Sara Welter transforma desenhos da antiga ferrovia em passeio pelo patrimônio
O passado pede passagem — e, em Campo Grande, alguns dos caminhos para encontrá-lo ainda estão desenhados no traçado da cidade. Na Avenida Calógeras e na região do Complexo Ferroviário, antigos espaços ligados à Estrada de Ferro NOB (Noroeste do Brasil) permanecem na paisagem, mesmo depois das transformações que modificaram a área ao longo das décadas. Para quem passa por ali todos os dias, podem parecer apenas construções antigas, estruturas desgastadas pelo tempo ou trechos incorporados à rotina urbana. Mas, quando observados com atenção, esses lugares revelam outra cidade: aquela que cresceu em torno dos trilhos e teve sua história marcada pela chegada do trem.
É justamente essa paisagem que a artista visual Sara Welter, conhecida como Syunoi, pretende apresentar ao público nos dias 12 e 13 de setembro, durante duas caminhadas guiadas gratuitas pelo Complexo Ferroviário de Campo Grande. A atividade integra a programação da Jornada do Patrimônio 2026 e nasce de um projeto que começou de outra maneira: no papel.
Antes de conduzir visitantes pelas ruas e pelos antigos espaços ferroviários, Sara percorreu esse território com lápis, desenhos e pesquisa. O resultado foi a cartilha “Resquícios do Tempo: Complexo Ferroviário”, publicação que reúne sete pontos relacionados à memória da ferrovia e registra, por meio da ilustração, aquilo que ainda sobrevive dessa história na paisagem da Capital.
Agora, a proposta é inverter o caminho. Se a cartilha levou os lugares para o papel, a caminhada pretende levar o leitor das páginas para o território. Durante aproximadamente uma hora, os participantes poderão conhecer os espaços retratados pela artista e observar de perto elementos que, muitas vezes, passam despercebidos no cotidiano.
Resquícios
A visita guiada parte justamente da cartilha. Os desenhos funcionam como uma espécie de mapa afetivo do percurso, aproximando a pesquisa histórica da experiência de caminhar pela cidade. Ao chegar aos locais representados nas páginas, o participante poderá comparar a imagem registrada pela artista com aquilo que permanece no espaço e perceber as marcas deixadas pelas transformações urbanas.
A pesquisa que sustenta o projeto foi desenvolvida por Sara com apoio da pesquisadora Bruna Costa Dias e também ganhou informações a partir de conversas com ferroviários e moradores da região. O resultado não pretende ser uma aula acadêmica sobre a história da NOB, mas uma forma de despertar a curiosidade sobre um patrimônio que continua integrado à cidade, ainda que nem sempre seja reconhecido como parte dela.
“É uma forma de levar as pessoas até esses espaços e fazer com que elas conheçam um pouco mais da história”, explica Sara.
A escolha por uma caminhada também amplia a experiência proposta originalmente pela publicação. Em vez de apenas observar os registros em uma cartilha, o público será convidado a ocupar os espaços, percorrê-los e construir suas próprias impressões. Para a artista, essa relação direta é importante porque o patrimônio não existe apenas como documento histórico: ele também é feito da maneira como uma comunidade reconhece, interpreta e se relaciona com os lugares que atravessaram sua história.
“Queria que as pessoas pudessem conhecer esses lugares de perto e entender um pouco mais da importância deles. A cartilha mostra esses espaços através do meu olhar, e a visita permite que as pessoas tenham a experiência de estar nesses lugares e construir também a própria visão sobre eles”, afirma.
A caminhada representa ainda uma experiência inédita para Sara, que realiza pela primeira vez uma visita guiada. A iniciativa surgiu como desdobramento natural do projeto. Depois de pesquisar, desenhar e organizar os registros dos espaços, a artista encontrou no percurso presencial uma maneira de aproximar o público daquilo que motivou seu trabalho.
Essa passagem do desenho para a rua é significativa porque muda também a posição de quem observa. Na cartilha, o leitor recebe um recorte produzido pelo olhar da artista. Na caminhada, ele pode confrontar esse registro com a própria experiência: reparar em uma construção, identificar uma estrutura, perceber uma mudança ou simplesmente descobrir que determinado trecho da cidade guarda uma história que até então lhe era desconhecida.
O percurso pelos sete pontos propostos pelo projeto permite justamente esse exercício. Ao reconhecer no território aquilo que conheceu primeiro pelas ilustrações, o participante também poderá perceber as diferenças provocadas pela passagem do tempo. Alguns vestígios permanecem; outros foram alterados, incorporados ou desapareceram. Entre uma coisa e outra, a própria cidade passa a funcionar como documento.
É nesse ponto que “Resquícios do Tempo: Complexo Ferroviário” encontra sua dimensão artística. O projeto utiliza o desenho não apenas como linguagem estética, mas como ferramenta de observação e registro. Ao transformar espaços do patrimônio ferroviário em imagens, Sara chama atenção para detalhes que podem escapar a uma percepção apressada e cria uma outra possibilidade de aproximação com a memória de Campo Grande.
A proposta também toca em uma questão cada vez mais presente nas cidades: o que acontece com os lugares históricos quando deixam de cumprir sua função original? No caso do complexo ferroviário, estruturas associadas a um período importante do desenvolvimento da Capital permanecem cercadas pela vida contemporânea. Carros passam, pessoas circulam, novos usos aparecem e a paisagem se transforma. Ainda assim, determinados sinais permanecem capazes de conectar o presente a uma cidade de outro tempo.
Mais do que recuperar uma história distante, a caminhada propõe olhar novamente para aquilo que está à vista. O patrimônio, nesse caso, não precisa ser descoberto em um arquivo ou em um museu: ele pode estar no caminho para o trabalho, em uma construção conhecida de passagem ou em uma área que mudou de função sem perder completamente as marcas do que foi.
O projeto conta com investimento da PNAB (Política Nacional Aldir Blanc), do Governo Federal, por meio do MinC (Ministério da Cultura), com execução da Prefeitura de Campo Grande, via Fundac (Fundação Municipal de Cultura).
A caminhada
As caminhadas guiadas serão realizadas nos dias 12 e 13 de setembro, às 15h30, com concentração na região da Avenida Calógeras e do Complexo Ferroviário. A atividade é gratuita, tem duração aproximada de uma hora e oferece 30 vagas. As inscrições podem ser feitas pelo endereço informado pela organização: https://bit.ly/ResqVisGui. Mais informações estão disponíveis no Instagram @resquiciosdotempo.
Para quem costuma atravessar a região sem perceber seus detalhes, a proposta oferece uma mudança simples de perspectiva: percorrer novamente um espaço conhecido, mas desta vez procurando as marcas que o tempo deixou pelo caminho.
Gabriela Porto
Confira as redes sociais do Estado Online no Facebook e Instagram.