Manifestações de fé e cultura negra do Estado seguem até domingo (17)
Há mais de um século, uma promessa atravessa gerações no coração de Campo Grande. Feita por Eva Maria de Jesus, a Tia Eva — mulher negra, ex-escravizada e fundadora da comunidade quilombola que hoje leva seu nome — a devoção a São Benedito se tornou uma das mais potentes manifestações de fé e cultura negra de Mato Grosso do Sul. Até este domingo (17), a Comunidade Quilombola Tia Eva realiza mais uma edição da tradicional Festa de São Benedito, unindo religiosidade, memória, esporte e samba numa celebração que resiste há 107 anos.Na Rua Eva Maria de Jesus, no Jardim Seminário, o terço divide espaço com o pagode, e a procissão termina em baile.
A festa reúne milhares de pessoas: moradores, devotos, movimento negro, quilombolas, pesquisadores e visitantes de todo o estado. Neste ano, a realização tem apoio do Grupo TEZ (Grupo Trabalho e Estudos Zumbi), por meio do projeto Festividades Religiosas: Saberes e Ancestralidade, que fortalece celebrações tradicionais de comunidades negras e povos tradicionais em MS.Para Vânia Duarte, descendente de Tia Eva e uma das organizadoras, manter a festa é honrar a palavra da matriarca. “Manter viva a Festa de São Benedito é continuar com a promessa de Tia Eva. É honrar o compromisso que ela fez há mais de um século de dar continuidade a essa devoção”.
De debaixo das árvores ao patrimônio nacional
A origem da festa antecede a própria igreja. Durante a viagem para a região que hoje é Mato Grosso do Sul, Tia Eva teria alcançado uma graça atribuída a São Benedito. Ao se instalar no atual bairro Seminário, ergueu uma igreja de sapé e pau a pique e começou a celebrar debaixo das árvores, reunindo famílias, vizinhos e trabalhadores das fazendas próximas.“Ela viajava pelas fazendas e chácaras buscando prendas e doações. Sempre foi uma celebração coletiva, marcada pela confraternização e pelo almoço gratuito que mantemos até hoje, mesmo com todas as dificuldades”, conta Vânia.O almoço comunitário, servido no encerramento, é um dos símbolos mais fortes desse legado. “Ela dizia que, quando morresse, os descendentes precisariam continuar realizando a festa dessa forma. Fazemos isso em respeito à nossa matriarca. É uma confraternização aberta a quem quiser chegar aqui na comunidade”, afirma.
Entre o terço, o samba e o futebol
A Festa de São Benedito carrega a diversidade da própria comunidade. Em dez dias de programação, missas e procissões se misturam a rodas de samba, shows de pagode e sertanejo, bailes, torneios de futebol society, corrida de rua, exibição de documentários e atividades comunitárias.“A nossa vivência é diversa. O futebol sempre esteve muito presente, assim como a música, o samba, o pagode, o baile. Tudo isso faz parte da nossa identidade quilombola”, explica Vânia.Mais que devoção, a festa é território de afirmação. “É um espaço para agregar pessoas, fortalecer a identidade étnico-quilombola e reafirmar o pertencimento. Quem somos, onde estamos e quais são as nossas tradições”. Entre os pontos altos estão o levantamento do mastro de São Benedito, a fogueira e a procissão que percorre as ruas da comunidade.Patrimônio vivo da cultura negra.
A Igreja de São Benedito, erguida em barro e reconstruída em alvenaria em 1919, é marco da presença negra em Campo Grande. Tombada pelo município e pelo Estado desde 1998, receberá reconhecimento nacional em 2026.Para Vânia, o templo extrapola o religioso. “É cultura, é história, é identidade e pertencimento. Não é só um patrimônio dos descendentes de Tia Eva, é um patrimônio da cidade, do estado e agora do Brasil”.A presidenta do Grupo TEZ, Bartolina Ramalho Catanante, a professora Bartô, reforça que o apoio do projeto ‘Festividades’ nasce da urgência de preservar memórias coletivas. “Quando o TEZ apoia uma festa como a de São Benedito, a gente apoia muito mais que um evento religioso. Fortalecemos um patrimônio vivo da cultura negra, uma memória ancestral que atravessa gerações”.Segundo Bartô, essas celebrações carregam saberes que não estão nos livros, mas nos corpos, nas cozinhas e nos cantos. “Ensinam sobre solidariedade, espiritualidade, resistência e identidade. O projeto existe para garantir que essas tradições continuem valorizadas como parte fundamental da cultura sul-mato-grossense”.Ela lembra que manter uma festa centenária exige esforço coletivo e recursos. “O apoio é uma forma de contribuir para que essa memória continue viva e para que as novas gerações entendam a importância histórica e cultural desse território”.
Ao longo de dez dias, entre o som dos tambores, as orações e o cheiro da comida feita em mutirão, a Festa de São Benedito reafirma o que Tia Eva iniciou há mais de cem anos: a fé como encontro, a cultura como resistência e a comunidade como guardiã da memória negra em Mato Grosso do Sul.O projeto Festividades conta com investimento da PNAB (Política Nacional Aldir Blanc), do Governo Federal, através do MinC (Ministério da Cultura), executado pelo Governo do Estado, por meio da FCMS (Fundação de Cultura de Mato Grosso do Sul).
Marcelo Rezende