Casa Amarela promove debate sobre identidade e legado de Lídia Baís

Foto: Montagem
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Exposições, videopoemas e rodas de conversa destacam trajetórias femininas na arte

A Casa Amarela – Museu de Arte Urbana, em Campo Grande, recebe no dia 11 de março um encontro dedicado a discutir a presença feminina na produção cultural e artística. A atividade integra uma agenda voltada ao debate antirracista e feminista e propõe refletir sobre trajetórias de mulheres que marcaram a história da arte no estado, tomando como ponto de partida a vida e a obra da artista sul-mato-grossense Lídia Baís.

A programação inclui a exibição de um videopoema criado por estudantes do ensino fundamental, sob orientação da cineasta Larissa Anzoategui, além de uma roda de conversa com convidadas que atuam em diferentes áreas da cultura. O encontro reunirá a escritora Adrianna Alberti, a fotógrafa e cantora Nivi Souza e a artista visual Thalya Veron, com mediação da pesquisadora e autora Tatiana de Conto.

Durante a conversa, as participantes devem abordar temas como o espaço ocupado pelas mulheres nas artes, as barreiras históricas enfrentadas por criadoras em seus territórios e a importância de fortalecer redes de apoio e visibilidade feminina.

A proposta do encontro é estimular o diálogo sobre identidade, memória e resistência cultural, destacando também o papel de iniciativas coletivas na construção de narrativas protagonizadas por mulheres. O evento é aberto ao público e ocorrerá às 19h, na sede da Casa Amarela, no bairro Cabreúva.

O lugar da mulher na arte

Em entrevista ao Jornal O Estado, a gestora da Casa Amarela, Tatiana de Conto, explica que a proposta do encontro nasceu da vontade de refletir sobre o espaço ocupado por mulheres nas artes, utilizando o cinema como ponto de partida para o debate.

“Enquanto refletia sobre artistas retratadas no cinema, percebi que temos uma criadora daqui cuja história muitas vezes fica à margem. Lídia Baís produziu até os 29 anos e, depois disso, sua trajetória foi atravessada pelas internações. Pensar nessa história também é perguntar quantas outras mulheres tiveram sua arte interrompida ou silenciada e como podemos continuar dando voz a essas artistas no nosso território”.

Autora do livro “Lídia Baís – Uma mulher à frente de seu tempo”, a pesquisadora explica que o interesse em escrever sobre Lídia Baís surgiu a partir da identificação com aspectos da trajetória da artista. Ao investigar sua história, ela percebeu que, apesar da distância de gerações, muitas das barreiras enfrentadas por Lídia ainda refletem desafios vividos por mulheres na sociedade contemporânea.

“Quando comecei a estudar a história da Lídia, me chamou atenção perceber que, mesmo tendo nascido muitas décadas antes de mim, ela enfrentou questões que ainda atravessam a vida de muitas mulheres. O patriarcado teve um impacto direto no caminho dela. Ao longo da pesquisa, também fui descobrindo a dimensão e a força da obra que ela propunha, o que reforçou ainda mais a importância de contar essa história”, destaca Tatiana.

Durante a pesquisa para o livro, Tatiana de Conto afirma que alguns elementos da produção de Lídia Baís revelaram aspectos profundos da relação entre a artista e sua própria trajetória. Entre eles, destaca-se um afresco presente na casa da pintora, que evidencia como sua obra carregava referências autobiográficas e simbólicas, refletindo sentimentos e conflitos vividos por ela.

“Um episódio que me marcou foi o afresco ‘Joana d’Arc das Artes’, em que Lídia se apresenta montada em um cavalo. Muitas obras dessa fase trazem o próprio rosto dela, o que mostra esse caráter autorreferencial. De certa forma, ela se coloca como uma figura em luta, alguém que enfrenta batalhas para afirmar sua arte”, afirma.

Crianças artistas

Gravações na Morada dos Baís (C) Larissa Anzoategui 

Durante o evento, também será exibido um vídeopoema produzido por estudantes do ensino fundamental, com orientação da cineasta Larissa Anzoategui. O trabalho surgiu a partir de um projeto interdisciplinar realizado com alunos do então 8º ano, em parceria com a professora de Língua Portuguesa Cirleide Jucá, unindo literatura, arte e linguagem audiovisual.

“O projeto começou com a produção de poemas nas aulas de Português e, depois, adaptamos esses textos para o formato audiovisual nas aulas de Arte. Estudamos a vida e as obras de Lídia Baís, que inspiraram os alunos na criação. A gravação do videopoema contou mais diretamente com a participação de quatro alunas, que ajudaram nas cenas, figurinos e interpretação”, explica Larissa.

O principal desafio no projeto foi abordar temas como gênero, identidade e resistência de maneira adequada à idade dos estudantes. Em vez de trabalhar conceitos teóricos de forma direta, os educadores partiram da história e das obras de Lídia Baís, permitindo que os alunos percebessem, aos poucos, os obstáculos enfrentados por mulheres para exercer sua liberdade criativa.

“Conversamos de forma introdutória sobre feminismo e patriarcado, sem aprofundar demais, para que os alunos pudessem compreender o contexto da artista. A ideia agora é continuar o trabalho, ampliando a pesquisa sobre Lídia Baís e desenvolvendo um documentário que aprofunde essas discussões”, destaca.

A produção do videopoema permitiu que os alunos saíssem da posição de espectadores e se tornassem também criadores, vivenciando de forma prática o processo artístico. Ao estudar a vida e as obras de Lídia Baís, eles compreenderam como o contexto social influencia a trajetória de uma artista, mostrando os obstáculos e preconceitos enfrentados por mulheres ao longo da história.

“Transformar essas reflexões em poesia e depois em audiovisual fez com que os alunos desenvolvessem um olhar mais crítico e empático sobre a arte e o papel da mulher na sociedade”, finaliza a cineasta.

Serviço: O encontro acontece na Casa Amarela – Museu de Arte Urbana, localizada na Rua dos Ferroviários, 118, no bairro Cabreúva, em Campo Grande (MS), no dia 11 de março, a partir das 19h. O evento é aberto ao público, com venda de artes e livros, e recebe contribuições espontâneas para a manutenção da casa.

Por Amanda Ferreira

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