças em cerâmica. Cada obra é resultado de pesquisas sobre as paisagens do Cerrado e do Pantanal, reunindo referências da fauna, da flora e da memória cultural da região.
“Mesmo com toda a tecnologia disponível hoje, escolho a argila como uma forma de me conectar aos biomas da minha região. Estudo paisagens, as florestas e os animais que conheço para transformar essas referências em arte. Também trago inspirações da arte rupestre e das narrativas transmitidas pelos saberes orais, porque quero que as pessoas sintam essa ligação com a nossa história e com a natureza”.
Modelando argilas
Marina explica que o processo de criação de cada peça começa com técnicas artesanais e o uso de ferramentas simples. A artista trabalha principalmente com argila, água, estecas, rolo de madeira, esponjas, pincéis e agulhas, materiais que auxiliam na modelagem. Segundo ela, a produção é dividida em diferentes fases, sendo a modelagem o ponto de partida para a construção de cada obra.
“A argila é um material muito versátil e fácil de moldar com as mãos. Não são necessárias muitas ferramentas: uso água, algumas estecas, rolo de madeira para abrir a massa, esponjas, pincéis e agulhas quando preciso fazer perfurações. Cada peça tem seu próprio tempo de produção, mas costumo dividir esse processo em cinco etapas, começando sempre pela modelagem da arte”, explica a artista.
Após a modelagem, as peças passam por um processo que exige tempo e atenção em cada etapa. Marina Torrecilha explica que a secagem varia conforme o clima e, no Cerrado, costuma acontecer de forma mais rápida.
“A segunda etapa é a secagem completa da peça, que depende das condições climáticas. Como o Cerrado é mais seco, esse processo costuma levar apenas alguns dias. Depois vem a primeira queima em baixa temperatura, seguida da esmaltação, que é quando faço a pintura das peças. Por fim, elas passam pela queima em alta temperatura no forno elétrico. Todas as fases têm seus desafios, mas as que mais gosto são a modelagem e a pintura, porque é quando a criatividade aparece com mais força”,complementa.
“Biomas e florestas sagrados”
A fauna, a flora e as paisagens de Mato Grosso do Sul são a principal fonte de inspiração para Marina Torrecilha, mas a escolha dos elementos retratados não segue um planejamento rígido. A artista conta que as obras surgem de forma espontânea, influenciadas pelas mudanças das estações, pelas cores da natureza e pelas experiências vividas nos biomas do Cerrado e do Pantanal.
“Não existe uma regra para escolher o que vou criar. O que me inspira é a liberdade de sentir o momento e perceber o que cada época do ano oferece. No inverno, por exemplo, a florada dos ipês desperta a vontade de representar aves e outros animais com as cores dessa estação. Para mim, essa liberdade é fundamental, porque mantém o processo criativo vivo. Quando tento seguir um planejamento muito fechado, as ideias simplesmente não fluem da mesma forma”, detalha.
Para a ceramista, os biomas representam a base de sua identidade e de sua forma de enxergar o mundo. Essa conexão se reflete em suas obras, que também carregam uma mensagem de valorização e conscientização sobre a importância da preservação ambiental.
“Vejo nossos biomas e florestas como algo sagrado. Minha espiritualidade está ligada ao respeito pela terra, pela água e por todos os seres que vivem nela. Não existe vida sem as raízes e sem o verde. Somos parte da natureza, e transformar essa relação em arte também é uma forma de lembrar que esses seres existem e que a preservação deles é essencial para a continuidade da vida no planeta”, finaliza.
Após uma década dedicada à ilustração digital, com trabalhos em jogos e livros, Marina Torrecilha encontrou na cerâmica uma nova linguagem artística durante a pandemia. Mesmo ainda se definindo como uma artista que utiliza a argila como forma de expressão, ela transformou o material em narrativas que unem natureza, cultura e imaginário brasileiro, dando vida a animais, símbolos e histórias que aproximam o público de suas inspirações.
Amanda Ferreira
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