A Copa do Mundo de Futebol de 2026 começa nesta quinta-feira (11), e México e África do Sul dão o pontapé inicial em um dos eventos esportivos mais esperados do mundo. No sábado (13), o Brasil fará sua estreia na competição, contra o Marrocos. Com a esperança do hexa, os campo-grandenses estão apostando tudo na possibilidade de levar a taça este ano e para simbolizar o evento, moradores resgataram uma tradição: a pintura de rua.
Na Rua Corumbatai, no Bairro Paraíso do Lageado, um pequeno bairro dentro da região das Moreninhas, a professora de arte Lilian Oliveira dos Santos Bezerra, de 46 anos, tirou um fim de semana de folga, reuniu familiares e resolveu dar um pouco de vida ao bairro, com pinturas da bandeira do Brasil, canarinho e taça.
A ideia surgiu pela cunhada, que ligou e pediu socorro a Lilian. “A família do meu marido é totalmente fã de futebol. Ela então perguntou se eu poderia ajudar e eu, nem tão fã de futebol, mas fanática pela arte, aceitei na hora!” relembrou ao jornal O Estado.
Mesmo que idealizada entre os familiares, os moradores da Rua Corumbatai se encantaram com o projeto e uniram forças a Lilian.

Foto: Arquivo Pessoal
“Quando cheguei lá, já tinham alguns vizinhos me esperando. Levei barbante e peguei pedaços de tijolo e concreto para começar a bandeira. Foi engraçada a reação deles ao verem a minha técnica para centralizar e desenhar certinho. Especialmente o compasso feito com o barbante também. Para mim, algo até simples e corriqueiro, aprendido na faculdade (me formei em 2006 na UFMS)”, explica.
Como professora de arte, Lilian até que é acostumada com projetos de decoração, mas a confecção da pintura na rua foi um desafio, principalmente pelas proporções dos desenhos. “E também pela textura do asfalto. Foi a primeira vez que fiz algo assim”.
Quem também reuniu a família e vizinhos foi Dayane Borgers e Lais Paulino, na Rua Juazeiro do Norte, no bairro Rita Vieira. Segundo Lais, a ideia de pintar a rua e reunir a comunidade para o ato surgiu entre um grupo de mães de uma escola do bairro.
“Reunimos as crianças que são amigos de escola, desenhamos a bandeira do Brasil na rua, alguns personagens e frase de incentivo, compramos tintas e pincéis, colocamos as crianças mesmo para pintar, para que elas tivessem o mesmo sentimento de pintar e criar memórias que já tivemos”, explicou.
Metade da rua foi fechada durante um fim de semana para a confecção da pintura, segundo Lais. “Foi muito positivo, as crianças estavam lá com os pais. Todos que passavam filmavam e tiravam fotos, achando o máximo, porque hoje em dia as crianças ficam mais em telas, celulares e nós resolvemos fazer diferente, criando memórias afetivas que ficarão marcadas para o resto da vida deles”.
Lilian reforça que esse sentimento de pertencimento à comunidade precisa ser resgatado entre os pequenos.

Foto: Arquivo pessoal
“Falo por experiência, tenho boas memórias até hoje de quando era criança. As crianças e jovens hoje em dia estão com uma carência de maior contato humano, de ver e vivenciar essa mobilização, é sentir na prática do que somos capazes”, disse.
Ela comenta ainda que, mesmo se o Brasil não ganhar a Copa do Mundo, um prêmio maior já foi conquistado. “É a união, a movimentação, a colaboração. Ou seja, tem premiação, seja qual for o resultado. Precisamos mostrar patriotismo para essa nova geração. Eu fui da época dos ‘caras pintadas’”, destaca.
Para Lais, será a primeira Copa de muitas crianças. “É a primeira que entendem. Essa pintura é uma forma de demonstrar para eles como é uma Copa do Mundo. Os pequenos adoram o Neymar, Cristiano Ronaldo e Messi, mas só colocando a mão na massa para podermos criar memórias neles.
Arte urbana
Na ação ‘Veste a Rua’, promovida por uma loja de produtos esportivos, em parceria com o Podpah Funkbol Clube, crianças e adultos se reuniram na Rua Armando Holanda, no bairro José Abraão, para transformar o cinza do asfalto em verde, amarelo e azul, cores da bandeira do Brasil.
E não foi qualquer desenho: a pintura no asfalto foi criada pelo grafiteiro Muriel Curunex, de 38 anos.

