Releitura sombria de Frankenstein, com direção de Maggie Gyllenhaal e atuações de Jessie Buckley e Christian Bale, aposta em drama e terror gótico
O mito da mulher criada para amar um monstro ganha nova forma nas telas brasileiras a partir desta quinta-feira (5), com a estreia de “A Noiva!”, releitura sombria que transforma a clássica figura ligada ao universo de Frankenstein em protagonista de uma narrativa própria, intensa e provocadora.
Dirigido por Maggie Gyllenhaal e estrelado por Jessie Buckley, Christian Bale e Jake Gyllenhaal, o longa mistura drama, ficção científica, romance e terror em uma produção de 2h07, classificada para maiores de 16 anos, que aposta em atmosfera densa e abordagem autoral para reinventar uma das personagens mais enigmáticas da literatura fantástica.
O filme se passa em Chicago nos anos de 1930. A trama apresenta uma jovem que retorna do mundo dos mortos por meio de um experimento conduzido por um cientista e motivado pela solidão de uma criatura que deseja companhia.
Ao despertar para a vida, ela precisa lidar com um ambiente atravessado por violência, desejo e relações marcadas por dependência e poder. Entre descobertas e conflitos, a personagem constrói sua própria identidade enquanto se envolve em um relacionamento arrebatador, que conduz a história por caminhos tão passionais quanto perturbadores.
Produção
Além de Jessie Buckley, Christian Bale e Annette Bening, o elenco reúne nomes de peso como Peter Sarsgaard, Jake Gyllenhaal e Penélope Cruz, ampliando a força dramática da produção. À frente do projeto, Maggie Gyllenhaal acumula as funções de roteirista, diretora e produtora, trabalhando ao lado de Emma Tillinger Koskoff, Talia Kleinhendler e Osnat Handelsman Keren na coprodução. A produção executiva fica por conta de Carla Raij, David Webb e Courtney Kivowitz.
Em entrevista ao canal HeyUGuys, Jessie Buckley afirmou que interpretar a protagonista de A Noiva! foi uma experiência transformadora. Segundo a atriz, a personagem estabelece uma conexão profunda entre mente, corpo e emoção. “Eu amei fazer a Noiva. Houve algo muito vital nesse processo, ela me revigorou”, declarou, destacando ainda o impacto de ver a história ganhar vida na tela.
Buckley também ressaltou o entusiasmo ao assistir ao resultado final e acompanhar o trabalho do restante do elenco. A atriz contou que, durante as filmagens, nem sempre tinha dimensão de todas as tramas paralelas, o que tornou a experiência como espectadora ainda mais especial. Ela mencionou colegas como Penélope e Peter, lembrando o clima de confiança no set, onde o incentivo era para que cada artista explorasse ao máximo sua própria sensibilidade.
Ao recordar a primeira conversa com a diretora Maggie Gyllenhaal sobre o projeto, Buckley revelou que tudo começou de maneira despretensiosa, durante um jantar em Paris. Entre taças de vinho, Gyllenhaal comentou que estava escrevendo algo novo e compartilhou um esboço inicial do que viria a se tornar o filme. “Era ainda um embrião, mas já tinha uma energia muito forte”, contou. Cerca de dois anos depois, a atriz recebeu o roteiro completo.
Questionada sobre os motivos que levam o público a assistir ao longa, Buckley afirmou que a história dialoga com os sentimentos de inadequação e com as “monstruosidades” internas que todos carregam. Para ela, o filme propõe uma reflexão sobre amor e aceitação. “O que há de mais estranho ou sombrio em nós também faz parte do que nos define. A pergunta é: até que ponto conseguimos amar isso?”, disse, definindo a narrativa como uma intensa montanha-russa emocional.
Já em conversa com o site Fandango, Maggie Gyllenhaal descreveu a realização do filme como um grande desafio pessoal. A diretora admitiu que sentiu medo em diversos momentos do processo criativo, especialmente por se aventurar em um território novo e arriscar uma abordagem pouco convencional. “Eu tinha o roteiro como guia, mas mesmo ele me assustava às vezes”, afirmou. Para Gyllenhaal, conduzir a produção foi como abrir caminho em uma floresta desconhecida, uma jornada de risco, descoberta e afirmação artística.
Crítica especializada
Em texto publicado no portal Sala de Cinema, a jornalista Thais Bentlin avalia que A Noiva! privilegia a densidade dramática em vez do terror apoiado apenas em sustos. Para ela, o longa encontra sua força na interpretação do trio formado por Christian Bale, Jessie Buckley e Jake Gyllenhaal, que constrói tensão a partir da vulnerabilidade e dos conflitos internos de seus personagens, atualizando o imaginário ligado ao mito de Frankenstein.
A crítica também destaca que o roteiro de Maggie Gyllenhaal aprofunda a dimensão psicológica da narrativa ao incluir reflexões íntimas do Monstro, ampliando a compreensão de sua solidão e de suas explosões emocionais. Ao mesmo tempo, a Noiva é apresentada como uma personagem marcada por traumas e condicionamentos sociais, com passagens em flashback que evidenciam as pressões enfrentadas pelas mulheres no contexto histórico retratado.
Já no site português Visão, o jornalista e crítico José Vieira Mendes interpreta o filme como uma abordagem arrojada e nada convencional da clássica história. Em sua análise, a diretora resgata o universo de Frankenstein sob uma perspectiva mais inquieta e rebelde, questionando o silenciamento histórico da personagem feminina e concedendo a ela protagonismo e voz ativa.
Para Mendes, o resultado é um conto gótico de forte intensidade emocional, distante de qualquer tom comportado. Ele ressalta que a Noiva encarnada por Buckley rompe com arquétipos previsíveis: não se limita ao papel de vítima nem assume a postura de heroína idealizada, mas surge como uma figura movida por desejo, inquietação e uma vontade própria que desafia expectativas.
O filme já está em cartaz nos cinemas, e você já pode conferir as sessões disponíveis na sala mais próxima.
Amanda Ferreira