Instalação-performática ocupa o Casarão Thomé com experiência sensorial imersiva que une dança, literatura, artes visuais e tecnologia
O Casarão Thomé, um dos espaços históricos mais simbólicos de Campo Grande, passa a ser ocupado por uma proposta artística que desafia os sentidos e a forma tradicional de assistir a uma obra cênica. A instalação-performática “Bailar no Escuro” convida o público a uma experiência imersiva que articula corpo, palavra, imagem e tecnologia.
Criado pelos artistas Halisson Nunes e Verônica Lindquist, o trabalho será apresentado em cinco sessões gratuitas entre sexta-feira (6) e domingo (8), com horários distribuídos ao longo das noites, permitindo que diferentes públicos vivenciem a obra a partir de recortes sensoriais únicos.
A ação acontece dentro do próprio casarão, localizado na Rua 14 de Julho, no bairro São Francisco, onde três ambientes são ativados simultaneamente por esculturas, projeções e elementos cenográficos que dialogam com a arquitetura e a memória do espaço.
Com duração aproximada de 40 minutos, classificação indicativa de 14 anos e acessibilidade em Libras, a obra propõe uma fruição silenciosa e fragmentada, em que cada espectador constrói sua própria leitura a partir do que vê, escuta e percebe nos intervalos entre luz, movimento e ausência.
Dançando no escuro
A obra tem origem em um texto poético chamado “Bailar no Escuro” escrito por Verônica Lindquist durante o período da pandemia, que serviu como ponto de partida para a criação cênica. A partir desse material, o projeto se desenvolveu como um campo de experimentação entre diferentes linguagens artísticas, abrindo reflexões sobre formas de comunicação, vínculos humanos e conexões que ultrapassam o olhar estritamente humano.
A ideia de construir uma obra em que cada espectador vivencia uma experiência única surgiu durante o próprio processo de criação de Bailar no Escuro. A relação direta com o Casarão Thomé levou os artistas a repensarem a ocupação do espaço e a assumirem o ponto de vista individual como elemento central da narrativa.
Para o Jornal O Estado, o performer e artista visual Halisson Nunes, disse que o projeto passou por mudanças ao longo da pesquisa, até que o grupo percebeu que a limitação espacial poderia se tornar um recurso conceitual.
“Inicialmente a obra ocuparia áreas internas e externas do casarão, mas, ao concentrarmos a ação em três cômodos, entendemos que a experiência mudava conforme o lugar de onde se assistia. Ao invés de tratar isso como um problema, aprofundamos essa diferença de percepções e assumimos o perspectivismo como parte do trabalho”, explica.
Segundo a artista e escritora Verônica Lindquist, a escolha por um lugar fixo dialoga diretamente com a arquitetura e a história do Casarão Thomé. Ela destaca que a proposta respeita o espaço e valoriza suas particularidades, sem descaracterizá-lo.
“Cada cômodo permite uma forma diferente de perceber o ambiente. Isso fez mais sentido do que transformar o casarão em algo irreconhecível”, afirma.
“A partir do assento que cada pessoa ocupa, constrói-se uma narrativa própria. O que se vê, o que fica oculto e a forma como o espaço se revela criam uma experiência imersiva baseada no ponto de vista individual”, completa Verônica.
Encontro de artes
A construção de “Bailar no Escuro” parte do encontro entre diferentes linguagens artísticas, que se articulam sem hierarquia ao longo da experiência. Dança, literatura, artes visuais e tecnologia coexistem de forma integrada, compondo uma obra em que cada elemento aparece no tempo e na intensidade necessários para sustentar a narrativa sensorial proposta ao público.
Halisson destaca que, esse equilíbrio nasce da escuta atenta do próprio processo criativo. “Existe uma sensibilidade em perceber o que cada cena precisa dizer e quanto tempo ela precisa para isso. A partir daí, entendemos quando cada linguagem entra, por que entra e o que ela acrescenta, para que nenhuma se sobreponha à outra”, explica.
Verônica detalha que a interdisciplinaridade foi uma escolha desde o início da concepção do projeto. Segundo ela, o diálogo entre as linguagens surge de forma orgânica a partir das referências que atravessam o processo criativo. “Nos inspiramos em leituras, performances, músicas, dança, cinema e pintura. À primeira vista pode parecer caótico, mas existe uma sinestesia que se forma quando estamos abertos a sentir essas camadas”, afirma.
Casarão Thomé
Erguido em 1947, a casa é um patrimônio histórico de Campo Grande que guarda parte significativa da história urbana e cultural do Estado. Construído pela família Thomé, responsável por obras emblemáticas da cidade, como o Relógio da Rua 14 de Julho, os Correios, o Americano Hotel, o Cinema Rialto e a primeira ponte de concreto do Estado, o espaço hoje está sob a gestão da artista Miska Thomé, neta de Manoel Thomé.
Com 80 anos de história, o casarão abriga um acervo de fotografias, documentos, jornais, utensílios de trabalho e objetos pessoais da família, mantendo viva a memória de uma época e se consolidando como espaço cultural ativo, aberto ao encontro entre arte, história e público.
“Entrar ali foi como acessar outro tempo. Conhecer a história da família, visitar a sala de memória e ver os álbuns antigos nos ajudou a construir sensações que estão diretamente ligadas ao espaço”, afirma Halisson.
Verônica reforça que o processo de criação foi moldado pela convivência contínua com o lugar. “O projeto se transformou à medida que passamos a ocupar o casarão com frequência. Houve uma troca de histórias, tempos e afetos que atravessou todo o processo e ressoou na forma final da obra”, completa.
Ao investigar as relações humanas mediadas pela tecnologia, Bailar no Escuro amplia o olhar para formas de comunicação que extrapolam o universo digital. “É um tatear no escuro que cria ritmo, diálogo, expansão e retração. Uma dança. Desse escuro emergem memórias, ancestralidades e também reflexões sobre o virtual, que transcendem a ideia de presença física”, finalizam.
O projeto foi viabilizado com recursos da PNAB (Política Nacional Aldir Blanc de Fomento à Cultura), por meio do Ministério da Cultura, Governo Federal, via edital da Fundac (Fundação Municipal de Cultura de Campo Grande), vinculada à Prefeitura. Mais informações podem ser acompanhadas pelo Instagram @bailarnoescuro.
Serviço: Bailar no Escuro acontece em cinco sessões gratuitas no Casarão Thomé, localizado na Rua 14 de Julho, 3169, no bairro São Francisco, em Campo Grande. As apresentações ocorrem na sexta-feira (6), às 19h, e no sábado (7) e domingo (8), às 19h e 20h30. A classificação indicativa é de 14 anos e a entrada é gratuita.
Amanda Ferreira
Acesse as redes sociais do Estado Online no Facebook e Instagram