Foto: Arquivo pessoal
Campo-grandense de criação, o artista recebeu o convite para a confecção da obra de arte urbana pelo Podpah.
“A proposta foi vestir de verde e amarelo as ruas pelo Brasil, e nós fomos o Estado selecionado para representar a torcida”, explicou.
O trabalho foi realizado em parceria com Fábio Alcântara, com suporte técnico e execução da pintura, sendo de grande auxílio para a coordenação das crianças do bairro, que também participaram da iniciativa. “Isso não teria sido concluído sem a participação da população, moradores e torcedores da seleção”, destaca.
A pintura feita foi uma homenagem ao título de 1994, por isso a data estampada na camisa como tema central da arte. E para representar o time, o craque Bebeto virou arte, com sua clássica comemoração.
“Os moradores do bairro José Abraão deram um show na recepção e energia que contagiou todos durante a ação. Nas redes sociais foram muitas demonstrações de carinho e espírito de união. Posso dizer que foi um gol de placa, vestindo a camisa e indo para a rua. Se depender da torcida, o título já é nosso”, comemorou Muriel.
“Surgiram novas pessoas interessadas em somar e dar continuidade à decoração das ruas da nossa cidade. Novas ações deverão ser feitas em outros bairros, por meio de investimentos de empresários parceiros. Além disso, pretendo incluir o tema regional nas novas pinturas, exaltando a cultura do nosso povo, trazendo a fauna e flora do Pantanal”, adianta o artista.
Reunião temática
O trabalho de Muriel realmente ganhou as redes e o artista foi requisitado em outros cantos da cidade. Um deles é na Conveniência e Mercearia do Lago, localizada na Rua da Candelária, na Vila Ipiranga.
O proprietário do estabelecimento, Jordano Rafael, relembra que assumiu os negócios em 2024 e essa é a primeira oportunidade de realizar um evento desse tamanho. Ao navegar nas redes, ele viu o trabalho de Muriel no bairro José Abraão e resolveu acionar o artista para decorar a conveniência, que também cobrirá os jogos do Brasil, com um telão e muita cerveja, típico do brasileiro.
“Eu pensei: ‘Cara, e se a gente pintasse a calçada da loja desse jeito? Ia ficar um espetáculo’. Ai minha esposa entrou em contato com o Curunex e combinamos de fazer. Ele perguntou a nossa ideia, mas disse que era para ele fazer do jeito que quisesse, de forma livre mesmo”.
No momento, a pintura ainda não está 100% finalizada, mas a calçada já conta com bandeira do Brasil, canarinho, as cores verde e amarelo, copos americanos, calçada de Copacabana, campo e bola de futebol e um clássico cachorro caramelo. Por meio de um jogo de luz colorida, durante a noite a arte chega a brilhar no escuro.
“Agora todo mundo que passa tira foto, a clientela foi só elogios. Porque faz muito tempo que ninguém vê isso. Parece que se perdeu uma cultura que tinha muito antes. Eu ainda não vi estabelecimentos fazendo isso igual a gente”.
Além do telão para o dia 13, a conveniência deverá promover uma degustação de sorvete moda de viola para os clientes.

Foto: Arquivo pessoal
Símbolo nacional
Na Rua Oscár Ferreira Bugre, na Vila Nasser, quem ganhou chuteiras, uniforme completo e até uma bola de futebol foi um dos símbolos mais amados do país: o cachorro caramelo.
A arte foi idealizada pelo artista Lucas Nascimento, de 29 anos, conhecido como Rabisco Easy.
A ideia surgiu em uma parceria com a loja Sertão, que também promoveu a pintura de diversos muros temáticos, que uniram a Copa do Mundo com a fauna pantaneira. “O Caramelo da Copa foi um pedido que recebi muitas vezes nas redes sociais, principalmente do pessoal da Vila Nasser, bairro onde nasci e cresci. Então resolvi reunir a galera de última hora para resgatar aquela tradição antiga de pintar as ruas durante os grandes eventos de futebol”, contou em entrevista ao Jornal O Estado.
“O resultado superou todas as expectativas. Conseguimos reunir pessoas de todas as idades O mais legal foi ver a própria comunidade participando e ajudando a construir a arte. Já estou pronto para a próxima”, finaliza.
Andando pelas ruas da Capital, a reportagem ainda encontrou duas ruas temáticas: na Rua Lourenço de Jesus Ferro, na Aldeia Urbana Marçal de Souza, e na Rua Socó, no Recanto dos Pássaros. Com bandeiras, pintura no chão, bandeiras, fitas e o desejo pela taça, os moradores uniram fé no futebol e mobilização para trazer cor ao cinza do dia-a-dia.
Por Carolina Rampi