Arte que acolhe: quando a arte encontra a maternidade

Foto: acervo pessoal
Foto: acervo pessoal

Doulas e obstetra transformam pintura de barriga e carimbo de placenta em rituais de conexão, memória e afeto entre mãe e bebê

Pode ser incomum pensar isso, mas a enfermagem e a arte conseguem se cruzar em suas essências. Chamada de ‘Mãe da Enfermagem’, Florence Nightingale defendia o uso de plantas de cores fortes, quadros, leitura, escrita e bordado para reduzir o estresse, resultando em efeitos sobre a mente e corpo.

No mundo da maternidade, as doulas, profissionais que oferecem apoio físico, emocional e informativo a gestantes durante gravidez, parto e pós-parto, para promover uma experiência de nascimento humanizado e segura, utilizam da pintura para criar um momento especial com as futuras mães, por meio da arte gestacional.

A psicóloga e doula Mariksa Ungerer explica que a pintura de barriga nasceu dentro do seu trabalho como doula e educadora perinatal há mais de dez anos em Campo Grande. “Ao acompanhar tantas gestantes, percebi a importância de criar momentos de conexão emocional entre mãe e bebê durante a gestação”, disse em entrevista ao Jornal O Estado. S

egundo ela, a ideia veio justamente da necessidade de proporcionar uma experiência afetiva, simbólica e acolhedora para as famílias. “A pintura não é apenas artística, ela representa o bebê, a gestação e toda a transformação emocional que a mulher vive nesse período. Muitas mães relatam que se sentem ainda mais conectadas ao bebê após esse momento”.

Na prática, o momento ocorre no final da gestação, entre 28 e 42 semanas, quando a mãe sente os movimentos do bebê. Primeiro, Mariksa conversa com a futura mamãe sobre a gestação, sobre as mudanças e quais as emoções presentes. Muitas vezes o pai, irmãos e avós também participam.

Foto: acervo pessoal

“Durante a pintura, existe um ambiente de pausa, afeto e presença. Colocamos músicas, fazemos fotos, conversamos sobre o parto e sobre maternidade. É um momento que ajuda a gestante a desacelerar e se conectar com o bebê de uma forma muito profunda”.

Na pintura podem ser inseridos o nome do bebê, elementos que tenham significado afetivo, símbolos de proteção, espiritualidade, força, delicadeza ou até referênicas da trajetória daquela família até a chegada do novo integrante. “Ao longo dos anos, percebi que esse encontro proporciona algo muito importante para a gestante: a oportunidade de desacelerar, se sentir cuidada e se conectar profundamente com o bebê. E isso tem um valor emocional muito grande dentro da vivência da maternidade”. Tudo é feito com muito respeito, escuta e significado para cada família.

Cada barriga conta uma história única. É mais que estética. – Mariksa Ungerer Já para a doula Érika Bender, o trabalho da arte gestacional começou por meio da própria experiência, quando ainda morava em Florianópolis. “Fui acompanhada por uma equipe que fazia esse trabalho, eles viam a posição que o bebê estava naquele dia e faziam o desenho conforme essa posição. Chamavam esse tipo de arte de ‘ultrassom natural’, porque desenhavam exatamente a posição do bebê naquele momento”, explica. Segundo ela, a pintura foi feita em várias fases da sua gestação, para acompanhar a evolução, o que fortaleceu o vínculo com a equipe e com o bebê. “Para mim, foi muito importante.

Eu me encantei com essa assistência e com o trabalho com gestantes, me formei, fiz o curso de doula, e quando comecei a atuar, quis colocar isso em prática de uma forma mais simples”, relembra. Nos seus trabalhos, a pintura é realizada no fim da gestação, quando a mulher entra na chamada ‘janela do parto’, a momentos de receber o bebê. “Funciona como uma despedida da barriga. É um momento mais lúdico, em que trazemos mais sentimento e conexão com essa fase, ajudando a mulher a desacelerar e a sentir tudo o que está vivenciando”.

Foto: arquivo pessoal

O momento é regado de relaxamento e conversa sobre medos, expectativas e futuro. A mãe pode convidar pessoas próximas, família e pessoas especiais para a pintura, para desejarem boas energias para a chegada do bebê.

 “Meu objetivo não é que o desenho fique perfeito, mas proporcionar esse momento para a gestante. Depois que o desenho está pronto, muitas se emocionam, relatam que não imaginavam que gostariam tanto ou que subestimaram o momento, que acaba sendo muito significativo.

É um momento bonito, em que ela vai se despedindo da gestação e se preparando, se fortalecendo para o parto”. Para Mariksa, durante a pintura, muitas mães já relataram que conseguiram, pela primeira vez, parar a rotina, respirar e realmente se conectar com o bebê.

“Algumas se emocionam muito, choram, sorriem, conversam com o filho ainda na barriga e vivem aquele instante com uma presença que muitas vezes não conseguiram ter durante toda a correria da gestação”. relembra. “Já ouvi frases que me marcaram profundamente, como: ‘Hoje eu senti que estou realmente vivendo minha maternidade’ ou ‘Esse foi o momento em que consegui me enxergar como mãe’.” A ginecologista e obstetra Luciana Tannus faz um trabalho ainda mais diferente, que conquista cada vez mais adeptas: a pintura de placenta. A arte conhecida como ‘carimbo de placenta’ eterniza o momento do parto por meio de uma recordação em papel que pode se transformar até em quadro.

Na pintura, é possível escrever uma mensagem especial na folha, bem como o dia, horário e local onde aconteceu, até mesmo o nome do bebê pode ser adicionado.

“A placenta é um órgão único, que existiu exclusivamente para nutrir e conectar mãe e bebê durante toda a gestação. Quando fazemos a impressão da placenta, muitas vezes ela lembra uma árvore da vida, e isso tem um simbolismo muito bonito. Então acabou se tornando uma forma delicada de eternizar um capítulo tão importante da maternidade”, relat Luciana.

Para ela, esse registro representa memória, conexão e significado. “Muitas mães se emocionam porque percebem ali algo que sustentou a vida do filho delas por meses. O parto passa muito rápido, apesar de ser intenso, e esse presente acaba virando uma lembrança concreta daquele dia. Algumas guardam no quartinho do bebê, outras em caixas de memória da maternidade. É um presente muito simbólico, porque carrega história, vida e afeto”.

Dra. Luciana Tannus . Foto: Fabrinny

Obstetra na Maternidade Cândido Mariano e no Hospital Santa Marina, Luciana oferece o trabalho quando sente uma conexão especial com aquela paciente, ou devido a alguma história marcante. “Não faço em todos os partos porque é algo que exige tempo, delicadeza e também um contexto emocional adequado.

Geralmente sinto vontade de oferecer quando existe uma conexão muito especial com aquela paciente, em histórias marcantes, partos muito esperados, mães que enfrentaram desafios para chegar até aquele bebê ou momentos em que percebo que aquele registro vai ter um significado afetivo ainda maior. É algo simples, mas feito com muito carinho e intenção”, diz.

Por Carolina Rampi e Amanda Ferreira

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