Arte no Gelo: Coreógrafo é o Brasil em Milão e já atuou em CG

Foto: Instagram Olimpiadas/Divulgação
Foto: Instagram Olimpiadas/Divulgação

Campeões olímpicos de Milano-Cortina 2026 na dança no gelo tiveram coreógrafo brasileiro que já trabalhou com a cena Ballroom da Capital

 

A dança no gelo vai muito além de saltos precisos e notas técnicas elevadas: ela transforma o gelo em palco e os atletas em intérpretes. Foi nesse cenário que a dupla formada por Guillaume Cizeron e Laurence Fournier Beaudry subiu ao pódio nos Jogos de Inverno de Milano Cortina 2026, apresentando uma coreografia ao som de “Vogue”, sucesso imortalizado por Madonna com assinatura criativa brasileira.

Embora o Brasil não esteja representado por atletas na patinação artística, o país marcou presença nos bastidores da competição. O coreógrafo brasileiro Bieel Moraes colaborou na construção do programa de dança rítmica da dupla, levando referências do voguing e da cultura ballroom para uma das apresentações mais comentadas do evento.

Inspirado na estética e na energia da década de 1990, o número foi apresentado duas vezes e conquistou o público na Milano Ice Skating Arena. Pesquisador e especialista em “arms control”, vertente técnica do voguing que enfatiza precisão e desenho de braços, Bieel é conhecido por transitar entre o universo acadêmico e o pop. Ele integrou a equipe criativa de turnês da cantora Marina Sena e também já trocou conselhos com a cena ballroom de Mato Grosso do Sul.

Medalha de Ouro:
Bieel Moraes com os
patinadores Guillaume
Cizeron e Laurence Fournier: Bieel Moraes/Arquivo pessoa

Ideias Iniciais

Para o Jornal O Estado, Bieel Moraes contou que a ideia de trazer a estética dos anos 1990 para a pista de gelo surgiu a partir de uma determinação da federação internacional de patinação artística, que definiu o tema para todas as duplas de dança no gelo. A partir dessa orientação, Guillaume Cizeron procurou Bieel com o desejo de trabalhar com a clássica “Vogue”, de Madonna. Inicialmente, a dupla experimentou músicas do Depeche Mode, mas comentários de jurados sobre ser dos anos 80 levaram à revisão da seleção musical.

No processo criativo, Bieel estruturou cada movimentação de braço usando o “Arms Control”, uma das vertentes do voguing, garantindo que a coreografia não fosse apenas visualmente impactante, mas também adaptável às exigências técnicas da patinação. Ele produziu material além do necessário, oferecendo à dupla opções para simplificar ou intensificar movimentos conforme a complexidade do programa, mantendo sempre a coerência estética da performance.

“O Guillaume me trouxe ‘Vogue’, testamos outras possibilidades, mas percebemos que a energia dessa música traduzia melhor a ideia. Meu papel foi desenhar toda a movimentação de braços a partir do Arms Control, criando repertório extra para que eles pudessem adaptar os movimentos sem perder a força da coreografia e o impacto visual no gelo”, conta o coreógrafo.

Voguing x Patinação

A fusão entre a dança artística brasileira e a patinação no gelo foi um dos destaques do programa de Guillaume e Laurence o coreografo trouxe para a apresentação elementos do voguing, especialmente o Arms Control, que se caracteriza por linhas geométricas, rotações e conexões precisas. A estética do estilo foi cuidadosamente adaptada para se encaixar na técnica da patinação, equilibrando complexidade e clareza visual, resultando em uma performance harmoniosa e impactante.

“Desde o início, trabalhamos com as formas maiores e mais expansivas, que se encaixaram naturalmente na patinação. Depois, ajustamos e simplificamos movimentos que ficavam complexos demais, sempre respeitando a essência do voguing. Levar essa estética da cultura Ballroom para o gelo mostra como a criatividade brasileira pode dialogar com palcos internacionais, mantendo força e identidade artística”.

