Projeto transforma murais criados nas periferias da Capital em lembranças que serão distribuidas de forma gratuita
Tem muita gente que não sabe, mas os cartões-postais foram utilizados durante muito tempo como forma de comunicação. De um lado, a mensagem a ser enviada, com os famosos selos; do outro, a foto de um ponto turístico ou obra de arte. Agora, Campo Grande terá seus próprios cartões postais, por meio do projeto ‘Mural Postal Campão’, onde crianças, adolescentes e comunidade se uniram em prol da arte com a criação de muros utilizando a técnica do grafite. Os resultados de suas criações coletivas foram fotografados e transformados em cartões-postais, que serão distribuídos em diversos pontos da cidade.
Os murais foram grafitados entre os meses de maio e junho, na Associação do Bairro Zé Pereira, no Jardim Zé Pereira; na Escola Municipal Abel Freire de Aragão, no Bairro Santa Branca; na Escola Estadual São José, no Bairro Cruzeiro; e na Fraternidade Despertar, no Bairro Dom Antônio Barbosa.
Experiência
Durante a confecção dos muros, os participantes conheceram o processo de criação de um mural e experimentaram técnicas de pintura com tinta spray e stencil. As obras foram construídas de forma colaborativa, a partir de referências culturais, afetivas e visuais relacionadas a Campo Grande e ao cotidiano das comunidades.
Para o artista visual, muralista e arte-educador Fabio Quill, a participação do público foi essencial para dar identidade às obras. “Os murais foram criados a partir do encontro com as comunidades. Cada grupo trouxe suas referências, suas memórias e sua maneira de enxergar Campo Grande. O resultado não é apenas uma pintura no muro, mas um registro construído coletivamente por quem vive nesses territórios”, afirma.
Durante a confecção, o arte-educador ainda percebeu diferença nos públicos envolvidos e como a idade pode influenciar na interação com cada criação. “Em um dos colégios que fomos, a primeira turma a ir para os muros foram as crianças. Elas estavam ávidas por fazer aquilo de forma mais criativa possível, interagindo com o passo a passo e tudo”, relembra.
“Na sequência, foi um grupo de adolescentes, e aí a composição deles já tinha uma outra característica, que tinha uma coisa até meio de duelo, meio de provocação um com o outro, que também tem um pouco de relação com o grafite de rua, esse grafite que é feito de forma ilegal, que tem essa coisa meio de desafio”, explicou ao Jornal O Estado.
Na primeira atividade, realizada em 30 de maio, no Jardim Zé Pereira, crianças e adolescentes participaram da criação de um mural inspirado no sobá. O prato de origem okinawana tornou-se um dos símbolos gastronômicos de Campo Grande e representa a influência da imigração japonesa na formação cultural da cidade.
As demais ações foram realizadas nos dias 10, 18 e 28 de junho. Em cada local, crianças e adolescentes participaram da pintura e da construção de imagens relacionadas à identidade campo-grandense. Os murais foram finalizados por Fabio Quill.
Olhar do artista
Fábio Quill é artista visual e gráfico, muralista, escritor e quadrinista. Participou de diversas exposições, entre elas “Olhar Nascente – Centenário da Imigração Japonesa (São Paulo – SP), “Coletiva ‘Cuide de Você’ – MAM (Museu de Arte Moderna) – (Salvador – BA) e “X-Games (Rio de Janeiro – RJ). Participou de diversos painéis de rua como a homenagem a Imigração Japonesa na Avenida Paulista (São Paulo – SP) e o corredor da Avenida 23 de Maio (São Paulo – SP).
Tem no portfólio clientes como Adidas, Nestlé, MTV, TV Cultura, MCD Brasil entre outras. É autor das HQs “A ausente ordem das coisas”, “A Casa Baís”, “Amálgama”, “Onírica”. “Tiro na Fuça” e “Janela da Alma”, tendo sido indicado duas vezes ao troféu HQ MIX.
Na realização do grafite com as comunidades, ele conta que existiu dois momentos que mais chamaram a sua atenção.
“Quando eles estão produzindo, ao conversar e comentar um com o outro, reconhecem o que é possível fazer com a criatividade, sua capacidade artística”, relembra. “O segundo momento é quando vou finalizar a arte. Eles ficam muito interessados em ver como vai ficar; às vezes ficaram preocupados de eu apagar alguma coisa que eles fizeram”, conta.
Dos muros para diferentes pontos da cidade
Os cartões-postais são um dos resultados das ações e ampliam a circulação das obras para além dos bairros onde foram criadas. O material estará disponível gratuitamente em cinco espaços culturais de Campo Grande.
Em breve, os postais também poderão ser retirados nas escolas e instituições que receberam as vivências, permitindo que os participantes tenham acesso ao registro das obras que ajudaram a construir.
Segundo a produtora cultural Rubia Sibele, a distribuição dá continuidade ao projeto e amplia o contato do público com as obras. “Quando os murais se transformam em postais, essas imagens ganham novos caminhos. Elas saem dos locais onde foram criadas, chegam a outros pontos da cidade e ainda podem ser enviadas para diferentes lugares. É uma forma de valorizar a produção cultural dos bairros e fazer com que essas histórias circulem”, destaca.
Fábio vê que ações culturais como essa são de extrema relevância para as comunidades periféricas, possibilitando a promoção de transformações e novos olhares.
“A arte tem lugar de liberdade. Cresci rodeado de cultura hip-hop, em um bairro pobre da periferia de São Paulo, e as chances de me envolver com algo errado foram impedidas justamente pela cultura e pela arte. Acho muito importante que a arte e a cultura cheguem a esse espaço e que alcancem esse lugar de transformação. É fundamental para o crescimento e entendimento da sociedade”.
Cada postal apresenta, no verso, dois QR codes. Um deles direciona o público para informações sobre pontos turísticos e culturais da Cidade Morena. O outro disponibiliza a audiodescrição da obra, ampliando a acessibilidade do projeto.
Viabilizado pela Prefeitura de Campo Grande, por meio da Fundação Municipal de Cultura, com incentivo do FMIC 2024, o Mural Postal Campão reúne arte urbana, participação comunitária, memória afetiva e acessibilidade. A proposta é valorizar os bairros e mostrar que a cidade também é construída pelas experiências, histórias e expressões de seus moradores.
Onde encontrar os postais:
Os cartões estarão disponíveis gratuitamente, até o final desta semana, nos seguintes locais:
Museu Casa Amarela
Rua dos Ferroviários, 118, Centro.
Estação Cultural Teatro do Mundo
Rua Barão de Melgaço, 177, Centro.
Capivas Cervejaria
Rua Pedro Celestino, 1.079, Centro.
Biblioteca Pública Estadual Dr. Isaías Paim
Avenida Fernando Corrêa da Costa, 559, Centro.
Casa de Cultura de Campo Grande
Avenida Afonso Pena, 2.270, Centro.
Estação Cultural Teatro do Mundo, R. Barão de Melgaço, 177, – Centro.
Em breve, os postais também estarão disponíveis nas escolas e instituições que receberam as ações do projeto.
Por Carolina Rampi
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