O maior desafio na criação da coreografia foi adaptar os movimentos do voguing às exigências da patinação artística. Bieel Moraes precisou considerar como as formas e gestos se comportariam nos elementos técnicos obrigatórios, como giros e passos em contato constante.

Nos twizzles, por exemplo, a força centrífuga dificultava movimentos que saíssem do corpo, exigindo braços mais estáticos e posicionados estrategicamente. Já nos PST, em que os patinadores devem permanecer conectados, cada gesto precisava ser pensado dentro das limitações físicas da dupla, sem comprometer a fluidez ou a expressão da coreografia.

“Foi preciso equilibrar técnica e estética o tempo todo. Alguns movimentos do voguing precisaram ser simplificados ou reposicionados, mas sempre mantendo a identidade da dança. A ideia era que cada gesto funcionasse dentro da patinação e ainda transmitisse a energia e a beleza da performance, mostrando que é possível unir criatividade artística e exigência técnica em um mesmo programa”, afirma.

Ballroom MS
Ian Netto, ativista
e atuante da cena
Ballroom de MS – Foto: Ian Netto/Arquivo pessoal

Voguing de Milano 

O coreógrafo brasileiro Bieel Moraes enfatiza a importância de reconhecer as raízes do voguing. Ela surgiu na cultura Ballroom do Harlem, em Nova York, na década de 1960, criado principalmente por mulheres trans negras e latinas. No Brasil, a cena já existe há mais de dez anos, desenvolvendo-se e se fortalecendo, especialmente no contexto urbano e cultural.

A cena ballroom em MS vem crescendo de forma consistente nos últimos anos, segundo Ian Netto, ativista e participante ativo desse movimento cultural. Há apenas dois anos, o estado contava com três “houses” espalhadas pelo território; atualmente, o número triplicou, chegando a dez casas. A expansão ainda não alcançou todos os municípios, mas iniciativas recentes, como o aumento de uma house para três em Dourados e a organização de uma ball em Nova Andradina com premiações de 6 mil reais, indicam a força e o engajamento da comunidade local.

“Grande parte dessas conquistas sai do nosso próprio bolso, porque financiamento e apoio ainda são raros. Somos o único estado do Brasil com um edital voltado para a nossa comunidade, mas o recurso é muito pequeno. Organizar uma ball hoje custa, em média, 4 a 5 mil reais, e muitas vezes quem banca é a própria comunidade. Mesmo assim, seguimos crescendo e fortalecendo a cena, levando cultura e oportunidade para mais pessoas a cada evento”, conta.

Segundo Ian, Biel sempre se mostrou solícito e disponível para trocar experiências, esclarecer dúvidas, passar treinos e até compartilhar momentos de descontração relacionados à cultura Ballroom. Sua trajetória e visibilidade em palcos internacionais reforçam a força e o potencial do movimento ballroom brasileiro, que por muito tempo sofreu com a invisibilidade dentro da própria comunidade que o originou.

“Ver o Biel conquistando espaço e mostrando a potência da cena brasileira é inspirador. Hoje, nossos movimentos são observados de fora, e pessoas da comunidade internacional buscam talentos daqui para integrar as casas main, que são as originárias da Ballroom. Trabalhos como os do Biel, da Tanesha, da Tasha, da Makayla e do Luky ajudam a levar nossa cultura para outros lugares e elevar nosso patamar dentro do cenário global”, disse Ian.

O coreógrafo brasileiro Bieel Moraes atua profissionalmente com dança desde 2021 e já colaborou com artistas como Marina Sena, coreografando a faixa “Me Ganhar”, do álbum Vício Inerente. Com experiência no voguing desde 2013, Bieel acumula nove troféus internacionais e já ministrou workshops em 11 países, conectando atualmente 75 alunos de mais de 25 países de forma online, preparando-os para competições dentro da cultura Ballroom.

 

Amanda Ferreira

 

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